Ânsia

Abana de leve as bicheiras que te mastigam

deixa que levem isso que ferve a carne

Esse vulcão que  abrigas, dribla

vomita, as moscas, as dores

digere as cores quentes e chega!

Chega de pedir perdão

é isso que as moscas comem

disso que elas vivem

de ilusão, desilusão

Abre a geladeira, come o que cheirar bem

o que cheirar mal, devore

Sai à porta e olha teu público transeunte

cospe nos que aplaudem

enfia o dedo na garganta e explode

provoca uma autópsia sem lâmina

bota pra fora e vai embora

cata as moedas do chapéu

que essa porra nem vale a pena

Devorada

Ri, roda, sossega

essa alma, esse mundo

não tem manual, vem ver

da janela os foscos dentes

me mastigam, conversam

entre si, sorriem

para a solidão, solene, escandalosa

nossas almas rodadas, rendadas, perdidas

alimentam as horas

que devoram meus ponteiros, calam

a noite encarcerada, muda

essa cantiga muda.

A plateia só deseja ser feliz

Sei lá que dia da semana era, nem mesmo o ano me recordo. Só sei que a canção me tocou, como tantas outras, mas de uma forma especialmente diferente. Era uma tarde quente, disso me lembro bem. A turma estava agitada, eu também. As aulas de Sociologia eram sempre meio complicadas demais para a gente, e aquela letra, de alguma forma, me explicava o porquê. Tímida, não fui capaz de chegar até o professor e falar sobre aquele sentimento apertado, angustiado, que a canção despertou em mim. Parece bobagem, mas os professores sempre me pareceram autoridades inacessíveis, com as quais eu não conseguiria jamais conversar tranquilamente. Talvez, até hoje.

O tempo passou, mas não consegui esquecer alguns daqueles versos. Frequentemente, voltavam, mas já bastante confusos, fora de ordem, algumas vezes apenas palavras, mas sempre acompanhadas da certeza de que eram parte daquela letra. Eu já não conseguia saber se a angústia em mim era maior pelo que a canção representava ou pela ideia de jamais voltar a ouvi-la.

Minha memória, traiçoeira, não me permite descrever com exatidão o cenário da descoberta. Nem precisa. Imagino que tenha sido outra tarde quente. Mais pela emoção que pelo clima. Meu corpo era puro arrepio, não conseguia parar de tocá-la. Foi como atravessar o arco-íris, tomar o pote de ouro nas mãos e beijar cada moeda. Aos poucos, a a febre do ouro foi esvaindo, então, conforme me recompunha, pude saborear com mais prazer ainda a letra. O prazer virou angústia novamente.

Perceber que, aos 14 anos, aquela letra ainda era confusão para mim, me fez sentir menos humana. Era tudo tão óbvio, tão eu, tão nós.

Bem Meu

Não chore, meu bem, não chore

Esse tombo, seu joelho ralado, é só o começo, meu bem

O destino vai te derrubar tantas e tantas vezes

Talvez, você consiga resistir de pé, mas só depois de muito cair

Antes disso, haverá muitas quedas, muitas portas na cara,

gritos, silêncios, abraços amargos, lágrimas secas.

Por isso,

Não chore, meu bem, não chore

Eu deveria te levantar, mas você precisa saber, meu bem

Que muitas vezes os que você ama não te ajudarão

O desamparo será seu único abrigo

A dor, sua morada.

Então,

Não chore, meu bem, não chore

Lágrimas não mudam nada, meu bem

Mas disso você ainda não sabe, devo te dizer que

Nossos sofrimentos são apenas nossos

E não há compaixão que dure mais que uma tarde

Ninguém se compadecerá.

E só por isso, te digo:

Chore, meu bem, chore sim

Um dia você vai entender que a vida,

bem meu, a vida é só dor.

Chore, entorne o sal que brota nos teus olhos.

Logo, somente o pranto te pertencerá.

Dois Amantes

A rotina era quase religiosa. Fernando ia até a mesma cafeteria, pedia seu café sem açúcar, sentava perto da porta e observava o trânsito das pessoas que entravam e saiam ao longo dos trinta minutos em que permanecia no local. Naquela quarta-feira, como em todas as outras, sentou-se na varanda e acendeu o sexto cigarro do dia. A sua frente havia uma moça de olhar frígido, sobrancelhas marcantes e  lábios semi-abertos que prenderam sua atenção por alguns minutos. Bebia o chá e mastigava cada pão de queijo com tanta devoção que sequer percebeu como Fernando a fitava.

Aquele encantamento já era conhecido por ele, tantas moças já o fizeram sentir o mesmo e tantas vezes também ele deixou que o sentimento se perdesse. Mas, naquela manhã seria diferente. Quando a moça fez um gesto de partida, aproximou-se com sua postura pálida e tocou de leve seu braço. Os olhos se envolveram no embaraço da cena e Fernando quase não conseguiu completar a frase que imaginou muitas vezes dizer a alguém. Com um sorriso gentil que só as ruivas possuem, ela se desviou do convite feito e seguiu seu caminho.

Andar pelas vielas era outro costume que Fernando mantinha. As multidões o faziam perder-se de si, o que conseguia evitar segundo pelos caminhos estreitos. Duas quadras depois da cafeteria percebeu que a ruiva estava no mesmo caminho. Seus cachos pareciam refletir a cor dos raios de sol daquele dia tão magnífico. O espanto aumentou quando viu que ela morava no mesmo prédio que ele, apenas um andar abaixo. Foi até seu quarto, vestiu a roupa mais especial, pegou um mimo qualquer que o fizesse parecer delicado e desceu. Tocou a campainha três vezes antes que ela o recebesse. O brilho em seu olhar o fez entender que fizera o certo. Ela parecia sorrir com sua presença e seus cabelos emolduravam o rosto iluminado com a surpresa.

De imediato pegou o mimo que carregava e lhe mostrou. Ela o olhou e calmamente o convidou para entrar no apartamento. Sentou-se e elogiou o bom gosto da decoração. Só então percebeu que estava sendo completamente indelicado. Estava no sofá da moça e sequer havia lhe dito seu nome. Ela, ainda surpresa com a situação, demorou uns dez segundos para contar que se chamava Elídia. Com um gesto sutil da cabeça e da mão esquerda, Fernando pediu para que ela sentasse ao seu lado. Entrelaçou o mimo que trazia em seus cachos, vendo qual seria a melhor forma de utiliza-lo.

Elídia lhe parecia bastante entusiasmada com aquilo tudo, suava e não conseguia tirar seus olhos do vistante. Achou que era o momento ideal para se declarar. – Quero você para mim. Seus cachos, sua boca, toda sua pele. Toda para mim. – Com um longo suspiro, apertou os dedos em torno do mimo que trazia em sua mão direita e foi descendo pelo pescoço de Elídia. Voltou com ele para seus cabelos e arrancou o cacho mais perfeito que já vira na vida. Sentia que aquela lâmina era o presente ideal para ela.

Delicadamente, cortou as alças de seu vestido florido, continuando o gesto com sua calcinha. Depois de algumas horas de um sexo com gemidos abafados, percebeu a expressão esgotada de Elídia. Nunca pensara que seria tão simples conseguir amar alguém. Quando ela adormeceu de cansaço, pegou a lâmina e passou suavemente pelo seu rosto. Seu sangue era quase tão vermelho e lindo quanto seus cachos. Carregou-a até a cama, buscou outro vestido e, com carinho colocou-o nela. Sabia que era hora de partir. Felizmente, teria para sempre consigo um cacho ruivo e um pedaço do rosto de Elídia para lembrá-lo da perfeição daquela manhã.

Covardia Rotineira

suicidioEra a terceira vez que abria a janela forçada pelo impulso de saltar. Mas, como nos dias anteriores, não passaria de um ritual para começar o dia. Subir, descer, debruçar-se sobre o parapeito da janela mostrava o quanto a morte era fácil e complicada. Saía todos os dias pensando em como seria bom ser esfaqueada por um insano qualquer ou então atropelada pela embriaguez noturna dos jovens eternos. Entretanto, nenhum dos teus sonhos fatais se tornava realidade, e assim, dia após dia, sentia que apenas a vida acabaria sendo responsável pelo seu definhar.

No trabalho era apenas mais uma facilmente substituível funcionária. O chefe mal sabia seu nome e tampouco era importante para ele saber. Foi então que decidiu encontrar um outro lugar onde seu valor fosse apreciado. Foi quando percebeu que não tinha valor nenhum. Tentando responder a um formulário de voluntariado, não conseguia descrever nem mesmo uma qualidade própria, uma habilidade qualquer, algo em que pudesse ser útil. As únicas palavras que lhe passavam pela cabeça eram o que a definiam. Era mesquinha, egoísta, cínica, nunca conseguira sorrir sinceramente, jamais dissera um “eu te amo” que não fosse apenas um balbucio frio, nunca agradecia de coração pelos favores, e todos os “bom dia” e boa noite” eram secos e dados como que por obrigação. Os gentis e solidários sempre lhe parecerem estúpidos.

Neste instante, no meio daquele monte de perguntas sem respostas, ela compreendeu. Ninguém iria querer sua ajuda, ninguém queria, na verdade, alguém como ela por perto. Era como um tumor maligno  era doença sem cura. E o pior, era contagiosa. Como em um filme de terror psicológico, chegou ao final do seu, e entendeu que o assassino que destruía toda a alegria a sua volta era ela mesma. Mas não havia sequer outra personalidade a quem pudesse se agarrar, deixando a assassina de lado. Ela era somente aquilo, em toda sua composição.

E não importava toda a trajetória que a levou a ser assim. Apenas era e não havia solução. Foi quando o inevitável passou por sua cabeça. Ser aquilo não era o que queria. E se aquilo era a única coisa que poderia ser, só haveria uma forma de não ser. E não ser só poderia ser, se não fosse. Subiu os dez andares de uma só vez, lembrou do dia em que uma amiga contou do caso de uma menina que pulara do sexto andar e não morrera na hora. Não podia correr esse risco. O melhor para o mundo era que fosse definitivo. Sua respiração poderia estar contaminando todos os outros com essa doença incurável que se tornara. Imagine só se alguém decide ter compaixão e a salva da queda. Seria terrível.

Subiu mais quatro andares. Certamente não teria a menor chance de erro.

No funeral feito numa pequena capela apenas com os familiares que queriam ter certeza do ocorrido, havia poucas flores ao redor do caixão fechado. Como ela previra, ninguém chorou.

Num tempo da delicadeza

"sua partida me fez odiar qualquer passo desta dança"Meu coração era pura euforia. Amava, sem nenhuma pretensão, a tudo e a todos. Apenas amava e isso era o suficiente para me sentir completa. O coração acelerado denunciava a minha inexperiência no assunto. Já havia amado, mas não a tudo de uma vez só. A alegria era imensa e a vontade de dizer isso, maior ainda. Resolvi dizer, imediatamente e aos berros. Não sou de gritar, mas amor desse tamanho não se contém em sussurros. Sem pesos e nem medidas, fui até a criatura mais próxima e declarei-me. Era uma senhora bem velhinha, e foi ainda mais fácil amá-la, pois me lembrava tia Laura. Um longo abraço desfeito em lágrimas. Eu não queria nem pretendia chorar a cada encontro de almas, mas era carinho tão solene que não consegui me conter. Talvez por ser o primeiro, talvez por tia Laura, chorei. Poucas vezes chorei por alegria, saudade e carinho ao mesmo tempo, acredito que nunca. E chorei de novo por isso. Estava descobrindo em mim a face do puro amor. E o amor me mostrava um lado delicado que nunca pensei em conhecer.

Sentei num banco e um menino aproximou-se. Estava curioso com a forma como eu sorria e chorava tão harmoniosamente. Chamei-o baixinho e perguntei se também ouvia a música. Ele, com um olhar pensativo e assustado, balançou a cabeça em gesto de negação. Então, puxei-o pela mão, como as mães fazem quando tem uma surpresa incrível para seus pequenos. Disse algo que o fez compartilhar do meu sorriso: “Imagine!”. Levantei e comecei a dançar, ali no meio da praça, eu era bailarina sem música. O menino abriu um sorriso ainda maior e começou a dançar comigo. Girava, girava, girava. A dança era loucura e lucidez, era silenciosa e eu podia ouvir cada acorde em minhas veias.

Mas, algo me fez interromper a dança. Percebi que o andar vago e o sorriso despretensioso eram bem mais que gestos de puro amor. Era a maneira de dizer a mim mesma que, finalmente, estava livre. Uma auto-alforria. Passei perto de uma vitrine e fiquei observando meus curtos cabelos. Em um segundo consegui lembrar de todas as vezes em que a tesoura passou pela minha cabeça. Entendi o que estava acontecendo. Havia apenas uma pessoa que os longos cabelos me lembravam. Ele fazia tantos elogios à forma como eu, quase como numa valsa, entrelaçava as mãos e os cabelos, que sua partida me fez odiar qualquer passo desta dança. Aos poucos, enquanto me livrava de sua lembrança, livrei-me também dos cabelos que ele amava. Agora que nenhum daqueles fios que o agradavam me resta, sinto-me verdadeiramente livre daqueles sentimentos, do amor perdido, do ódio guardado. Agora, só posso dizer que o que me falta em cabelo, me sobra em amor.