Adeus!

O mais engraçado é que você vai como veio. Sorrindo.

Pelo menos sou coerente.

Não entendo.

Seu mal é esse. Fica sempre perdendo tempo tentando entender.

O que quer dizer com isso?

Eu te disse quando começamos que não era pra entender, era pra sentir, pra viver. Mas você insistiu nisso de entender.

Não gosto das coisas incompreensíveis, não são controláveis. Fogem do meu domínio.

Isso! Exatamente! Eu não sou controlável, por isso, incompreensível.

Você vai mesmo?

Sim. Não há mais lugar pra mim aqui.

Podemos mudar. Uma outra casa. Uma outra cidade. Outros empregos. Tudo novo!

Não, você não entendeu. Não há mais lugar pra mim em você.

Não seja tola. Todo espaço em mim é teu. Todas as brechas, todos foram ocupados por ti.

Isso é um grande problema.

Por quê?

Agora estou indo. O que acontecerá com estes espaços?

Não sei. Nunca pensei nisso. Nunca pensei em você indo. Não sei o que será…

Não pense então. Era isso que não queria, não queria despedida, não queria reflexão a respeito.

Não vá.

Tenho que ir. Soltemos as mãos, isso deve ser fácil. Ambos já passamos por isso algumas tantas vezes.

Sim. Mas dessa vez é diferente.

Por quê?

Nunca ninguém ocupou todos os lugares. Eu sempre deixava algum vago. Nunca me entregava completamente. Pelo menos até você chegar.

Desculpa. Mas eu te disse que não poderia te prometer nada. Te pedi para não sonhar. E você, teimoso, sonhou.

Desculpe-me, então. Mas sou sonhador.

Continue assim. Essa é tua maior riqueza.

Eu te amo tanto! Não vá.

Não disse mais nada. Deu-lhe um beijo na testa. Olhou a hora. Ainda era cedo para pegar o ônibus, mas mesmo assim levantou-se. Ajeitou o lenço no pescoço e partiu. Não olhou para trás. Se olhasse talvez o visse subindo no beiral da ponte. Talvez tivesse impedido-o de pular. Talvez não. Quem sabe?

Désespoir agréable

Nunca fiz uma dedicatória antes, mas acho que esse texto pedia por. Então, vamos lá. Dedico essa história ao amigo Ricardo José, que em meio a minha confusão, fez-me perceber que não era preciso optar por nenhuma alternativa, que eu poderia mescla-las. Eram duas, agora apenas uma. Longa, mas a história que não pensei e que agora é.

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Amava-o. Isso deveria bastar. Não, não posso. Repetia mentalmente. Repetiu em voz alta. Ele ouviu. Não pode o quê? Não consigo, preciso ir. Pegou a bolsa antes de qualquer resposta. Bateu a porta num gesto que ele compreendeu. Não voltaria.

Dali, pegou o carro e foi direto ao consultório de seu psicoterapeuta. Doutor Fernando não está disponível no momento, posso marcar um horário…deixe-me ver… dia vinte e três. Tudo bem?

Não. Não estava tudo bem. Era uma emergência. Aquela cretina não conseguia perceber? Pensou.

Preciso vê-lo agora. Disse, num tom quase violento.

Verei o que posso fazer. respondeu a secretária.

Sentou-se. Não queria, mas precisava esperar.

Dez minutos depois, saiu da sala uma mulher loira, com uma rosa cafona no cabelo. Por um instante esqueceu do motivo que a levara até lá apenas para contemplar toda a delicadeza e cafonice daquela flor.

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Pegou a rosa que insistia em sobreviver naquele vaso cafona e enfiou-a sobre a orelha. Sentiu-se bela. Dezesseis e quinze. Precisava correr, a consulta estava marcada para as dezesseis e trinta. Sentou em frente ao doutor Fernando. Mentalmente questionou o quão pouco “doutor” ele parecia. Sempre com a barba por fazer, as unhas roídas. Parecia que escondia algo.

Qual o teu segredo? Quis perguntar. Manteve-se calada. Doutor Fernando já estava acostumado com os religiosos primeiros vinte minutos de silêncio antes da conversa costumeira.

Hoje eu me sentia tão ofuscada,  precisava de algo que me fizesse destacar no meio da multidão. Iniciou ela a conversa já esperada.

Por isso a rosa? Perguntou o “doutor”.

Sim, por isso a rosa. Mais silêncio.

Quando pensou em falar mais alguma coisa, foi interrompida pela porta. Era Rosângela, a secretária sempre atenciosa.

Doutor Fernando, é ela novamente. Me parece bem aflita desta vez.

Diga a ela para esperar mais alguns minutos.

Mas assim o senhor a deixa mal acostumada, doutor. Retrucou Rosângela. Mas a voz da moça era doce. Doce e misteriosa. Fernando sempre cedia às suas vontades.

Eu já estou de saída. Tenho um compromisso. Pode dizer a ela, seja lá quem for, que hoje é seu dia de sorte. Pegou a bolsa, ajeitou a rosa e saiu. Até quinta, Fernando.

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Foi até o bar mais próximo, onde pudesse esbarrar com o máximo de conhecidos. Pediu sua taça habitual de gim. Puro. Desceu rasgando. Era bom.

Alguém sentou ao seu lado. O perfume era bom. O balcão era curvo, bastava fazer um pequeno gesto e poderia ver a face, um movimento discreto, certamente imperceptível. Porém, não quis fazê-lo. A suspeita era mais fascinante.

Outro gim. A pessoa lhe parecia tão solitária, mas ela também ficaria só aquela noite. E todas as outras. Ninguém sentia nem sentiria dó de ti. Não sentiu também do companheiro sem face.

Quis ir até até o toilette para ver se sua rosa ainda estava com o tom vermelho cafona de quando saiu de casa. Mas o corpo permaneceu ali, imóvel. Então, cedeu. Ficou ali. Virou a taça, colocando-a com força de volta a mesa, como quem fora desafiada a beber todo aquele líquido.

Tem fogo? – A voz era doce e misteriosa. Quis dizer que sim, que tinha muito, que poderia incendiá-la.

Não. Não fumo.

Então, o que faz com esse maço entre os dedos?

Pensou em explicar a terapia que doutor Fernando lhe passara para parar com os cigarros, mas naquele instante pareceu estúpido.

Não fumo. Repetiu sem olhar para o pedinte que, diante da negativa, levantou-se em busca da chama que desejava.

A música na jukebox era lenta. Um blues. Pensou na redundância que era dizer “blues lento”. Abriu pequeno sorriso.

O sabor do cigarro acesso ao seu lado invadia suas papilas. Desejou fogo. O fogo que tivera em sua juventude. Lembrou de um velho amor. Do nome não. Nem do rosto. Ainda menos da voz. Só lembrara do que ele a fez sentir. Fogo.

Fez um gesto em direção a pessoa da voz misteriosa.

Fogo?

Por favor. Encostou seu cigarro no dela. Encararam-se. Os cigarros queimavam. Estranhou o modo como ela olhava sua flor. Sentiu-se bela.

Lembro de você. É a moça da rosa no cabelo que vi no doutor Fernando mais cedo. Abriu um largo sorriso.

Sorriu também. Começaram uma longa conversa.

Mais um gim.

 

Do(i)s sentimentos

De que me valem todas essas palavras se o que sinto é indizível. Nem mesmo suspiros, onomatopeias, gestos, olhares, nada, nada é capaz de representar o que sinto.

Queria ter a habilidade de um engenheiro para que pudesse criar engenhoca capaz de decifrar, decodificar cada uma dessas sensações que tenho aqui e que não encontro semelhantes nas dos outros seres.

Pode soar um tanto quanto presunçosa essa minha fala, mas juro que tentei. Tentei sentir o que os outros me diziam ser amor, que diziam ser ódio, nem mesmo a dor que por muitos me foi descrita jamais senti.

Temo ser diferente. Temo que descubram essa minha inabilidade de sentir.

Sinto algo. Duas coisas. Dois sentimentos.

Medo. Esse sempre me pareceu o mais lógico dos sentimentos, o que mais facilmente conseguia imaginar-se sentindo. Agora, sinto.

Paz. É, pode parecer estranho, mas ao mesmo tempo em que sou afetada por isso que decidi chamar de medo, sinto uma imensa paz. Por quê?

Simplesmente porque consegui perceber que não há duas pessoas que conseguem sentir a mesma coisa. Tudo o que fazemos é fingir sentir o mesmo que os outros. Essa pseudo-empatia é o que faz o mundo girar. Torna os seres humanos próximos, afáveis.

E, assim, o teatrinho vai se perpetuando e eu aqui, com meus dois únicos sentimentos.

Poemasemespaço,sempoesia

Oespaçoquecolocamosentreaspalavrassãoespaçosentreaspessoas

e,porissso,destaveznãocolocareiespaçosentreaspalavras

queroauniãodosgrãosdeareiamolhadospelaáguadapraia.

Sãovários,sãoum.

Vamos,amor,dá-metuamão,juntos,juntinhoscomoosgrãos

Estediaétodonosso,aproveitemostodasastuashorasparaamar

deitacomigoeficaremosaqui,

molhadospelaáguadapraia,

juntos,juntinhos.

Dum livro achado


Olhou para o lado da cama. Observando a pilha de livros que servia-lhe como criado-mudo, percebeu que entre aqueles havia um que nunca lera. Pegou-o, folheando lentamente. “Como pude nunca ler O pequeno príncipe?”. Perguntou em voz alta, quase que repreendendo-se. Resolveu faze-lo naquele instante.

A princípio, achou o livro infantil demais, cogitou parar, mas, aquela era uma decisão que tomara, não poderia voltar assim, tão facilmente. Aos poucos conseguiu encontrar beleza naquelas palavras. Um menino terno, que conseguia enxergar além do que os pobres adultos acabavam domesticados a ver. Que conseguia ver além de caixas.

Isso a encantou. Começou a devorar as páginas, os parágrafos, cada letra tinha um sabor que a muito não sentia. Era doce.

E, assim, acabou pegando no sono lendo aquelas tão afáveis palavras…

Entre confetes e serpentinas

(Qualquer semelhança com a vida real, certamente é obra da dificuldade de retirar fatos ocorridos recentemente de minha mente)

Deu um longo suspiro de cansaço. Já não queria mais estar ali, porém, era impossível lutar contra a força da massa que a cercava. Entrou na primeira porta que encontrara, uma agência bancária. Nenhuma surpresa foi ver diversos foliões estirados entre os caixas eletrônicos. Mesmo assim, o ambiente ainda era copiosamente melhor que o externo.

– Não vim a este mundo para isso. Quero meu videogame, minhas revistas, meu romance que anseio terminar leitura… – Pensou.

A amiga que a acompanhava disse que daria uma volta pelos arredores para ver se encontrava os demais amigos de quem se perderam em meio a multidão.

Então, ali, sentada, permaneceu.

Num instante de distração, com os pensamentos perdidos em bailes ideais, ouve uma voz conhecida. Não, não era possível. Voltou à fantasia. Logo, sentiu uma mão ao ombro e um chamado.

Levantou os olhos e notou que conhecia bem aquela voz e aquele rosto. Finalmente, pela primeira vez naquela manhã, abriu um sorriso espontâneo.

– Quanto tempo! Só o destino mesmo para nos colocar frente a frente, não é mesmo?

– Diria que as travessuras do destino, porque se não fosse a sucessão de intempéries que passei…enfim, quanto tempo mesmo.

E, assim, começou uma pequena longa conversa. Ela já nem se lembrava daquilo tudo que justificava a lágrima premonitória pintada em sua face. Depois dos quinze minutos mais prazerosos que poderia haver, um amigo o chama a porta e ambos percebem que é o momento de ir.

– Bem, até pediria teu número, se não tivesse sido levado, – sorriu – mas te encontrarei, pode deixar.

Ela sorriu descrente e, simultaneamente, esperançosa:

– Nos encontramos, então.

A saga teria que continuar, mas, desde o instante do reencontro, a moça já sentia-se no baile pouco antes imaginado.