Amoras despedaçadas

Permitiu que todas as lágrimas caíssem, que tocassem o chão. Chorava alto. Soluçava. Sentiu-se uma carpideira, que encenava grande tragédia por defunto desconhecido. Mal sabia seu nome. Nunca vira, de fato, seu rosto. E, mesmo assim, a dor que estava sentindo neste instante era maior que todas as outras. Não por outrem, mas por sentir-se a criatura mais estúpida que poderia ser.

Foi até o banheiro. Encarou-se por alguns segundos no espelho. Sentiu nojo do próprio rosto. Asco enorme tomou conta de si. Sabia exatamente que não deveria ter-se entregue. “Arisque!”. Lembrou da voz que sempre dizia-lhe. Vomitou. Pensando em si e nela. Queria que saísse tudo. A voz, as situações, a entrega toda, a sensação de tolice que estava impregnada em seu corpo.

Sabia que doeria e mesmo assim arriscou, como a voz dissera. Perdeu.

Sorriu. Gargalhou. Pensou em todas as outras vezes que sofrera desse jeito. Não, essa não seria a maior de suas dores, nem mesmo a última. Sempre era assim. Percebeu que havia até certo prazer em sentir-se desse jeito.

Pegou suas chaves e foi ao cinema assistir ao filme de romance mais meloso em cartaz.

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