Désespoir agréable

Nunca fiz uma dedicatória antes, mas acho que esse texto pedia por. Então, vamos lá. Dedico essa história ao amigo Ricardo José, que em meio a minha confusão, fez-me perceber que não era preciso optar por nenhuma alternativa, que eu poderia mescla-las. Eram duas, agora apenas uma. Longa, mas a história que não pensei e que agora é.

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Amava-o. Isso deveria bastar. Não, não posso. Repetia mentalmente. Repetiu em voz alta. Ele ouviu. Não pode o quê? Não consigo, preciso ir. Pegou a bolsa antes de qualquer resposta. Bateu a porta num gesto que ele compreendeu. Não voltaria.

Dali, pegou o carro e foi direto ao consultório de seu psicoterapeuta. Doutor Fernando não está disponível no momento, posso marcar um horário…deixe-me ver… dia vinte e três. Tudo bem?

Não. Não estava tudo bem. Era uma emergência. Aquela cretina não conseguia perceber? Pensou.

Preciso vê-lo agora. Disse, num tom quase violento.

Verei o que posso fazer. respondeu a secretária.

Sentou-se. Não queria, mas precisava esperar.

Dez minutos depois, saiu da sala uma mulher loira, com uma rosa cafona no cabelo. Por um instante esqueceu do motivo que a levara até lá apenas para contemplar toda a delicadeza e cafonice daquela flor.

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Pegou a rosa que insistia em sobreviver naquele vaso cafona e enfiou-a sobre a orelha. Sentiu-se bela. Dezesseis e quinze. Precisava correr, a consulta estava marcada para as dezesseis e trinta. Sentou em frente ao doutor Fernando. Mentalmente questionou o quão pouco “doutor” ele parecia. Sempre com a barba por fazer, as unhas roídas. Parecia que escondia algo.

Qual o teu segredo? Quis perguntar. Manteve-se calada. Doutor Fernando já estava acostumado com os religiosos primeiros vinte minutos de silêncio antes da conversa costumeira.

Hoje eu me sentia tão ofuscada,  precisava de algo que me fizesse destacar no meio da multidão. Iniciou ela a conversa já esperada.

Por isso a rosa? Perguntou o “doutor”.

Sim, por isso a rosa. Mais silêncio.

Quando pensou em falar mais alguma coisa, foi interrompida pela porta. Era Rosângela, a secretária sempre atenciosa.

Doutor Fernando, é ela novamente. Me parece bem aflita desta vez.

Diga a ela para esperar mais alguns minutos.

Mas assim o senhor a deixa mal acostumada, doutor. Retrucou Rosângela. Mas a voz da moça era doce. Doce e misteriosa. Fernando sempre cedia às suas vontades.

Eu já estou de saída. Tenho um compromisso. Pode dizer a ela, seja lá quem for, que hoje é seu dia de sorte. Pegou a bolsa, ajeitou a rosa e saiu. Até quinta, Fernando.

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Foi até o bar mais próximo, onde pudesse esbarrar com o máximo de conhecidos. Pediu sua taça habitual de gim. Puro. Desceu rasgando. Era bom.

Alguém sentou ao seu lado. O perfume era bom. O balcão era curvo, bastava fazer um pequeno gesto e poderia ver a face, um movimento discreto, certamente imperceptível. Porém, não quis fazê-lo. A suspeita era mais fascinante.

Outro gim. A pessoa lhe parecia tão solitária, mas ela também ficaria só aquela noite. E todas as outras. Ninguém sentia nem sentiria dó de ti. Não sentiu também do companheiro sem face.

Quis ir até até o toilette para ver se sua rosa ainda estava com o tom vermelho cafona de quando saiu de casa. Mas o corpo permaneceu ali, imóvel. Então, cedeu. Ficou ali. Virou a taça, colocando-a com força de volta a mesa, como quem fora desafiada a beber todo aquele líquido.

Tem fogo? – A voz era doce e misteriosa. Quis dizer que sim, que tinha muito, que poderia incendiá-la.

Não. Não fumo.

Então, o que faz com esse maço entre os dedos?

Pensou em explicar a terapia que doutor Fernando lhe passara para parar com os cigarros, mas naquele instante pareceu estúpido.

Não fumo. Repetiu sem olhar para o pedinte que, diante da negativa, levantou-se em busca da chama que desejava.

A música na jukebox era lenta. Um blues. Pensou na redundância que era dizer “blues lento”. Abriu pequeno sorriso.

O sabor do cigarro acesso ao seu lado invadia suas papilas. Desejou fogo. O fogo que tivera em sua juventude. Lembrou de um velho amor. Do nome não. Nem do rosto. Ainda menos da voz. Só lembrara do que ele a fez sentir. Fogo.

Fez um gesto em direção a pessoa da voz misteriosa.

Fogo?

Por favor. Encostou seu cigarro no dela. Encararam-se. Os cigarros queimavam. Estranhou o modo como ela olhava sua flor. Sentiu-se bela.

Lembro de você. É a moça da rosa no cabelo que vi no doutor Fernando mais cedo. Abriu um largo sorriso.

Sorriu também. Começaram uma longa conversa.

Mais um gim.

 

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