Amoras despedaçadas

Permitiu que todas as lágrimas caíssem, que tocassem o chão. Chorava alto. Soluçava. Sentiu-se uma carpideira, que encenava grande tragédia por defunto desconhecido. Mal sabia seu nome. Nunca vira, de fato, seu rosto. E, mesmo assim, a dor que estava sentindo neste instante era maior que todas as outras. Não por outrem, mas por sentir-se a criatura mais estúpida que poderia ser.

Foi até o banheiro. Encarou-se por alguns segundos no espelho. Sentiu nojo do próprio rosto. Asco enorme tomou conta de si. Sabia exatamente que não deveria ter-se entregue. “Arisque!”. Lembrou da voz que sempre dizia-lhe. Vomitou. Pensando em si e nela. Queria que saísse tudo. A voz, as situações, a entrega toda, a sensação de tolice que estava impregnada em seu corpo.

Sabia que doeria e mesmo assim arriscou, como a voz dissera. Perdeu.

Sorriu. Gargalhou. Pensou em todas as outras vezes que sofrera desse jeito. Não, essa não seria a maior de suas dores, nem mesmo a última. Sempre era assim. Percebeu que havia até certo prazer em sentir-se desse jeito.

Pegou suas chaves e foi ao cinema assistir ao filme de romance mais meloso em cartaz.

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La Niña

As portas agora estão fechadas. Não permitirei mais que entres. És como grande ventania. Uma ventania dissimulada, que a princípio vem leve como brisa, que simula grato refrescar em tortuoso verão. Abri a casa, deixei que tomasse conta. Aí, então, mostrava sua verdadeira face.
Derrubava quadros, arrancava minhas cortinas, deixando tudo revirado. Colocar tudo em seu devido lugar é difícil, dá trabalho.

Deixei que entrasse três verões. O estrago foi sempre o mesmo. Por isso, agora, as portas estão fechadas. Não adianta vir com teu assobio provocador. O frescor que me ofereces não compensa a bagunça que deixas em meu coração. Digo, minha casa.

Queda

Abriu os olhos lentamente. Fechou-os. Tornou a abrir. A luz que rompia o vidro já não permitia retornar ao sonho que tivera. Levantou-se, com ares de quem ainda resistia em acordar. Banhou-se, fez a barba, bebeu o café com as, quase religiosas, três gotas de adoçante e partiu para mais um dia de trabalho.

O caminho até o escritório era torturante. Do táxi era obrigado a observar a alegria matinal dos que passeavam pela orla, dos que praticavam esportes praianos, daqueles que apenas conversavam entre amigos, dos que acompanhavam seus cãezinhos. Todos que faziam a manhã sempre parecer maravilhosa. Eduardo os odiava. Não invejando a vida que levavam, mas porque sabia que nenhum deles era realmente tão feliz quanto tentavam aparentar. Todos, certamente, eram cheios de tantas dores quanto ele, isso era totalmente perceptível para Eduardo. Aqueles caminhares sem destino, as conversas despropositadas, andando com animais que ali, ao lado, só permaneceriam enquanto fosse alimentados…

-Pobres almas. – Pensava ele.

Sorriu levemente, imaginando o amargor de cada uma daquelas criaturas.

-Certamente aquela ali apanha do marido; Aquele tem uma doença terminal, poucos dias de vida e nenhum amigo com quem possa dividi-los.

Seu sorriso crescia conforme imaginava as situações e observava os falsos semblantes de felicidade.

Quis achar sua vida melhor que as deles. Não era. Não tinha sequer um amigo, amores nem mesmo os platônicos, nem dinheiro. Apenas trabalhava, o dia inteiro. O que ganhava mal dava para pagar suas despesas essenciais. Comida, aluguel, roupas, empregada, luz, prostitutas, telefone…

Chegou à sua sala. Resolveu que mudaria sua vida, teria grandes amigos, um amor para a vida toda, um gatinho de estimação. Darwin seria seu nome.

Balançou a cabeça rapidamente, como quem acorda de um cochilo em um momento inapropriado. Nada daquilo era para ele, seu destino era a solidão. Pensou em suicídio. Sua moral cristã o fez pensar no inferno. Desistiu. Já achava o verão carioca uma amostra um tanto quanto perversa do que o esperaria.

Ficou em silêncio por mais cinco minutos, levantou-se, foi até o terraço do prédio. De lá fitou a cidade, sua imensidão, seu imenso vazio de emoções. Alguém chegou repentinamente. Eduardo levou um grande susto. Tropeçou no beiral. Caía.

-Então, é isso? Morrer é isso?

Sentiu frio. O chão era parte de seu corpo. Viu a multidão de curiosos aproximando-se. Alguém chegou bem perto e falou algo incompreensível.

-Não dói. É até bom, uma sensação boa, sabe? – Sussurrou com dificuldade. – Então, é isso? Morrer é isso?

-ALGUÉM CHAME UMA AMBULÂNCIA. – Gritou um transeunte.

Com a última força que eu corpo reservava, segurou a mão do mais próximo e disse:

-Não. Por favor, não.

 

Sorvete napolitano

Queria saber o nome de todas as estrelas. Conhecer cada detalhe que torna única cada uma delas. Chamá-las pelo nome, criar apelidos.

Não conheço nenhuma.

Quando penso nas estrelas apenas um nome me vem a mente. O mesmo acontece com as flores. Só com as mais belas. É ele uma flor.

Odeio essa sensação!

Mas, acontece que realmente as semelhanças são tantas, que é impossível não lembrar. O brilho, as cores, os perfumes… São todos ele.

Meu medo era que fosse algum sentimento, amor, sei lá. Ontem, numa conversa, percebi que o problema não é que seja amor. Não é amor. Estou encantada, é isso.

Vejo nele algo que sempre busquei nas criaturas. Que nele irradia, naturalmente. Ele não entende. Também nunca disse isso a ele. Não direi. Certas coisas é melhor que fiquem assim, veladas.

O que mais me encanta é o fato de nem mesmo lembrar-me de sua voz. Como pode isso? Como posso estar assim inclinada a investir o tempo que me for requisitado em alguém que nem me lembro da  voz.

Estou confusa. Confusamente encantada.

Poesiar

E quem disse que pra poesiar é preciso fazer rima?

Poesia vai além dessa confusa teoria

eu, que não sou poetisa, mas por versos tenho estima

Muitas vezes me encabulo e crio tremenda agonia

Pois, com o nome que possuo, não sabendo criar poema

sou mal vista, questionada, viro motivo de gracejo

Vejo-me tal como matemático que não tem um teorema,

Como posso, sendo assim, poesiar como desejo?

Do que não foi, nem nunca será

“CRETINO!”

Tive vontade de gritar. Algo me segurou. Como sempre.

Queria ser desapegada de tantos pudores, tantas amarras. Tenho nojo de tudo isso e mesmo assim estou imersa neste lago de hipocrisia.

“Tudo bem.”

Foi o que, cabisbaixa, acabei dizendo. – Não, nada está bem, quero minha fatia de felicidade também. Sou humana. Mereço tanto quanto tu o que buscas. Saibas que também busco. Em outros lugares, de outras formas, mas busco.

“Oras, se não queres ser ferido, por que trouxeste este punhal? Se doeu em ti, o que te faz pensar que não dói em mim?”

Eu não disse isso, novamente minhas correntes me impediram. Às vezes, sentia vontade de voltar no assunto, mas não, ele não ouviu sequer uma das palavras que gostaria de ter dito.

Ele nem mesmo viu o meu semblante de rancor, indignação, incompreensão pelo que estava me dizendo e que eu pouco conseguia digerir. Não entendia suas palavras, tudo me parecia real, comecei a duvidar de tudo, de todos. O mal que me fizera ia além do que o que houvera entre nós dois.

Não, ele não viu isso, nem mesmo a minha vontade presa na garganta de agredi-lo, maldize-lo aos sete ventos. Está tudo aqui, dentro de mim. Quero vomitar, em seu rosto, fazendo-o sentir o sabor do que plantara em mim, de todo esse amargo sentimento chamado paixão.

Quero agarra-lo como um gavião, de maneira que seja impossível a defesa. Quero abraçar minha presa ferozmente, segurar com força seu corpo, beijar tua boca, dizer segredos aos ouvidos. Dizer que era tudo bobagem, que devemos recomeçar, que sou dele, que não se engane.

Mas, por enquanto, vou ficar com mais uma dose de tequila.

 

Memória

17 de novembro de 2009

– Um beijo! – Ela pedia com os olhos tão marejados, tão mareados, que ele não conseguia negar-lhe. – O último. – Fez questão de impor antes de satisfazer o pedido.

Durante alguns minutos tudo o que conseguiam enxergar eram os olhos um do outro. Entre mordidas, lágrimas, mãos entrelaçando fios de cabelo, esqueciam-se porque deveria ser aquela a última vez. Toda aquela delicadeza que só encontravam na ferocidade daquele amor. Só deles. Só eles.

– Nunca te esquecerei. Tenha certeza disso! – disse ela.

Ele sorriu. Abraçaram-se.

  25 de agosto de 2011

Chega ao café de sempre, cumprimenta a amiga que já a esperava a alguns minutos. Conversam. A amiga percebe o ar absorto e questiona-a.

– Não é nada. – responde, ainda conectada ao pensamento distante. – Sabe aquela estranha certeza de que conhece uma pessoa com quem cruzas na rua? Tive isso a pouco. Aquele homem não me era estranho. Seu rosto, seus lábios, os olhos. Todo ele parece que morava dentro de mim. Talvez o conheça de meus sonhos, mas o conheço, tenho certeza.

– Será que não foi algum colega de faculdade?

– Não sei. Eu não o esqueceria se fosse realmente importante. Então, deixemos isso pra lá.

Sorriu, fingindo que não ligava mais para aquele pensamento. Os olhos a denunciavam. Pareciam buscar o rosto em todas as lembranças. Não encontrava.