Sina

Apesar da proximidade nunca ter existido,

apesar dos olhos pouco vistos,

apesar das conversas serem sempre despretensiosas,

Pesando os pesares, o maior é a distância irremediável.

E aquilo que não tem remédio,

fadado à morte está.

Silêncio rouco

Calo,

Não há motivos para abrir os lábios neste instante.

Engano,

Dá-me apenas um meio sorriso habitual e mil palavras terei para dizer.

Venero,

As fotografias recortadas ainda estão dentro daquele livro.

Fujo,

Se questionada, nego, suo, tremo;

Já não consigo suprimir os devaneios que me fazes ter.

Sonho,

acordo, durmo,

sonho, durmo, acordo,

sonho. quero.

possuir-te é um sonho que habita minha realidade de quimeras.

Trois

Desligou o telefone já cheia de saudade. Sempre que conversava com Lucas ficava nesse clima, sentada ali na poltrona felpuda, pensando em cada momento que passavam juntos, em todas as possibilidades que os circundavam. Até que tocou o telefone novamente. Era Julia.

Julia tinha os lábios mais doces que já provara. Mais doces que eles, só seu sorriso cativante. O que sentia por ela não tinha nome. Estar com Julia era como estar sobre nuvens, era tão leve e tranquila…

Conversaram por umas duas horas – horas que passavam tão rapidamente. A conversa foi interrompida pelo soar da campainha e finalizada com um simples “te amo”. Simples e doce.

Ela esperava pela visita, flagrou-se sorrindo de ansiedade pelo encontro algumas vezes ao longo do dia. Pegou sua jaqueta rapidamente e partiram rumo ao cinema mais próximo. Estava louca para assistir àquele filme. Já na sala, lado a lado, as mãos dele sutilmente tocavam as dela. Enquanto isso, ela, sem tirar os olhos da tela, imaginava sua expressão.

Então, ele apertou forte sua mão, reagindo à cena de suspense intenso. Nesse instante ela soube: estava apaixonada. Pela terceira vez.

 

Há quem pense que não é possível amar mais de uma pessoa ao mesmo tempo. À estes, esta história parecerá puro devaneio. Talvez o seja. Mas o amor a cada vez, com cada pessoa, em cada momento, é algo tão singular… não sei se um amor necessariamente exclui um outro. Ou dois.

Alguns dias com ele

O seguinte é uma obra de ficção. Qualquer semelhança com pessoas vivas ou mortas é mera coincidência. Especialmente você, é, você mesmo, caro leitor que anda esperando uma história em sua homenagem*

Quando menos esperavam, aquilo que nem mesmo ‘menos esperavam’ aconteceu. O amor entre semelhantes parecia tão estranho a ambos, até que aconteceu. Então, pareceu certo. Porém, errado. Por isso, secreto.

Os dias que dividiam eram quentes e amorosos, ainda que, em público, o romance se resumisse a olhares discretos e doces. Surpreendidos pela força do sentimento, cogitaram abandonar as amarras da moral em que estavam enlaçados e declarar aos sete cantos que a sensação sentida quando juntos não poderia ser errada. Não poderia ser ‘pecado’ se somente havia amor.

Devaneio em demasia. – Afirmava o mais centrado.

Isso é o amor: Loucura! – Insistia o outro.

Aos poucos, o irrevelável romance tornava-se cada vez mais difícil de ser sustentado. E, como na maioria dos relacionamentos, um dia, numa tarde dominical, perceberam que era impossível. Não por falta de amor. Amor havia. Em excesso, por sinal. Entretanto, todas as outras coisas eram dificultadoras.

E, com um afetuoso beijo, despediram-se.

Há vezes em que pegam o telefone em busca do outro, mas sabem que não devem ser mantidas as esperanças que habitavam as tardes dos dias que passaram juntos.

 

 

*Dei uma colada da introdução de “500 dias com ela”. Adoro o filme e dane-se quem me vir mal por isso.

Catarseando

Fico confusa com o que dizes. Ainda que não abras a boca para dizê-lo. Isso é o que mais me confunde. Virgulas demais, poucos pontos de interrogação, poucas exclamações. Um ponto final. Mas, muitas vírgulas, é isso me mata. Talvez não mate, mas corrói. E a corrosão que causas é como morte lenta. Um câncer, talvez. Não, cânceres são dolorosos demais. Deste-me leveza, sorrisos sinceros… e agora, nada somos. Isso me confunde. Só queria ser aquela que te faz cantarolar canções tão doces. Não sou. Não serei. Tudo bem. Vai passar. Tudo passa.

“O primeiro amor passou.
O segundo amor passou.
O terceiro amor passou.
Mas o coração continua.”

                                          [Drummond]

Inútil espera

Queria. Queria por não querer. Não queria por querer. E, nessa confusão de desejos, só restava uma certeza, a de que não teria.

Abriu a caixa de correios aquela manhã com a mesma pretensão dos demais dias. Mas, como também ocorrido naqueles dias, somente cobranças, revistas e spams habitavam a pequena caixa, que a cada dia tornava-se mais desenganadora. Jogou as cartas na escrivaninha e seguiu sua jornada: trabalho-faculdade-café-casa.

Chegando, à noite, observou um envelope diferente no meio das cartas. Seus olhos brilharam. Seria aquela a correspondência a tanto esperada?

O papel rosado tomou tom cinza conforme decodificava sua mensagem. Era o resultado de um exame feito há tão distante época que já nem se recordava. Era totalmente desenganador, como a caixa de correio. Em palavras secas, que só médicos – que possuem a frieza de quem lida constantemente com a morte – poderiam usar. “Apenas mais alguns dias”, “impossível cura” e um “sentimos muito” que finalizava a mensagem.

Tentou chorar. Mas não tinha pelo quê. Talvez, se aquela carta chegasse antes dessa, tivesse. Mas não veio.

E como a sua triste sina era sempre enveredada por cartas que chegavam [ou não] à sua casa, decidiu escrever uma. Não haveria destinatário. Quando a lessem, seja quem fosse, desejava que sentissem a mesma coisa: vontade de aproveitar o tempo que não tem volta.

Pegou uma folha. Três horas se passaram, nada conseguiu escrever. Foi quando viu uma gota de chuva cair sobre o papel. “Vem tempestade”, pensou. Mas não chovia. Chorava. sentiu um aperto no peito. Faltou-lhe o ar. Caiu lentamente sobre a folha úmida. Ali deixara a maior mensagem que poderia deixar para seja lá quem fosse ‘ler’.

Metamorfose ambulante

Bem, hoje resolvi variar um pouco. O motivo? Nada em especial, provavelmente em breve volto a rotina dos outros textos. Só que hoje, especialmente hoje, fiquei bastante entediada enquanto lia as estórias anteriores. Percebi que tudo andava tão sensaboria, que sei lá. Talvez esse meu estado (blasé, ao meu ver) seja fruto do gradual desencantamento que tenho sofrido, tantas porcarias que cri até então, agora, me parecem apenas estupidez.

Pensando nisso tudo, decidi sentar aqui e começara escrever, sem propósito, sem assunto, sem lembranças toscas, despida das bobagens que normalmente me motivam neste espaço.

Não quero ser mal interpretada, não falo de arrependimento, falo de algo diferente, que não sei nomear. Não me arrependo de acreditar em certas coisas. Se cri, só devo isso a minha ignorância – vasta, diria infinita. Arrependimento é outra coisa.

Sobre arrependimento…

Há alguns dias fiz um comentário – em blog desses do mundo – dizendo que uma das coisas das quais duvido é a descrença no amor. Enfim, Se pudesse voltar ao instante anterior à confirmação do comentário, eu o desfaria. Por quê? Sabe o papo do parágrafo anterior sobre desencantamento?… Tantas coisas passaram em minha mente naquele instante. Todas tolices. Ouvi coisas, vi, disse, li, toquei, cheirei, enfim, coisas que me fizeram perceber o quão infeliz foi minha colocação naquele comentário.

Sobre algumas coisas da vida eu me permito desconfiar de serem reais ou não. Mas dessa vez, devo desdizer o que disse antes, realmente, é possível abrir mão de sentimentos. Não sei especificamente do amor, porque nesse ainda acredito. Tola, ainda espero pelo cavalo branco montado no príncipe, ou vice-versa, tanto faz. Mas ando tão incrédula ultimamente, que nem sei até quando isso continuará assim… Bem que me alertaram das referências que ando buscando, mas sou teimosa, prossegui, prossigo com elas. Contudo, é impossível manter certas posições. Como é impossível ver ‘Deus’, arte e amor da mesma forma depois de ler Nietzsche.

Coisas da vida…