Promessas afônicas

Já não era possível saber onde começava um e terminava o outro. Os beijos possuíam um ritmo enlouquecedor. Parecia uma dança. Uma louca dança. Talvez um tango. Os dois corpos, de tão unidos, pareciam um. O suor que escorria era o alívio para o atrito voraz. As mãos deslizavam suaves e com força pela nuca, espinha, passavam pelos seios, agarravam as coxas. Era tudo tão belo…

Na manhã seguinte, ela, antes mesmo de abrir os olhos, já se sentia só. Sabia que os abriria e ele já não estaria lá. Não quis abrir. Ficou ali. Prolongando a noite com sua imaginação. Mas, era preciso acordar. Sempre é.

Trabalhou aquele dia de maneira tão mecânica que, se lhe pedissem para descreve-lo, não saberia o que falar. Só conseguia pensar na efemeridade daquela relação. De como o prazer era pontual e a tristeza tão perene.

Na volta percebeu que precisava de um tempo só pra ela. E, de repente, percebeu que havia um belo jardim bem próximo ao seu escritório. “Seria algo novo?”. Indagou-se. Nunca saberia. Talvez estivesse ali antes dela, mas como nunca reparara na paisagem que a cercava, isso seria um grande mistério. Contudo, o mistério era o que menos importava. Então, entrou no tal jardim.

Era lindo. Pensou em colocar flores em casa. Algumas na janela da varanda. Violetas, talvez umas orquídeas. Mas ele não gostava de flores, tinha alergia. Ficou com uma grande raiva, pois sempre tinha que moldar-se a ele. Decidiu que deveria acabar com aquilo. Pronto. Seria o fim.

Chegou em casa com a ideia já firme. Sabia até o que falar. Isso se ele viesse. Às vezes, ficava semanas sem aparecer.

Ficou triste por isso. Por sempre esperá-lo. Por sempre recebe-lo de braços abertos e um largo sorriso.

Não, ele não a merecia. Sabia bem disso.

A porta se abre.

Seu coração palpita.

É ele, com seu ar sempre distante, que lhe dá um costumeiro beijo na testa. Ela sorri a contragosto. É mais forte que ela.

Então, abraça-o forte. Uma lágrima cai do canto do olho. Ele não precisa dizer nada. Não precisa fazer as esperadas juras e promessas de amor. Só seu amor lhe basta. É o suficiente para os dois.

E no fim das contas, nem fariam tanta falta as tais flores.

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