Sem destino

Quando se deu conta do que estava fazendo, percebeu-se abraçando um pedaço de papel. Riu. Gargalhou. Uma risada tão alta que certamente os vizinhos ouviram. Estava se dando conta do papel ao qual estava se prestando. Levantou-se decidida a modificar aquilo.

Pegou seu vestido mais provocante [para uma freira, certamente era]. Um florido. Colocou suas sapatilhas douradas, um xodó, que não usava a tempo, pois achava que atraia olhares em demasia. Passou um batom rosa, bem fraquinho – não queria parecer uma palhaça, tampouco, uma puta. E o toque final: penteou o cabelo para o lado contrário do usual. Aquela noite era outra e isso confirmava.

Depois de pronta, a grande dúvida: para onde iria? Pensou numa boate badalada que todos andavam comentando, mas o estilo musical pouco a agradava. Queria um lugar onde se sentisse bem, onde pudesse relaxar. Então, lembrou de um bar que fora uma vez. Sem saber porque, sentiu grande vontade de ir até ele. Pegou suas chaves e partiu em direção ao destino almejado.

Passada a entrada, estranhou um pouco. A luz era diferente de sua lembrança. A música também. Decidiu pegar uma bebida. Encostou no bar e pediu algo que pudesse aquece-la. O barman entendeu o recado e colocou rapidamente à sua frente uma taça de martini. Bebeu tudo num gole só e, com um gesto, sua taça já estava cheia novamente.

De repente, viu algo que a interessou. Um rapaz que parecia tão perdido quanto ela naquele lugar. Depois da terceira taça, resolveu que a aproximação era o mais adequado. Chegando mais perto, sentiu algo estranho. Uma impressão de reconhecimento do semelhante deslocado.

– Perdido?

– Nada. Sempre venho aqui. Sempre me sinto assim. Não sei porque volto.

Nesse instante ele a olhou fixamente. Soube porque sempre voltara. Viu em seus olhos o motivo.

– No fim da noite sempre acabo na mesma lanchonete 24 horas. – completou.

Riram. Sabiam. Ela, que aquela sensação era além daquele bar, além dos seus dias, talvez até, por que não, daquela vida. Ele, que não queria parar de olhar aqueles olhos, que voltava àquele bar porque precisava, precisava encontrá-la. Encontrou. Encontraram-se.

– Um sanduíche cairia bem…

Saíram dali com a certeza de que já não haviam motivos para retornar.

-Sabe… acho que se você colocar seu cabelo para o outro lado vai combinar mais contigo…

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