Inútil espera

Queria. Queria por não querer. Não queria por querer. E, nessa confusão de desejos, só restava uma certeza, a de que não teria.

Abriu a caixa de correios aquela manhã com a mesma pretensão dos demais dias. Mas, como também ocorrido naqueles dias, somente cobranças, revistas e spams habitavam a pequena caixa, que a cada dia tornava-se mais desenganadora. Jogou as cartas na escrivaninha e seguiu sua jornada: trabalho-faculdade-café-casa.

Chegando, à noite, observou um envelope diferente no meio das cartas. Seus olhos brilharam. Seria aquela a correspondência a tanto esperada?

O papel rosado tomou tom cinza conforme decodificava sua mensagem. Era o resultado de um exame feito há tão distante época que já nem se recordava. Era totalmente desenganador, como a caixa de correio. Em palavras secas, que só médicos – que possuem a frieza de quem lida constantemente com a morte – poderiam usar. “Apenas mais alguns dias”, “impossível cura” e um “sentimos muito” que finalizava a mensagem.

Tentou chorar. Mas não tinha pelo quê. Talvez, se aquela carta chegasse antes dessa, tivesse. Mas não veio.

E como a sua triste sina era sempre enveredada por cartas que chegavam [ou não] à sua casa, decidiu escrever uma. Não haveria destinatário. Quando a lessem, seja quem fosse, desejava que sentissem a mesma coisa: vontade de aproveitar o tempo que não tem volta.

Pegou uma folha. Três horas se passaram, nada conseguiu escrever. Foi quando viu uma gota de chuva cair sobre o papel. “Vem tempestade”, pensou. Mas não chovia. Chorava. sentiu um aperto no peito. Faltou-lhe o ar. Caiu lentamente sobre a folha úmida. Ali deixara a maior mensagem que poderia deixar para seja lá quem fosse ‘ler’.

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