As-tu Déjà Aimé

Pensando em cada um dos teus gestos, até os mais sutis, agora, me parecem brutais. Te quis como criança birrenta que deseja brinquedo alheio. Infelizmente, quando tive a chance de subir no cavalinho da morte, tropecei na cela. Tropecei algumas vezes e, se não fosse o tal cavalo sair trotando atroz, teria continuado a arriscada montaria. O que mais me instigava é que o animal era visivelmente de caráter manso, e mesmo assim não conseguia domá-lo. Eu, que quis dominar, então, senti-me dominada. Deixei-me levar pelo desejo de possessão. Precisava, queria, ansiava por algo que nem tinha certeza do que era.

Hoje, alguns anos depois, criança crescida, não vejo mais o que poderia querer em ti, pobre brinquedo enferrujado. Certamente, as lembranças são mais graciosas que as experiências compartilhadas. Me feriste vezes demais com sua ferradura e, neste instante, olhando-te pela janela, a relinchar para outra criança, com sua graça equina selvagem-erudita, não sinto muito. Não sinto nada. Nada além da incrível vontade de tentar arriscar outra subida.

Mas, deixarei as fantasias apenas na imaginação. Todas as vezes tentadas foram mal sucedidas, não me cabe mais brincar de ilusão. Já estou jovem demais para uma brincadeira tão senil.

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