Desafio particular – Parte II

Esse é meu segundo texto para o desafio literário que estou participando. A cada texto fico mais insegura e certa de que escrever é mais que devaneio.

Memória

Olhava para o tênis, antes branco, agora de um cinza que nunca tinha percebido. Queria levantar, calçá-lo e sair correndo, mas não conseguia. Por mais que insistisse, meu corpo não atendia às ordens do pensamento. Só conseguia manter-me com o olhar fixo na tela do computador alternado a atenção com o tênis. Como menos de vinte palavras podiam ser tão poderosas? “Elis sumiu. Não consigo falar no celular dela. Sei que ontem ela foi te ver. Por favor, encontre-a!”

As palavras rodavam minha cabeça, queria pensar, mas não conseguia. Abri meu facebook como todas as manhãs, mas diferente de todas elas, uma mensagem curta continha um pedido e uma ordem que não sabia se poderia executar. Entretanto, precisava.

Precisava, mas não conseguia. Não conseguia nem levantar e calçar o tênis, como poderia encontrar Elis? Onde estaria você, Elis? Minha memória, travessa, só me fazia recordar das risadas, do cinema, dos beijos, do “também te amo”, mas e depois? E a despedida? Houve despedida?

Suava. Era um pedido e uma ordem. Uma súplica. Imagino que a mãe estivesse desolada ao me procurar, afinal, sempre fui o namorado imperfeito. Certamente, muita acusação havia naquela mensagem, mas já não importava isso.

Enfim, levantei. Como num impulso de quem está atrasado para um compromisso, calcei o tênis e corri para lugar que parecia exato às minhas pernas. Chegando numa esquina tudo parecia mais definido. Aos poucos o turvo esquecimento sumia. Coloquei a mão no bolso e senti o celular. Sim, o celular de Elis. Descarregou e ela me pediu para guardar.

Neste instante, um sorriso. Exatamente o mesmo pelo qual me apaixono algumas vezes por dia. Linda, seus cabelos ruivos sob o sol ficavam ainda mais laranja, um laranja sem igual. Lembrei da noite juntos e da saída dela para comprar o café. Agarrei-a sem que ela entendesse. “Tá louco? Parece até que acabo de vir de longa viagem…” “Te amo!”.

Olhei-a e soube. Era o momento exato.

“Aceito!”. Ela disse, sem que fosse preciso perguntar.

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