Por fazer

Bateu a porta como quem não pretendia voltar. Lágrimas escorriam dos olhos do que ficara do lado contrário da porta batida. A chuva do olhar era tão mais tempestade que garoa que era possível ver a inundação que provocava no travesseiro, único consolador da dor ficada.

Lembrou-se da barba que nas noites de amor roçava em sua nuca. Sempre por fazer, tinha uma agressividade amorosa no atrito que provocava em sua pele. Mas, agora, já não havia mais atrito, nem amor, nem barba. Talvez apenas a agressividade tenha restado a pequena moça. Confiança é algo perigoso e aniquilador, tanto para o que confia, quanto para o que é confiado.

Sorriu imprudentemente. Não que houvesse lembrança boa em sua mente, ao contrário, lembrou do momento da despedida. “Despedida?” – pensou consigo. Nunca estiveram juntos, jamais se encontraram. Pensar num instante de despedida era ridículo, devaneio (apenas mais um).

Lúdico: melhor definição para aquilo que tiveram, ambos buscavam diversão e encontraram. O mal necessário que viam um no outro tornava tudo mais charmoso. Mas, apenas divertimento não bastava, não para eles, menos ainda para ele. Sua barba por fazer a fazia enlouquecer, o que ele buscava nela era misterioso, incompreensível. Suas almas românticas transfiguravam o prazer não fundamentado no amor em algo desprezível.

E, com toda a sua doçura, ele conseguiu repeli-la com aspereza. Secas palavras, nenhuma insinuação. Por tempo longo ela tentou entender, argumentar, compreender ainda que minimamento o que acontecera de uma noite para outra. Nada acontecera. Chegou, em uma triste manhã, a esta conclusão: nem tudo carece de explicação. E a manhã tornou-se triste por isso, não haver explicação para algo era um tormento enorme para alguém que buscava causalidade como oxigênio.

Fim. É apenas assim que pode-se resumir essa história. Durou pouco, não deixou frutos de alegria, nem de tristeza. Nem mesmo o travesseiro molhado tinha mais, ficou velho, jogado fora foi.

As lembranças são apenas poeira esperando que o vento venha dispersá-las.

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