Tarde de Chuva

Não, essa história não é sobre mim e a chuva que está caindo aqui, agora. Muito menos do que estou sentido. Essa é uma história sem protagonistas, uma história sem fim nem começo. Poderia ser a minha, mas só se eu assumisse.

 

Tendo os óculos devidamente ajeitados sobre o nariz disforme, continuou a escrever. Sentia que a qualquer instante seus dedos começariam a sangrar, mas o sangue seria um custo válido. Suas lembranças clamavam por serem guardadas em qualquer lugar, pois sua mente falhava em sua básica função, minutos eram o suficiente para apagá-las e isso o cansara.

Não queria mais ser criatura sem apego, sem sorrisos provocados por inusitado lembrar. Até mesmo as dores que corações vis o fizeram sentir o faziam falta. Qualquer lembrança, qualquer uma que o tirasse daquele estado o faria bem. Então, escrevia, tudo o que passava por sua mente passado era para o papel. A folha era seu recanto, seu alento.

Funes era seu ídolo. Como queria saber exato cheiro de cada rosa, dar nome próprio a cada uma por perceber diferença em cada uma e jamais poder chamar a todas apenas de rosas.  Mas não, era pobre, seu espírito não tinha paz.

Pegou uma fotografia. Era Chico. Amava aquele homem, sua voz o encantava e única vez pode ouvir sua voz de perto. Olhava a foto, mas não conseguia ter nenhuma lembrança, nada. Esforço imenso fez, mas nada. Secou a garganta, sentiu o nó. Não havia outra chance e, agora, aquele momento era puro desmemória.

Abriu a janela. As gotas caiam. Pegou uma faca. Fez pequeno corte no braço. Esperou a gota encarnada escorrer. Escorreu. Viu ali um dia, um sorriso, uma salva de palmas. Era Chico ali em sua mente, como se tudo estivesse acontecendo naquele instante.

Mais um corte.

Um pequeno gato surgiu. Aninhou-se em seu colo. Miou longamente, com tom de saudade. Saudade também sentira. Era Sofia, gata de infância.

Outro corte.

A boca estava seca. Então, surgiu senhora calorosa, com um grande jarro de suco de goiaba. Tomou três copos sem interrupção maior que o tempo preciso para enchê-los. Recebeu grande abraço da pequena senhora. Afago sentiu em seu peito quando percebeu que era sua avó.

O último corte não foi tão longo, já não conseguia segurar a faca com tanta precisão. Os olhos sequer conseguiram abrir-se para verificar o serviço da lâmina.

Não viu nada. Apenas escuridão. Não entendia. Teria sido o corte curto demais. Precisava pegar a faca e desfazer o engano. Não via mais nada. Nem faca, nem Chico, nem Sofia, nem vovó Lita.

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