Desafio FLUPP Pensa – Manguinhos

Mais um texto que escrevi para a FLUPP Pensa. A cada dia percebo que essa brincadeira de escrever é coisa mais que séria. Dessa vez o tema foi: Minha mãe gosta mais de meu irmão/minha irmã.

 

12 de maio de 2011

Eu não quero ser a mais amada. Filho do meio tem disso, sabe que nunca será o mais querido, sempre haverá o primeiro ou o último para levar esse posto.

Ontem os 3 ficaram a tarde toda fora. Quando voltaram para casa, mamãe estava com um sorriso enorme. Perguntei aonde tinham ido e tiveram a coragem de dizer que foram ao médico. Mentirosa!

Dizem que sou uma adolescente rebelde e me deram esse diário pra eu desabafar. Será que eles não percebem que meu problema é o Pedro?

Fê.

(…)

– Acho que dessa vez vai dar tudo certo, tia Elza. A Fernandinha parece que ficou um pouco chateada porque passamos o dia fora, mas crianças são assim mesmo, depois passa. Agora vou desligar porque preciso dar o remédio para o Pedrinho.

25 de setembro de 2011

Eu me sinto uma idiota escrevendo aqui, mas é o único lugar onde posso dizer tudo o que penso. Minha mãe e meu pai estão me deixando cada dia mais de lado. Quase todo dia saem, ficam horas fora, provavelmente em lanchonetes super maneiras, parquinhos, cinemas… e eu, aqui. Só estudo e vejo televisão. Marina não me entende. Também, nem tem como ela entender o que  passando. Tem todos aqueles amigos da faculdade pra darem atenção pra ela. Eu nem lembro como era antes do Pedro nascer, nem sei se um dia eu fui amada desse jeito que eles o amam, mas gosto de pensar que sim. Dizem que os filhos não dão valor aos pais enquanto eles estão vivos, mas acho que o meu caso é o contrário.

Fê.

(…)

– Tia Elza, eu e Jorge temos brigado muito. Essa fase precisa passar logo. Não tenho nem conseguido dar a atenção que Fernanda  precisando. Acho que vou levá-la para sair, só nós duas…

23 de dezembro de 2011

Depois de tanto tempo prometendo, minha mãe disse que amanhã vamos ao shopping comprar os últimos presentes. Estou animada! Finalmente, só eu e ela.

Fê.

24 de dezembro de 2011

EU NÃO ACREDITO QUE ELA TEVE ESSA CORAGEM!!! Fiquei tanto tempo esperando para ter um dia só com a minha mãe e, quando acordo, cadê ela???? Eles sumiram, aposto que o desgraçado pediu aquele boneco de presente que não dá pra achar em lugar nenhum e eles logo correram pra procurar. ODEIO TODOS ELES!!!

Fê.

(…)

A menina ficou a manhã toda sentada na poltrona de frente pra porta, furiosa. A mãe entrou quase que se arrastando. Pegou um vestido e disse para ela vestir. Olhando o rosto da mãe daquele jeito não teve coragem de brigar. Obedeceu. Entrou no carro e permaneceram em silêncio. A mãe rasgou a mudez:

– Fernanda, seu irmãozinho está… estava muito doente. Tentamos de tudo… – Chorou.

A menina entrou numa sala e viu a pequena caixa de madeira branca rodeada de flores e pessoas chorando.

Era o melhor presente de natal que poderia receber.

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