A [não]história de Marina – Último texto da FLUPP Pensa, versão 2

– Eu não sairei daqui enquanto este maldito cartão de memória não for consertado!

Era cerca de nove da noite, todas as pessoas na loja podiam ouvi-la e talvez todas as vivas almas do calçadão de Nova Iguaçu também, mas a jovem estava tão descontrolada que nem percebia os fulminantes e afiados olhos que a rodeavam. A gerente, polidamente, tentava acalmá-la prometendo generoso reembolso se ela se calasse imediatamente, contudo, qualquer esforço era vão. Mais dois berros e as certezas começavam a surgir entre os murmurantes ouvintes:

– Esses jovens viciados em tecnologia… São capazes de matar por causa de um chip. – Disse a sábia aposentada emergente do Bairro da Luz.

– Quanto barulho por nada! – Posicionou-se o rapaz que esperava pelo conserto do seu aparato high tech. – Tá revoltada? Vai ao advogado e processe a loja. – Completou.

Já com semblante de quem estava descolada daquele momento, a jovem sentou-se, agora silenciosamente. Os olhos ainda interessados, mas menos afiados, permaneciam falantes:

– Eita, deve ser maluca essa moça. Veja só a cara dela, agora tá com jeito de quem teve a mãe morta. Tem gente que dá mais valor a um cartãozinho que à família. – Disse voz sem identificação pela loja.

(…)
– Por que vocês sempre tiram fotos assim? Vamos mudar um pouco hoje, afinal, a ideia é que essa viagem seja inesquecível, não é? A gente nunca sai das nossas cavernas iguaçuanas, vamos aproveitar toda essa paisagem, esses novos ares!

Marina era sempre a mais animada durante os passeios, fotografava tudo, parecia que os instantes de felicidade corriam risco de desaparecer caso não fossem registrados.

– Guilherme, Fê, juntem-se! Deitem na grama que pensei numa pose bem engraçada.

Os amigos riam de como Marina encarnava a fotógrafa nessas saídas.

– Vou postar agora no Facebook! …Droga! Não tem sinal. Em casa posto.

(…)

Sirenes agonizavam pelo acostamento da Dutra até que conseguiram chegar ao seu destino. O casal parecia bastante ferido. Os enfermeiros fizeram os primeiros atendimentos e correram para o hospital da Posse.

– O mais estranho é que nenhum dos dois estava na posição do motorista. – Constatou o maqueiro.

(…)

Acordou dentro da igreja de Santo Antonio sem bem entender o que tinha acontecido. Lembrava-se de que estava dirigindo e, de repente, uma forte luz… Nada mais. Talvez o padroeiro de sua cidade a levara até ali, mas isso era o menos importante.

Deu um grande salto fazendo um movimento rápido em direção ao bolso da blusa. Encontrou o pequeno cartão. Sempre o guardava ali. Correu em busca de um lugar onde pudesse abrir aquele pequeno resquício de sua memória.

(…)

– Menina, é melhor ir para casa, alguém deve estar preocupado contigo lá. – A primeira voz que Marina ouviu enquanto voltava a si dentro daquela loja não fazia muito sentido. Talvez porque nunca achou que alguém se preocupava consigo, talvez porque não sabia onde seria a tal casa que a voz insistia em direcioná-la. Tudo o que tinha era aquele cartão, ele era sua preocupação e seu lar. Nele residiam suas angústias e alívios.

Quis pedir desculpas a todos os olhos pedantes que a circundavam, mas a voz não saiu. Os olhos não mereciam ouvi-la, eram mais cruéis que afáveis, por isso manteve-se repousada na garganta de Marina.

Abriu a porta lentamente, lembrou-se de uma outra loja, perto da Praça da Liberdade que poderia estar aberta.

Chegando à praça um súbito lembrar a atingiu. Não era exatamente uma imagem, mas sim uma palavra, uma pequena palavra: Fê. Neste momento tropeçou em uma das mesas com estampa xadrez que jogou-se em sua frente e foi como se ouvisse dela: “Vai logo, Marina! Você sempre faz isso, quando percebe que seu jogo tá em risco, começa a embromar.”. Sorriu. Realmente, não conseguia enganar Fê, ela era a melhor jogadora de damas com tampinhas que conhecia.

Talvez nenhuma loja fosse capaz de consertar o cartão de memória, entretanto Marina já pensara em um plano B, iria vagar por toda Nova Iguaçu para que pudesse fisgar as memórias que aquele cartão escondia, mas que sua cidade podia apresentar em cada tropeço.

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Sal de frutas

Esta é a história dela. Gostaria de deixar isso bem claro. Essa não é minha história. Não me confunda com essa criatura mal descrita nas linhas que seguem. Esse ser, pobrezinho, nunca conheceu os caminhos da vida que tomei. Ela é outra, não eu. Tenha isso sempre em mente ao ler esse texto. Não se sinta mais próximo a mim enquanto lê, não se identifique comigo. Estou apenas narrando a insossa rotina de alguém que não teria como fazê-lo. Não que não quisesse, mas temo que deixá-la tomar a caneta pode me desatinar de vez.

Por isso, faço questão de frisar, ela não sou eu. Ainda que respondamos pelo mesmo nome, ainda que habitemos o mesmo corpo, somos duas. Almas dúbias e complementares.

– Eu te quero.

– Repita.

– Eu te quero.

– Como sei se isso é verdade?

– Eu estou dizendo, deve bastar. Eu não minto para você.

Estas poucas palavras poderiam soar como doce declaração de afeto. Doce engano. Não se sinta um otário por achar isso. Quem pediu repetição também acreditou, principalmente quando ouviu pela segunda vez. Não somente pelo que estava sendo dito, mas pelas circunstâncias. Sim, claro, ele mentira outras vezes, fugia sempre que possível, era inclusive cruel muitas vezes, mas era doce quando queria. Isso bastava para ela, ficava satisfeita em saber que vez ou outra ele sentia vontade de ser doce consigo.

Alguns segundos de silêncio, quebrados apenas pelas respirações ofegantes da moça. Ele parecia que nem respirava. Pararam.
Aquilo era estupido demais, até mesmo para eles.

– Já erramos muitas vezes, acho que devo ir.

Não queria ir. E sabia que ele não a pediria para ficar, nunca pediu. Sentiu os olhos úmidos, provavelmente aquele seria o ultimo esbarro entre os velhos desconhecidos. Ele faria falta, suas palavras secas, seu humor tolo, as noites divididas falando das pessoas que ambos detestavam. Eram parecidos demais e isso a enojava. Era quase incestuosa aquela relação. Não, era algo mais estranho que trepar com um irmão gêmeo, era como como conversar com o espelho e ser respondido. Era doentio e maravilhoso.

Percebeu que estava há quase cinco minutos segurando a maçaneta. Não queria olhar para trás, sabia que possivelmente ele nem estaria mais lá.

Não olhou. Abriu a porta que pesava uma tonelada e andou lentamente até a esquina. Já estava distante demais quando decidiu olhar para trás, esperava ouvir um grito enlouquecido, seu homem correndo em sua direção, mas só ouvia a fumaça dos carros e ônibus. Andava cada vez mais rápido, mas a fumaça insistia em romper seus tímpanos. Foi quando tropeçou em algo que seria capaz de a derrubar se não fosse uma mão ágil a segurar antes.

– Você ia se machucar bastante. Deve estar mesmo com pressa para não ver uma bigorna no meio do caminho.

Por um segundo tudo silenciou. Os carros, os ônibus e tuas fumaças. Sentiu algo muito estranho. Algo que não sentia há muito tempo. A sensação quase a fez esquecer de se perguntar porque raios haveria uma bigorna no meio da calçada. Olhou novamente para ele. Esqueceu.

– Você está bem?

– Sim. Digo, não. Não muito. Sinto algo estranho no estômago.

– Bem, eu acho que tenho um sal de frutas aqui na mochila. Vamos sentar naquele café ali da esquina, você o toma e vê se melhora.

Ela acenou com a cabeça que sim. Ele parecia o remédio na dose exata que sua alma precisava para aliviar a azia da qual naquela tarde ela se despediu.

Suicídio a Quatro Mãos

– Vem, meu menino vadio
Vem, sem mentir pra você
Vem, mas vem sem fantasia
Que da noite pro dia
Você não vai crescer… – Ela cantarolava entre murmúrios e gestos desmedidos que acabaram derrubando o copo vazio.

– Por que este garçom demora tanto para trazer um maldito copo de cerveja???

– O bar parece estar fechado. Vamos embora, por favor.

– Eu não vou. Não! Nunca! Eu não desisto, não seria agora que começaria.

– Você já bebeu demais e está confundindo…

– Cale a boca!!! Não venha me dizer que confundo qualquer coisa. Eu nunca estive mais lúcida. Jamais tive tanta certeza do que preciso para viver, para ser feliz.

– Só há um problema.

– Eu sei. Eu sei…

– E então?

– Só quero meu copo de cerveja. Depois penso no “então”.

– Você não pode mudar nada. Sabes disso.

– Nem quero. Tenho total consciência disso. Só que gostaria de deixar claro que saber que não posso mudar algo não é o mesmo de desistir. Se um dia eu perceber que há alguma chance, eu a agarro. Ah, a agarro!

– Acho que o melhor é desistir.

– Pare! Por favor, pare! Não sei desistir. E, nesse caso, nem se eu quisesse… eu quis… quis muito, estas lágrimas me rasgam a face, dilaceram minha carne. Esquece. Você não sentirá jamais o que sinto agora.

– Acha que nunca derramei lágrimas tão salgadas quanto as tuas? Eu já amei, amei muito. Agora não me importo mais com isso. Tá vendo aquela gota escorrendo pela porta? Nela há mais amor que em mim. O amor perdeu o efeito entorpecente que mantinha sobre mim. Da última vez eu soube que seria a última. E foi. Acho que agora a vida ganhou colorido diferente. Sabe, quando a gente não vive esperando esbarrar com o grande romance da vida, tudo é mais simples. Amar é bom. Não amar é libertador.

– Não há nenhuma esperança dentro de você?

– Sim! Muita! Se esse verbo existir, esperanceio por tantas coisas que nem saberia dizer. Creio sem medida. Menos no amor. Se me perguntas porquê, rapidamente respondo. Olhe para você: desesperada, derrubando copos vazios, roubando olhares piedosos e enojados. Sinto pena dos que amam, pois amor é cela. É prisão cuja chave é engolida pelo encarcerado.

– Está ficando tarde. Preciso ir.

– Eu também. Espero que pense bem em tudo isso.

– Estou pensando.

Caminhou lentamente até sua casa. Eram apenas duas ruas e uma pequena ponte no caminho. Abriu a porta de casa. Sentou no sofá. Percebeu que sua última chance de amar tinha se encerrado naquela noite. Sua paixão deixou isso bem claro, mesmo que sem saber. Esperancear… não conseguiu conjugar o verbo inventado. Fechou forçadamente os olhos marejados. Sua tempestade era maior que a que começara a cair do lado de fora.

– Preciso vomitar essa maldita chave e me libertar.