Suicídio a Quatro Mãos

– Vem, meu menino vadio
Vem, sem mentir pra você
Vem, mas vem sem fantasia
Que da noite pro dia
Você não vai crescer… – Ela cantarolava entre murmúrios e gestos desmedidos que acabaram derrubando o copo vazio.

– Por que este garçom demora tanto para trazer um maldito copo de cerveja???

– O bar parece estar fechado. Vamos embora, por favor.

– Eu não vou. Não! Nunca! Eu não desisto, não seria agora que começaria.

– Você já bebeu demais e está confundindo…

– Cale a boca!!! Não venha me dizer que confundo qualquer coisa. Eu nunca estive mais lúcida. Jamais tive tanta certeza do que preciso para viver, para ser feliz.

– Só há um problema.

– Eu sei. Eu sei…

– E então?

– Só quero meu copo de cerveja. Depois penso no “então”.

– Você não pode mudar nada. Sabes disso.

– Nem quero. Tenho total consciência disso. Só que gostaria de deixar claro que saber que não posso mudar algo não é o mesmo de desistir. Se um dia eu perceber que há alguma chance, eu a agarro. Ah, a agarro!

– Acho que o melhor é desistir.

– Pare! Por favor, pare! Não sei desistir. E, nesse caso, nem se eu quisesse… eu quis… quis muito, estas lágrimas me rasgam a face, dilaceram minha carne. Esquece. Você não sentirá jamais o que sinto agora.

– Acha que nunca derramei lágrimas tão salgadas quanto as tuas? Eu já amei, amei muito. Agora não me importo mais com isso. Tá vendo aquela gota escorrendo pela porta? Nela há mais amor que em mim. O amor perdeu o efeito entorpecente que mantinha sobre mim. Da última vez eu soube que seria a última. E foi. Acho que agora a vida ganhou colorido diferente. Sabe, quando a gente não vive esperando esbarrar com o grande romance da vida, tudo é mais simples. Amar é bom. Não amar é libertador.

– Não há nenhuma esperança dentro de você?

– Sim! Muita! Se esse verbo existir, esperanceio por tantas coisas que nem saberia dizer. Creio sem medida. Menos no amor. Se me perguntas porquê, rapidamente respondo. Olhe para você: desesperada, derrubando copos vazios, roubando olhares piedosos e enojados. Sinto pena dos que amam, pois amor é cela. É prisão cuja chave é engolida pelo encarcerado.

– Está ficando tarde. Preciso ir.

– Eu também. Espero que pense bem em tudo isso.

– Estou pensando.

Caminhou lentamente até sua casa. Eram apenas duas ruas e uma pequena ponte no caminho. Abriu a porta de casa. Sentou no sofá. Percebeu que sua última chance de amar tinha se encerrado naquela noite. Sua paixão deixou isso bem claro, mesmo que sem saber. Esperancear… não conseguiu conjugar o verbo inventado. Fechou forçadamente os olhos marejados. Sua tempestade era maior que a que começara a cair do lado de fora.

– Preciso vomitar essa maldita chave e me libertar.

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