Sal de frutas

Esta é a história dela. Gostaria de deixar isso bem claro. Essa não é minha história. Não me confunda com essa criatura mal descrita nas linhas que seguem. Esse ser, pobrezinho, nunca conheceu os caminhos da vida que tomei. Ela é outra, não eu. Tenha isso sempre em mente ao ler esse texto. Não se sinta mais próximo a mim enquanto lê, não se identifique comigo. Estou apenas narrando a insossa rotina de alguém que não teria como fazê-lo. Não que não quisesse, mas temo que deixá-la tomar a caneta pode me desatinar de vez.

Por isso, faço questão de frisar, ela não sou eu. Ainda que respondamos pelo mesmo nome, ainda que habitemos o mesmo corpo, somos duas. Almas dúbias e complementares.

– Eu te quero.

– Repita.

– Eu te quero.

– Como sei se isso é verdade?

– Eu estou dizendo, deve bastar. Eu não minto para você.

Estas poucas palavras poderiam soar como doce declaração de afeto. Doce engano. Não se sinta um otário por achar isso. Quem pediu repetição também acreditou, principalmente quando ouviu pela segunda vez. Não somente pelo que estava sendo dito, mas pelas circunstâncias. Sim, claro, ele mentira outras vezes, fugia sempre que possível, era inclusive cruel muitas vezes, mas era doce quando queria. Isso bastava para ela, ficava satisfeita em saber que vez ou outra ele sentia vontade de ser doce consigo.

Alguns segundos de silêncio, quebrados apenas pelas respirações ofegantes da moça. Ele parecia que nem respirava. Pararam.
Aquilo era estupido demais, até mesmo para eles.

– Já erramos muitas vezes, acho que devo ir.

Não queria ir. E sabia que ele não a pediria para ficar, nunca pediu. Sentiu os olhos úmidos, provavelmente aquele seria o ultimo esbarro entre os velhos desconhecidos. Ele faria falta, suas palavras secas, seu humor tolo, as noites divididas falando das pessoas que ambos detestavam. Eram parecidos demais e isso a enojava. Era quase incestuosa aquela relação. Não, era algo mais estranho que trepar com um irmão gêmeo, era como como conversar com o espelho e ser respondido. Era doentio e maravilhoso.

Percebeu que estava há quase cinco minutos segurando a maçaneta. Não queria olhar para trás, sabia que possivelmente ele nem estaria mais lá.

Não olhou. Abriu a porta que pesava uma tonelada e andou lentamente até a esquina. Já estava distante demais quando decidiu olhar para trás, esperava ouvir um grito enlouquecido, seu homem correndo em sua direção, mas só ouvia a fumaça dos carros e ônibus. Andava cada vez mais rápido, mas a fumaça insistia em romper seus tímpanos. Foi quando tropeçou em algo que seria capaz de a derrubar se não fosse uma mão ágil a segurar antes.

– Você ia se machucar bastante. Deve estar mesmo com pressa para não ver uma bigorna no meio do caminho.

Por um segundo tudo silenciou. Os carros, os ônibus e tuas fumaças. Sentiu algo muito estranho. Algo que não sentia há muito tempo. A sensação quase a fez esquecer de se perguntar porque raios haveria uma bigorna no meio da calçada. Olhou novamente para ele. Esqueceu.

– Você está bem?

– Sim. Digo, não. Não muito. Sinto algo estranho no estômago.

– Bem, eu acho que tenho um sal de frutas aqui na mochila. Vamos sentar naquele café ali da esquina, você o toma e vê se melhora.

Ela acenou com a cabeça que sim. Ele parecia o remédio na dose exata que sua alma precisava para aliviar a azia da qual naquela tarde ela se despediu.

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