Idas e vindas

Sentou naquela velha cadeira de balanço. Precisava ir a algum lugar e aquele era o mais longe que poderia ir. Para frente e para tràs. Aquilo era angustiante. Não a limitação imposta pela cadeira, mas a limitação que as não paredes de sua vida a impunham. Se sentia limitada a liberdade, e isso era tão pouco, era tão cruel…

Olhou para suas mãos e quis fazer um gesto de uni-las, iniciar uma oração. Mas não acreditava em deuses. Bem que sua mãe disse que não Deus um dia lhe faria falta. Agora não tinha a quem culpar por todas as frustrações. Talvez tivesse em tempo de culpar esse tal criador que nunca fez questão de se apresentar a sua pequena criatura.

Enfrentar a Deus a essa altura do campeonato era o que menos queria ou precisava. Cuspiu numa formiga transeunte. Isso a fez sentir como Deus. Escarrando sobre os mortais humanos,  sobre suas vaidades e certezas. Estavam quites.

Levantou-se e foi até a cozinha. Pegou a maior faca de serra. Tocou o quente aço ao seu pulso frio. Serrava alucinadamente, mas apenas em pensamento, era covarde demais para se matar daquela forma. As mãos nada mexiam, nem a que estava com a faca, nem a outra. Sangrar até morrer lhe parecia doloroso demais e de dores prolongadas jà estava bem servida.

Correu para sua janela, era o 13° andar, seriam apenas alguns segundo até tocar o chão. Lembrou-se de Chico, de Construção, do “morreu na contramão atrapalhando o trafego”. Não queria atrapalhar as rotinas.

Pegou um frasco de remédios. Isso! Era perfeito, tomaria os comprimidos e esperaria dormindo pela brisa da morte, afagando-lhe a nuca, descendo pelas coxas, rompendo sua permanência de merda nesta vida. O plano era perfeito, mas os comprimidos eram para febre, febre infantil. Certamente seu corpo não era febril, tampouco infantil. Não sentiria nada com aqueles malditos comprimidos rosados.

O fracasso repugnante daquela criatura que nem para morrer era suficiente, fez com que caminhasse despercebida até uma poltrona de canto no quarto. Pegou o caderno que estava sobre ele e percebeu uma caneta em suas entranhas. Era a arma perfeita. Tirou a tampa daquela bic e encostou sua ponta no pulso. Escreveu. Primeiro uma palavra. Depois uma frase. Quando não tinha mais corpo para tantas palavras mortais, passou para o papel. Cada folha acabava tão rapido que quando chegou na contracapa que se deu conta do que tinha em mãos. Aquilo não era mais apenas um caderno. Era sua alma. E agora, em seu corpo so havia tinta.

Saideira

Sempre chegava no fim da noite, precisava ter a certeza de que seria o último. Quando apontava na porta ela já sabia, levantava-se e ia em sua direção. Abriam seus sorrisos quase sincrônicos e ela, estendendo a mão, o acolhia, como se fosse ele pequeno menino procurando cuidados. Mas não era menino, era homem, depois de atravessarem a porta do quarto isso ficava claro. Soltava a mão que antes o acolhera e segurava sua cintura com força suficiente para jogá-la sobre a cama num único movimento. E ela gostava.

Jogava-se, então, sobre ela, tirava sua roupa rapidamente, com  se tivesse a pressa de quem espera que um instante seja eterno. Adorava o cheiro daquelas peças cheias de histórias, cheias de tantos outros cheiros. Tacava-as sempre longe, mas os tantos outros suores que passaram nelas na mesma noite vinham provocadores com o vento. Faziam toda questão de entrar em seu nariz, de lembrá-lo de que tantos outros homens estiveram naquele quarto, naquele corpo. E ele gostava.

Durante o sexo esfregava-se com força no corpo dela, tanto que podia sentir os outros suores entrando em seus poros, habitando seu corpo. Lambia o corpo daquela sua mulher, sua e de todos os outros, daquela noite e das anteriores, lambia para sentir o gosto dos outros machos, sentia-se mais macho assim. Sentia que vencia, era o último, era o suor que ela levaria para sua acolhida, para a cama em que poucos homens iam. Lambia. E ela gostava.

Depois de satisfeito, entregava o mérito do prazer alucinante àquela mulher, mérito escrito em cédulas. Deixava a entender que não voltaria, que uma outra, digna, o esperava na sua casa. Mas ela sabia que o veria em breve, mesmo sem saber porque, mesmo sabendo, ele voltaria. Porque apenas ela possuía todos aqueles outros suores para oferecer a ele. E eles gostavam.