Finalmente, algo sobre amor

Caminhava pela calçada quando de repente lhe ocorreu: “Eu não a amo mais”. Desistiu de passar na locadora, mas fez questão de comprar um pote grande de sorvete, daquele com pedacinhos de biscoito, era o preferido dela. Aquela mulher com quem estava dividindo risadas, choros e a cama, precisaria de consolo e nada melhor do que o companheiro gelado. Não, não estava pensando em si mesmo, apesar da definição também servir para ele.

Entrou no carro e durante a viagem de volta para o seu apartamento só conseguia pensar em uma coisa. Aquilo o afligia mais do que qualquer uma de suas experiências mais dolorosas, mais até do que quando cortara o dedo em uma lata de sardinha e temeu a morte por tétano.

A questão era: quando, afinal, o amor acabara? Não sabia a resposta e, sinceramente, pouco se importava com ela. Percebeu que a aflição não era por isso. Até porque, enquanto pagava pelo sorvete, percebeu que talvez nunca a tivesse amado. Sua angustia seria, então, por que teria levado aquela mulher que não amava para dentro de sua casa, para seu apartamento? Não quis problematizar isso, estava cansado demais e preferiu gastar sua mente com suposições sobre as obras do Maracanã. “Isso nunca vai ficar pronto pra Copa”. Ai sim percebeu o que era uma verdadeira aflição.

Chegou em casa com o discurso ensaiado, “não é você, sou eu.”, “você é a pessoa certa, no momento errado”, “blablabla”. Mas não teve muito tempo para isso. Abriu a porta e se deparou com a mochila cheia de botons em cima da poltrona e ela terminando de passar o rímel. Disse que não voltaria e que um táxi chegaria em 10 minutos para busca-la. Deu-lhe um beijo na testa que deixou apenas uma marca e foi. Realmente, nunca mais voltou. Ele sentou na poltrona, pegou o sorvete e limpou a marca do batom da testa.

O mais engraçado dessa história é que ela é mais próxima do que vivemos diariamente do que aquilo tudo que ouvimos quando éramos crianças. Não nos ensinaram a terminar, pois todos os amores que conhecemos eram para sempre. Acontece que o para sempre às vezes dura dois ou três meses. Provas de amor são status de relacionamento em redes sociais. A gente sabe que o amor acabou quando a exclusão no facebook é recíproca. As pessoas se deletam e fazem questão de esvaziar suas lixeiras, para que não haja recaída. Mal necessário, afinal, o amor é um worm.

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Era para ser uma estória de amor

Encostou os sapatos do lado esquerdo da poltrona, e dessa vez não era o habitual scarpin verde musco com o qual já estava acostumado a tropeçar. Era um tênis, cinzento, como aquela manhã. Olhei bem seu rosto distraído e notei o quanto os anos lhe tinham sido cruéis. Nunca percebi a maneira triste como seus olhos piscavam, como sua boca contraia-se quando estava concentrada em algo. Suas mãos pareciam tremer enquanto se esforçava para amarrar os sapatos. Pensei em ajuda-la, em segurar suas mãos, mas não tive coragem. A cena seria desnecessária e ainda mais cruel que o tempo que a fez tornar-se uma mulher digna de piedade, da minha piedade.

Pegou suas bolsas e as repousou no canto da varanda, esperava pelo táxi e, então, resolveu acender um cigarro. Aquele cheiro me fez lembrar exatamente o porquê da da minha ansiedade na noite anterior por sua partida. Lembrou-me de muitas coisas, de angústias, mágoas e de uma noite. Não! Ela já estava indo, não precisava lembrar daquela noite. Maldita memória que não podemos controlar! Tomei o cigarro de sua mão e joguei no carpete. Ela ficou olhando para mim com semblante choroso, mas não me enganava. Sabia que aquela mulher tinha imenso desejo de me matar, isso se tivesse forças. Mas não tinha. E isso me fazia sorrir, sempre por dentro quando cruzava com ela pelos corredores da casa, e agora meu sorriso estava estampado em meu rosto.

O táxi chegou e corri para dar-lhe as instruções. Quis dizer que, sob hipótese alguma, ele deveria voltar àquele endereço, mas percebi que soaria mal. Ative-me a sussurrar o endereço de destino e, num gesto rápido, depositei uma generosa quantia em sua mão. Se ele não chegasse ao destino seria melhor, mas eu sabia que chegariam. Ela sempre chegava aonde queria. Mesmo que dessa vez não quisesse, chegaria. Porque mais prazer do que fazer o que desejava, tinha ao fazer o contrário do que eu desejava. Lentamente, dirigiu-se ao carro. Aquele instante me pareceu eterno. Fez um gesto de abraço que rapidamente desviei. Um ultimo olhar e os lábios semi serrados tentaram dizer algo, uma frase que não fiz questão de entender.

Fechei a porta. Nenhum adeus. A noite chegou e pude sentir a leveza que há tantos anos esperava. Procurei alguns amigos para sair e beber para comemorar, mas poucos se demonstraram interessados em dividir da minha alegria. Sai sozinho mesmo, precisava ouvir as canções de novos tempos, de tempos de liberdade.

Passava das quatro da manhã quando cheguei em casa, estava tão bêbado que mal consegui abrir a porta. Sentei na poltrona e adormeci. O sol rasgava minha pele e tive certeza que já passava do meio dia. Quando me dei conta de que estava sentado em sua poltrona tive nojo de mim mesmo. Lembrei daquela noite e rapidamente me levantei. O telefone tocou, não esperava ligação, então fui lentamente ao seu encontro.

“Sim, sou eu, pode falar…Não preciso sentar, fale logo, de onde é?…Que tem ela?… Quando aconteceu? Não havia ninguém por perto? Isso é um absurdo!… Desculpe-me, perdi o controle…  O quê? O que ela disse?… Isso não faz muito seu estilo, mas se tu falou eu acredito. Passo aí mais tarde para assinar a papelada. Boa tarde!

Desliguei o telefone sem bem acreditar no que acabava de escutar. Pela primeira vez ouvi seu nome e me dei conta que não a veria mais. Dessa vez, nunca mais. Eu já havia lido alguns artigos sobre isso que estava sentindo, mas nunca achei que seria assim tão forte, que poderia me estraçalhar a alma desta forma. Saudade. Apenas isso. Sentei em sua poltrona e me lembrei daquela noite. Era natal. Éramos felizes. Estava sentado no seu colo e aquela cena era apenas aquilo. Éramos apenas neto e avó.

Luz difusa

Cruzei as pernas, dei a última tragada no cigarro e o apaguei na coxa pálida da vadia sentada ao meu lado. Ela sorriu. Sentia um prazer esquisito toda vez que eu violava aquele corpo. Era engraçada a forma como ela se sentia comigo, provocava nela algo que nenhum homem era capaz.

Ergui a barra do meu vestido e subi no palco. Toquei o microfone como gosto que toquem meu pau, com força. Puxei alguns versos de Cazuza, mas naquela noite eu e a plateia sabíamos que quem estava naquele palco era Geni. Senti uma mão deslizando em minha perna, que levantei e, com certa firmeza, toquei meu salto agulha em seu rosto. Sabia o que era preciso fazer para deixar um homem excitado, claro que sabia, e fiz. O cara ficou bastante nervoso porque desdenhei de sua masculinidade latente. Ele queria provar que era macho, quis dizer que estava no lugar errado, mexendo com a garota errada, mas a canção era mais envolvente, “Bete balanço”… Deixei, então, que os seguranças o explicassem.

Já passava das duas da manhã quando ele resolveu se aproximar. Eu não pretendia subir pro meu quarto com ninguém àquela noite, mas enquanto ele se aproximava fui mudando de ideia. Era exatamente como o homem dos meus sonhos deveria ser, alto, de barba alinhada, olhos penetrantes, vestido como um pianista de orquestra. Pude sentir minha circulação sanguínea alterando seu rumo de maneira tão intensa que fui obrigada a cruzar as pernas. Há algum tempo homem nenhum me deixava de pau duro tão facilmente, precisava saber ao menos seu nome. Continuou vindo em minha direção e deu um largo sorriso. Não precisava saber seu nome. Precisava daqueles dentes cravados na minha carne. Levantei e fiz um gesto facilmente compreensível de que deveria subir comigo. Ele obedeceu.

O suor escorria pelas minhas costas, pelo seu rosto, pelos nossos pelos. Quando o prazer me fez virar a cabeça para a esquerda, tomei um susto. Não sei se ele percebeu, nem sei se aconteceu mesmo, mas senti minha respiração parar por dois minutos. O velho abajur da velha sala de leitura de papai. Não fazia o menor sentido ele estar ali. Aquele abajur não existia. Ou existia? Não sabia mais. A dúvida foi me fazendo meter mais forte no rabo dele. O abajur, como poderia? Como chegou no meu quarto? Lembrei das tantas vezes que papai deixou apenas aquela luz difusa iluminando sua sala de leitura, nossa sala, apenas nossa, minha e dele… Tocava meu rosto e dizia que seria sempre nosso recanto, onde poderíamos ser o que quiséssemos. E eu queria ser mamãe. Queria fazer papai gozar, queria chupá-lo e fazer mamãe ouvir seus gemidos, como eu era obrigado a ouvir os dois trepando todas as quartas-feiras. Era algo até meio religioso, como uma missa, com dia certo e hora marcada para começar e terminar.

Mas eu não podia ser mamãe. Não, o general, com toda pompa personificada na barba sempre alinhada, jamais me deu essa opção. Um dia, sentados em nossa sala, lhe disse que não queria mais cortar o cabelo, que queria um cabelo como o de mamãe, longo, para que pudesse fazer uma trança. Ele, como um verdadeiro macho, levantou-se, fechou a porta, apagou a luz e, somente iluminados pela agradável presença do abajur lilás, dançamos nossa primeira surra. Ele me disse para sair de sua sala, que eu não deveria repetir aquilo, ou ele mesmo arrancaria minhas bolas para eu comer no jantar. Pela primeira vez pensei em como seria bom ter duas bolas em minha boca.

No dia da minha formatura do colegial, depois de um pouco de cerveja, um uísque vagabundo e ácido pra cacete, levei Rui para minha casa, para nossa sala. Apaguei todas as luzes, mas fiz questão de deixar aceso o abajur beato de papai. Ele deveria presenciar o que aconteceria, deveria me ver chupando as bolas que papai me prometeu e que eu naquela noite saborearia. Gemi mais alto do que meu desejo pedia. O roçar dos nossos corpos, de Rui, do abajur, de papai e o meu era o frenesi que nunca senti. Papai descia para seu leite quente noturno e eu ali, bem pertinho, também recebia o meu. Ri, ri daquela situação, papai e eu tomando leite. Gargalhava e Rui não entendia nada, me chamou de bicha louca, deu dois tapas na minha cara, recolheu suas roupas e saiu. Papai ouviu a movimentação, mas não ousou abrir a porta. Pude sentir o cheio viril de sua hesitação na maçaneta, mas ficou nisso. Provavelmente não queria se deparar com seu filho de quatro, ou talvez estivesse prezando pela castidade do abajur.

As visitas noturnas à sala de leitura tornaram-se cada dia mais frequentes, principalmente nas quartas-feiras. Deixei meu cabelo crescer, ele não podia mais me impedir. Tomei alguns vestidos de mamãe e vestia-os quando pretendia caçar. Os estranhos de barba bem aparada eram os preferidos. Levava-os sem medos, só queria o prazer de seus corpos, sob a luz do abajur. Depois de algum tempo, percebi que só queria o abajur. Lembro bem do dia em que a maçaneta finalmente girou. Achei que papai enfim tivesse decidido entrar na brincadeira. Sim, papai, mamãe é uma puta frígida, eu tenho o calor que você precisa, apague a luz, acenda o abajur, seremos só nós na nossa sala, podemos ser qualquer coisa, podemos ser um do outro.

Não, não era papai, era a vadia velha; mamãe. Aquela mulher conseguia sempre interromper todos os meus momentos de tesão, todas as minhas ereções, tenho certeza de que era proposital. Aposto que papai lhe disse “vou ver o que robertinho está fazendo” e a vadia se ofereceu para descer e vir ver. Dessa vez não a deixaria me atrapalhar. Rapidamente, catei o abajur com a mão direita e joguei em sua direção. Um bom lance para um canhoto, consegui acertar bem no meio da cara. Ela caiu. Papai ouviu o barulho e desceu. Certamente vinha me agradecer, imagino há quanto tempo ele não sonhava com aquela noite. Mas não foi exatamente assim. Ele gritava, eu gritava, dizia que o amava, dizia ele que eu era louco, assassino. Ele não calava a boca. Agarrei-o, mas ele não parava. Disse que não tinha mais filho, que eu deveria ir, sair de sua sala, de sua vida. Eu não queria ir, precisava dele, precisava daquela sala. Peguei o abajur e comecei a dançar. Senti sangue em meus lábios, mas com os olhos fechados, continuei a dançar. Não havia mais sangue, não havia mais pai. Fui embora. Saí de sua sala, saí de sua vida.

Abri os olhos e estava de novo em minha cama. O suor, os pelos, o abajur. Éramos apenas nós, nus em pelo. Eu, papai e o abajur. Coloquei meu vestido e desci. Precisava de um cigarro. Precisava deixar aquele homem em minha cama fora da minha mente. Precisava deixar a minha mente fora daquela cama, fora daquela sala, fora dele. Cantei, cantei, jamais cantei tão lindo assim. E todo o cabaré me aplaudiu de pé.