Toda a Poesia Contida sobre o Lobo Temporal

Todos aqueles homens que se sentaram ao seu lado durante aquela tarde lhe pareciam definitivamente amáveis. Talvez fosse culpa da chegada da primavera, talvez fosse a notícia que recebera do doutor horas antes. Um belo tumor poderia ser capaz de criar uma nova perspectiva nas pessoas. Passou umas horas inteiras sentada naquele banco da praça, pensando sobre como seria mais intensa a vida de todos, se estivessem com um cronômetro alojado sobre seus lobos temporais.

Suspirou profundamente. A doce dor que palpitava em seu peito era sintoma explícito de sua vontade de não querer perder tudo o que ainda estava por vir, o que ainda seria inventado, os programas de tv que não estreariam a tempo, as músicas de seu cantor preferido que não ouviria, das brigas e do gosto de jiló que nunca experimentou. Não gostava de jiló, mesmo sem ter jamais provado. Era burra, e agora  estava certa disto. Deixou que a vida passasse e ela passou. Agora, seu prazo de validade estava prestes a vencer e não havia reversão possível, não existia antídoto e nem retardante para o tempo.

Voltou-se para a moça que se sentou ao seu lado e perguntou as horas. A jovem rapidamente respondeu, sem voltar o rosto para a requerente: “quinze para as cinco”. Sempre achou interessante a precisão com que a humanidade conseguiu fragmentar nossa existência a partir de alguns números. Mas sentia falta das não-horas, de instantes que não pudessem ser representados por minutos ou segundos. O tempo aprisiona nossos corpos ao teu bel prazer. Escravizados, damos total legitimidade a ele, erguemos a chibata quando, por tamanha força imposta, ela rebate de nossas costa e cai perto de nossas faces. A liberdade é o terror, é ponte para terreno desconhecido, é paraíso, limbo e inferno concomitantemente.

Agradeceu o gesto de indelicadeza da moça – afinal, falar ao outro olhando nos olhos deveria ser tomado como bons modos – e levantou-se. Seu peito doía cada vez mais forte e tinha certeza de que apenas um remédio era suficientemente eficaz contra isso. Ligou para seu melhor desafeto e não hesitou: “Que tal dividir um prato de jiló frito?”

Homem-de-lata e outras razões para não sorrir

Homem-de lata

Ele não tinha um coração, mas não sentia falta disso.
Até que, certa manhã, alguém que lhe disse que ele era apenas metal. Nada além de uma máquina idiota.
Então, ele chorou e morreu enferrujado.

Fada dos dentes

Eram grandes amantes, juravam amor eterno.
Dez anos depois, ela apanhava diariamente. No dia dezenove de abril, perdeu o último dente.
Não seria o último chute. O eterno era tempo demais.

Luto

Ouvi a notícia do falecimento da senhora que morava ao lado de sua casa.
Saiu mais cedo do trabalho e correu para chegar a tempo.
Felizmente, conseguiu olhar nos olhos do cadáver e confirmar a sua indiferença pela vida humana.

Empatia

Andando pela calçada rapidamente, tropeçou em um mendigo.
Quase pode sentir a falta de afeto que corroía a carne daquele homem ali no chão, com força apenas para esticar o braço.
O mendigo pediu desculpas por atrapalhar sua passagem, e então, se sentiu melhor para continuar andando rapidamente.

Nascimento

O feto nasceu com quatro quilos e era quase maior que a própria mãe.
Certamente, uma das doces ironias da natureza. Zombando da mulher raquítica e do homem franzino.
Chegaram em casa e fizeram a engraçadinha perder o tom. Como? Enfiando a cabeça do pequeno no vaso até que toda a sua irrelevância e fragilidade fossem reveladas. Agora sim, o fruto verdadeiro do que é ser humano.

Olhos castanhos

Entregou-se a tantos homens quanto pode.
Pintava-se e forjava ser outras que nunca poderia ser de fato.
Um dia, um deles disse que estava apaixonado.
Ela disse que havia muitos segredos entre eles. Ele disse não se importar.
Contou sobre os outros, sobre as drogas, sobre os assassinatos.
Ele compreendeu, se abraçaram como num pacto e foram dormir.
Antes de deitar, ela tirou as lentes de contato. E ele partiu durante a noite.
Acreditou naqueles olhos e eles eram falsos.