O dia em que não teria marmelada

 

Naquela manhã, o sol pareceu singularmente receoso de nascer. Nenhuma relação com a recente mudança de controle do tempo, o tal horário de verão. O dia mal começara e todos já pareciam entender o que aconteceria. Aquela cor esverdeada no céu não prenunciava boas novas, de certo que não.

Ana não tinha escolha, já faltara mais do que deveria nas duas primeiras semanas na escola. Aquele dia justificava qualquer ausência e, certamente, muitos padeiros não produziram bisnagas, muitas prostitutas não abririam as pernas, mas Ana decidiu sair de casa.

Abriu a porta e logo seu coração apertou-se. A expressão de reflexo de angústia nunca lhe pareceu tão exata. Se não fosse menina de meros dezessete anos, poderia pensar em problemas cardíacos. Mas Ana tinha saúde perfeita, pelo menos física. Bateu a porta, ignorou a palpitação e seguiu. Pegou a barca, assistiu sua aula, retomou a barca e chegou em casa, sã e salva. Suspirou.

Batidas na porta interromperam o cochilo no meio da tarde. Correu espantada, pois era de se estranhar visita àquela hora. Espiou pelo olho mágico e ficou ainda mais surpresa por avistar seu professor de matemática, Jorge. Ana abriu a porta e foi logo perguntando o que havia acontecido, queria saber a razão para a visita inesperada e para o afobamento do professor, que suava e tremia.

Ana foi pegar um copo de água para seu professor e pediu para que ele se sentasse. O homem era jovem,  não mais que 24 anos, cabelos encaracolados e loiros, aparência angelical, como costumavam lembrar seus colegas professores. Quando voltou com o copo de água, Ana perdeu as palavras. Jorge estava empunhando uma faca, pequena, com serras. Não a apontou para Ana, nem para si, apenas a segurava, mas isso já era suficientemente assustador para a menina.

Quis perguntar o que ele pretendia, mas a essa altura as cordas vocais já não a respeitavam. Mas isso nem foi preciso, pois tão logo, o rapaz começou a falar.

– Ana, me desculpa vir aqui a essa hora da madrugada, eu só precisava ter certeza de que teria alguém por perto. Eu vou precisar de um isqueiro, você tem um isqueiro?

Ana arregalava os olhos com cada palavra sem sentido que o professor disparava. Atônita, ficou imaginando formas de sair da situação, mas sua mente apenas conseguia construir uma nuvem cinza.

– Ana, me escute, eu não vou te machucar. Essa faca eu trouxe para nos proteger. Eles estão vindo, eu consegui um pouco de querosene, tá na minha mochila, mas eu preciso de um isqueiro.

A menina conseguiu sussurrar as primeiras palavras depois dos longos minutos (uns cinco) de silêncio.

– Quem está vindo, professor? Do que você está falando?

O homem correu para cima de Ana, abraçando-a bem forte. Disse baixinho em seu ouvido que agora ele estava ali, que sentira o mesmo que ela pela manhã, que percebeu que era a única forma de mantê-la protegida. E Ana se sentiu protegida, aquecida, afagada. A sensação foi rompida abruptamente, Jorge afastou Ana e olhou-a de uma forma tão fixa que ela se sentiu gelada imediatamente. Novamente ela a segurou, mas agora sem afeto, sem calor. Rasgou suas roupas, jogou seu corpo sobre o sofá e apertou seu rosto no travesseiro.

Ana tentou se soltar, mas ele era miseravelmente mais forte. Enquanto a respiração da menina passava de ofegante para suspiros saltados, Jorge gozava. Seus olhos reviravam, o prazer era incomparável. Era isso que sentira naquela manhã, que precisava deste prazer em seu corpo, em sua alma. O corpo, agora inerte, parecia cada vez mais atraente. Carregou Ana até seu quarto, colocou-a na cama e ejaculou algumas vezes sobre ela, aproveitando cada instante do romance tanto imaginado.

Quando se sentiu cansado, percebeu a fome que o estômago não fazia questão de camuflar. Olhou para Ana, tão gostosa, provavelmente seu sabor era magnífico. Com sua faquinha arrancou uma fatia da coxa, o que provocou uma grande sujeira, mas o cheiro era bom. O sangue fresco sempre o cativou, pegou então a carne e levou à boca. Quase gozou novamente, o gosto era melhor do que imaginara, precisava de mais. Precisava de tudo.

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E se fosse ficção…

Era domingo, dia ensolarado, o céu claro parecia prever a noite sombria que lhe sucederia. Invadiu cada espaço no qual podia entrar, com ou sem permissão, tentava iluminar a mente daquelas pessoas.

O sol ainda não havia partido, mas já era noite, e era uma noite triste, fria, pelo menos para os descontentes. E do descontentamento poderiam surgir revoltas, manifestos, mas os gritos eram mudos, não havia maneira possível de ouvir àqueles que iriam revirar na cama naquela e nas próximas 1460 noites, os que não dormiriam em paz.

Paz. Em um cenário confuso, de tantas inglórias, esta é apenas uma palavra, não um estado. Seria bom despertar pela manhã e sentir-se em um mundo onde as pessoas sabem exatamente toda a verdade, seja ela agradável ou não, um mundo onde as mentiras não fossem recebidas tão calorosamente, que o antigo e falho não conseguisse se restabelecer sob aplausos e ovações.

Sei hoje, mas que ontem e que amanhã (espero), que este mundo é tão distante quanto as estrelas que julgo pequenas porque não posso enxergar com nitidez. Atribuo pequenez aos que aplaudem, assim como ao aplaudido e, claro, a mim. Somos pequenos pelo conforto estúpido em nossas posições. Quem me dera fosse tudo diferente, fosse tudo ficção.

Não é. A realidade é o que dá o tom dramático, se fosse de chorar, eu choraria.

Visceral

Amassou e desamassou o mesmo pedaço de jornal algumas vezes. As notícias já estavam todas velhas, mas não era capaz de perceber. A desatenção sempre lhe foi companheira e a idade agravou essa condição. Já não conseguia acompanhar novelas, não percebeu quando seus pais faleceram e, possivelmente, não hesitaria em dizer que seus cabelos brancos haviam surgido entre duas noites.

Entretanto, naquela manhã, algo parecia-lhe estranhamente fora do comum. Algo faltava e já não podia negar-se isso. Não mais. Foi até a varanda, pegou novamente a folha de jornal envelhecida e encontrou um rosto familiar, cheio de rugas, dos amassados e dos anos. Um lágrima saltou do canto do olho direito e apenas dele, apenas ela. Aquela mulher sempre foi a mais bela de todas as notícias diárias repetidas que lera nos últimos 4 anos. Tomava e retomava a encardida folha de jornal buscando por um nome ou uma referência qualquer que pudesse levar à ela, mas nada.

Depois que o cansaço mental lhe abraçava, tacava sempre o jornal a um canto seguro. Sem que percebesse, dedicara aquele dia completo à contemplação da imagem e a noite já era partida. O sono era imenso, mas o vazio era maior. Fechava os olhos e via a tal mulher, abria os olhos e também a via. Correu até o banheiro, buscou comprimido que aliviasse a tensão e promovesse a sonolência. Só encontrou um armário vazio, um grande espelho e um rosto. Um rosto estranhamente familiar. Familiar demais. Os traços eram suaves, cansados, mas ainda suaves. Percebeu. Sentiu-se absolutamente estúpida. Catou o velho jornal e devorou-o, devorou-se. Rasgou as folhas e rasgou sua carne, agora sem sentido metafórico. Como pode ser tão leviana consigo mesma? Negligenciou-se cuidados e agora não pouparia dedicação em cada chaga que abriria naquela pele. Isso! Sim! Era bom, era sangue, era belo. Finalmente, descobriu onde encontrar a mulher da foto. Ela estava presa em sua cútis.