Monólogo

Minhas mãos estavam tão suadas, meu coração palpitava, mal conseguia piscar e isto fazia meus olhos arderem. Eu chorava, mas não era por falta de cerrar as pálpebras, era falta dele. Poucas manhãs foram tão angustiantes em toda minha vida. Mas não havia nada a ser feito, apenas aceitar. Podíamos ter sido qualquer coisa um para o outro e, certamente, fomos muitas, mas o que importa é que no fim tornamos-nos apenas saudade.

Tem gente que gosta de sentir saudade, diz que é maneira boa de saber que viveu momentos memoráveis. Esse tipo de pessoa, desconfio eu, nunca passou por saudade de verdade. Saudade não é sentimento bom, é nó na garganta, é falta de ar, é suicidar-se e permanecer sofrendo, apenas dor.

Consigo me lembrar exatamente de cada gesto, cada palavra não dita aquela noite. Não precisávamos de nenhuma. Ele se deitou lentamente na cama e eu hesitei em abraçá-lo. Agora que estou falando sobre isso, não consigo entender bem porque foi assim. Eu tenho certeza de que meu desejo era de aperta-lo copiosamente. Mas hesitei.

Choro. Estou mentindo terrivelmente e não consigo mais fazer isso. Eu não o abracei porque quando olhei para aqueles ombros eu me senti tão segura, tão confortável.., eu senti medo. Tive medo de me entregar e algum dia me ver repentinamente desalojada daquele sentimento. Mas, pior que isso, tive imenso pavor de sentir aquilo pelo resto da vida, não consegMonui me ver eternamente distante das dores.

Eu sou do tipo que gosta de saudade, mas por ela ser exatamente como descrevi antes, torturante. Há quem consiga conviver com a falta de aflição, desconsiderando qualquer possibilidade de dias tristes e cinzas. Eu não. Preciso sentir a carne rasgando de tanta dor, gosto de sentir culpa, gosto mais ainda da sensação de arrependimento, sofrer pelo que poderia ter sido, mas não foi.

Há quem me diga louca, mas eu pedi para que ele partisse na manhã seguinte exatamente por isso. Ele precisava ir, não havia outra opção. Eu me sinto completa agora, com a certeza de que o amanhã será triste e que minha luta pela felicidade não vai terminar. Loucura ou não, a infelicidade me faz viver mais tranquila.

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