De súbito

Depois do quinto cigarro apagado sobre a superfície do cinzeiro, comecei a me preocupar com o caminho que estava tomando. Tirei mais um do maço jurando, quase que em voz alta, que seria o último. Não foi. Mais um e mais outro. Nem sei o que me excitava mais naquele gesto: acender, queimar ou apagar. Eu desejava a fumaça como criança que deseja a teta da mãe.

Comecei a pensar nas razões que me levaram a acender o primeiro cigarro. Aquilo tudo era coisa demais. Sim, eu merecia cada uma daquelas flamejantes doses de fumaça. Estava cansada da gente escrota que me cercava e que apenas sugava minhas energias. Estava mais cansada ainda da condição em que me coloquei com o passar do tempo, deixando-me ser usada.

Pensei em toda as vezes em que abri mão de minha própria alegria para ver outras pessoas sorrindo. Acendi outro cigarro. Não que quisesse qualquer retribuição, mas agora era doloroso pensar em tudo que poderia ser meu, e não é. De súbito, o apaguei. Ouvi um som familiar, algo que ressonou na minha alma. Por alguns instantes parei de respirar. Nem que fosse por apenas alguns instantes precisava ter aquele som dentro de mim. Era barulho de paz. Era ela chegando. Fechei os olhos, esperando que suas doces mãos enlaçassem meu rosto. Sua respiração ofegante era inconfundível. Era intensa, única.

Mais alguns instantes e senti que o som se afastava. E isso eu não previra. Logo eu, cheia de certezas, eu que poucas vezes errava, estava ali, sentada, de cigarros apagados, desvelada. A vadia me provocou, me fez crer em sua chegada, me perpetuou a instantes de respiração cessada. E não veio.

Ela não poderia ter partido, não assim, sem nem chegar mais perto, sem nem compensar os instantes que deixei de respirar apenas para sentir sua aproximação. Agora ela era partida. Sem nem mesmo ter sido vinda ou permanência.

Vez ou outra, como esta, em que me pego lembrando desta nossa última chance de contato, chego a ter certeza de que o som que ouvi nem era dela. Era mistério. Era loucura. Era o zunir que a privação de oxigênio provoca antes de um desmaio. Só que parei de respirar depois do primeiro ouvir…

Mas todas estas coisas eu pensei depois. Naquela tarde, minha mente era dela. Toda. Apenas. Sem pensar, acendo outro cigarro. Queimo neste gesto toda a esperança que tinha de que a felicidade um dia iria passar da varanda. Ela nunca habitará minha morada.

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