Acerto das Contas

Então era isso, estávamos mais uma vez juntos, pela última vez dividindo o mesmo espaço. Eu quis chegar mais perto, mas minhas pernas, pelo frio ou pela tensão, não se moviam. Permaneci sentada e mal conseguia ver seu rosto. Todo aquele mistério a sua volta sempre foi comum para mim, mas nossa última vez não deveria ser assim. Ele, menos gelado que das outras vezes, sequer deve ter notado minha presença, e se notou pouco fez questão de demonstrar. Eu não era nada e sabia disso. Ele sempre me lembrava.

Funerais nunca me fizeram chorar, não até hoje. Ver de perto seus olhos cerrados de modo tão eterno fez minha a primeira lágrima brotar. Eu tentei contê-la, ergui um dedo sutilmente em sua direção,  não porque não estivesse de acordo com o sentimento que aquela pequena gota materializava, mas porque as outras pessoas presentes não entenderiam bem o meu gesto. Não era culpa delas, entre mim e ele havia uma intimidade tão distante da compreensão alheia que qualquer expressão minha de dor seria surpreendente.

Ele continuava distante, mesmo quando decidi dar o último abraço. Sempre fez questão de exaltar o quanto éramos diferentes, sempre me afastou, até nos momentos de carinho. Eu sorri, na verdade, acredito que tenha gargalhado. Os olhares, que antes apenas estranhavam meu comportamento, passaram a me condenar. Era ensurdecedora a maneira como eles me fitavam, um silêncio digno do juízo final, vozes e gritos tão contidos que transbordavam nos olhos. Eu era pequena, cada vez menor, e eles faziam questão de me lembrar.

Cansada, sai por alguns instantes da igreja para pensar e respirar melhor. Mas um grande aperto me tomou de repente. Parecia que algo estava a minha volta. Senti-me envolvida, como numa dança, rodando sem saber com que par. Não era uma sensação boa. Pensei na morte, em morrer. Não desejando, mas tentando imaginar como devem ser os últimos instantes. Cheguei a conclusão de que deve ser como quando adormecemos, que esquecemos os minutos precedentes. Mas, e depois da morte? Esperar por um lugar onde seu comportamento neste plano seja respondido é o mais comum, mas eu não conseguia acreditar nisso. Quero morrer e tornar-me parte daquilo ao que mais me dediquei. De certa forma, sabia que isso era possível. Sabia que meu pai não estava naquele caixão, que ele estava dentro de mim. Querendo ou não, entrei em um processo de metamorfose. Parte de mim morreu junto com ele, parte dele vive agora comigo.

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