Dos teus lábios só sinto falta do silêncio mordaz

Sentada na varanda, balançando-me tão devagar, finalmente tive coragem de admitir. Aquele homem em minha cama era apenas mais uma vítima. Depois das três da madrugada, minha única preocupação era a de não magoá-lo com a rotineira expulsão compulsória que o surpreenderia pela manhãzinha. Quem sabe ele nem se surpreenda, ao contrário dos tantos outros, este já está na terceira visita. Espero que tenha entendido o esquema de funcionamento da casa. Jantar, vinho, sexo, levanto no meio da noite, pela manhã um bilhete, uma chave e um bombom e um ate breve. Mesmo quando não pretendia ver o sujeito novamente, era sempre com um “até breve” que fechava o recado em letras suaves. É que sempre tive medo de que um bilhete escrito apenas “Deixe a chave sob o tapete” não soasse tão doce, então, os bombons e o “até breve” ficaram responsáveis por essa parte. Quase consigo ouvir a sua reação quando nos encontrarmos no almoço mais tarde: “Você quer me matar de diabetes, mocinha?”. Gosto do seu humor, mas não o bastante para dividir a cama depois das horas de prazer. Gosto de suas mãos em meu corpo, mas não o bastante para querê-las me envolvendo durante o sono. Seu cheiro, sua forma, sua força sutil, tudo é bom, diria ótimo, mas não o bastante para me fazer romper o ciclo. Eu preciso ir além disso (dele), e acredito que ele já tenha percebido. É difícil se desprender de um bom papo seguido de uma transa perfeita, mas acho que chegou a hora. O relógio marca quinze pras quatro e é melhor me adiantar com o bilhete e buscar o bombom na bolsa.

À porta do quarto me deparo com o menos esperado: a cama vazia. Dou uma olhada no banheiro, a luz está acessa, o danado me pegou no flagrante, vou ter que dar mais uma chupada para compensar a saída no meio da noite. Apago a luz. Um jogo a essa hora? Achei que ele tivesse entendido como as coisas funcionam aqui, mas estou começando a perceber que me enganei. Nada na sala, nem na cozinha. Volto ao quarto e vejo seu cigarro ainda acesso. Vou até a porta, a chave está sob o tapete. Parece que ele entendeu o jogo melhor do que acreditava eu. Poupou-me caneta e bombom. Como um de sabor meio amargo e me deito, amanhã será um longo dia de trabalho.

Chego à usina e me sinto habituadamente desconfortável com os olhares indisfarçados dos companheiros de trabalho. Deveria ter um adicional em meu salário por ter que ser comida pelos olhos daqueles merdas diariamente. Entro na minha sala e acendo um cigarro. A fumaça me faz pensar na noite anterior. No papo, nas mãos, no cheiro… Balanço a cabeça como quem se flagra em um cochilo indevido. Por que diabos estava pensando nisso? Teria o abandono noturno despertado algo que há muito estava adormecido em mim? Quanta bobagem, preciso é de trabalho. E café, isso sim vai me despertar.

Na hora do almoço penso um pouco antes de abrir a porta do restaurante de sempre. A hesitação é menos pela dúvida sobre o menu do dia que pela possibilidade de encontrá-lo ali. Dividir a mesma mesa dia após dia nos aproximou e agora parecia a maior expressão de afastamento que poderia imaginar. Pensei e pedir o prato para viagem, mas olhando à minha volta pude constatar que ele não seria um problema naquela tarde. Sentei, garfei algumas ervilhas, mas não sentia fome. Que absurdo! Isso não poderia estar acontecendo. Não de novo, não comigo. Três transas e me apaixono??? Tudo bem que foram 3 meses de papos de almoço, mas isso dá o que? Cinco dias na semana, duas horas de intervalo, quarenta horas por semana, cento em vinte horas de papo… Que porra é essa? Estou mesmo calculando quanto tempo passamos juntos aqui??? Isso é realmente ridículo, estou surtando só porque um cara saiu da cama antes que eu pudesse sair, só por isso. Não é possível que haja sentimento de amor nisso tudo. Não mesmo. A única coisa que poderia amar nele é aquela covinha e a maneira como seus olhos fecham quando sorri. Ok, um cara com quem almocei durante três meses, jantei durantes algumas noites e trepei umas três vezes me abandonou e agora estou frustrada. Este é um comportamento absolutamente aceitável.

Foi quando meu telefone tocou. O número era desconhecido, então, atendi com meu habitual tom de indiferença. “Alô?”. Meu coração acelerou. A ligação estava horrível, mas eu reconheceria aquela voz até no meio do trânsito paulista. “Leandro?”. Falei com uma voz que saiu com mais falsete que a de um soprano. Esqueci os papos, os almoços, as mãos, o cheiro do outro cara que nem lembro mais o nome.

Leandro foi minha grande paixão de verão. Encontrei-o pessoalmente apenas duas ou três vezes, mas tinha certeza de que o queria mais que qualquer porção extra de bacon em um sanduíche. Eu nem sei o que me atraía nele, mas era inevitável querê-lo dentro de mim. Eu sabia que qualquer coisa que eu e ele falássemos naquele telefonema me levaria a uma longa temporada de sexo com desconhecidos, mas por uma noite eu estaria com o corpo que melhor conheci no mundo. Mesmo tendo tocado tão poucas vezes. Foi assim no último ano, seria assim enquanto ele quisesse que fosse. Acho que o segredo para deixar um amor partir é conseguir chorar por ele, pelo menos uma vez. Ele nunca me fez chorar, nunca o culpei por isso, nem pelas noites de solidão a dois, nem por aquelas em que adormecia embalada pelo vinho e boleros sem lucidez. Enquanto eu não chorasse por ele, enquanto sua substância ainda fosse parte de meu corpo, ainda seria sua.

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Bruta Fera

Os meus precipícios estão rasos
não há mais chances para fórmulas de felicidade
só me restou o prazer efêmero,
o risco
E ando profundamente interessada no
intermitente e no que
[não promete nada]
Quero o que fere e cura minha carne,
fere e cura
simultaneamente
Feridas profundas,
sangue que jorra
Tomo do meu sangue e dele extraio
o antídoto para
meu próprio veneno
Os lábios encarnados designam meu ser
[Bruta fera]
Tiro da tua pele apenas o que me convém
És pequeno,
servo, tolo
Não percebes minhas garras, minhas presas
Conjugo o prazer contigo,
mas antes que amanheça,
há outro em teu lugar
Anoitece, chamo teu nome com voz branda,
porque sou mansa
[fera].