Num tempo da delicadeza

"sua partida me fez odiar qualquer passo desta dança"Meu coração era pura euforia. Amava, sem nenhuma pretensão, a tudo e a todos. Apenas amava e isso era o suficiente para me sentir completa. O coração acelerado denunciava a minha inexperiência no assunto. Já havia amado, mas não a tudo de uma vez só. A alegria era imensa e a vontade de dizer isso, maior ainda. Resolvi dizer, imediatamente e aos berros. Não sou de gritar, mas amor desse tamanho não se contém em sussurros. Sem pesos e nem medidas, fui até a criatura mais próxima e declarei-me. Era uma senhora bem velhinha, e foi ainda mais fácil amá-la, pois me lembrava tia Laura. Um longo abraço desfeito em lágrimas. Eu não queria nem pretendia chorar a cada encontro de almas, mas era carinho tão solene que não consegui me conter. Talvez por ser o primeiro, talvez por tia Laura, chorei. Poucas vezes chorei por alegria, saudade e carinho ao mesmo tempo, acredito que nunca. E chorei de novo por isso. Estava descobrindo em mim a face do puro amor. E o amor me mostrava um lado delicado que nunca pensei em conhecer.

Sentei num banco e um menino aproximou-se. Estava curioso com a forma como eu sorria e chorava tão harmoniosamente. Chamei-o baixinho e perguntei se também ouvia a música. Ele, com um olhar pensativo e assustado, balançou a cabeça em gesto de negação. Então, puxei-o pela mão, como as mães fazem quando tem uma surpresa incrível para seus pequenos. Disse algo que o fez compartilhar do meu sorriso: “Imagine!”. Levantei e comecei a dançar, ali no meio da praça, eu era bailarina sem música. O menino abriu um sorriso ainda maior e começou a dançar comigo. Girava, girava, girava. A dança era loucura e lucidez, era silenciosa e eu podia ouvir cada acorde em minhas veias.

Mas, algo me fez interromper a dança. Percebi que o andar vago e o sorriso despretensioso eram bem mais que gestos de puro amor. Era a maneira de dizer a mim mesma que, finalmente, estava livre. Uma auto-alforria. Passei perto de uma vitrine e fiquei observando meus curtos cabelos. Em um segundo consegui lembrar de todas as vezes em que a tesoura passou pela minha cabeça. Entendi o que estava acontecendo. Havia apenas uma pessoa que os longos cabelos me lembravam. Ele fazia tantos elogios à forma como eu, quase como numa valsa, entrelaçava as mãos e os cabelos, que sua partida me fez odiar qualquer passo desta dança. Aos poucos, enquanto me livrava de sua lembrança, livrei-me também dos cabelos que ele amava. Agora que nenhum daqueles fios que o agradavam me resta, sinto-me verdadeiramente livre daqueles sentimentos, do amor perdido, do ódio guardado. Agora, só posso dizer que o que me falta em cabelo, me sobra em amor.

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