Ânsia

Abana de leve as bicheiras que te mastigam

deixa que levem isso que ferve a carne

Esse vulcão que  abrigas, dribla

vomita, as moscas, as dores

digere as cores quentes e chega!

Chega de pedir perdão

é isso que as moscas comem

disso que elas vivem

de ilusão, desilusão

Abre a geladeira, come o que cheirar bem

o que cheirar mal, devore

Sai à porta e olha teu público transeunte

cospe nos que aplaudem

enfia o dedo na garganta e explode

provoca uma autópsia sem lâmina

bota pra fora e vai embora

cata as moedas do chapéu

que essa porra nem vale a pena

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A plateia só deseja ser feliz

Sei lá que dia da semana era, nem mesmo o ano me recordo. Só sei que a canção me tocou, como tantas outras, mas de uma forma especialmente diferente. Era uma tarde quente, disso me lembro bem. A turma estava agitada, eu também. As aulas de Sociologia eram sempre meio complicadas demais para a gente, e aquela letra, de alguma forma, me explicava o porquê. Tímida, não fui capaz de chegar até o professor e falar sobre aquele sentimento apertado, angustiado, que a canção despertou em mim. Parece bobagem, mas os professores sempre me pareceram autoridades inacessíveis, com as quais eu não conseguiria jamais conversar tranquilamente. Talvez, até hoje.

O tempo passou, mas não consegui esquecer alguns daqueles versos. Frequentemente, voltavam, mas já bastante confusos, fora de ordem, algumas vezes apenas palavras, mas sempre acompanhadas da certeza de que eram parte daquela letra. Eu já não conseguia saber se a angústia em mim era maior pelo que a canção representava ou pela ideia de jamais voltar a ouvi-la.

Minha memória, traiçoeira, não me permite descrever com exatidão o cenário da descoberta. Nem precisa. Imagino que tenha sido outra tarde quente. Mais pela emoção que pelo clima. Meu corpo era puro arrepio, não conseguia parar de tocá-la. Foi como atravessar o arco-íris, tomar o pote de ouro nas mãos e beijar cada moeda. Aos poucos, a a febre do ouro foi esvaindo, então, conforme me recompunha, pude saborear com mais prazer ainda a letra. O prazer virou angústia novamente.

Perceber que, aos 14 anos, aquela letra ainda era confusão para mim, me fez sentir menos humana. Era tudo tão óbvio, tão eu, tão nós.

Num tempo da delicadeza

"sua partida me fez odiar qualquer passo desta dança"Meu coração era pura euforia. Amava, sem nenhuma pretensão, a tudo e a todos. Apenas amava e isso era o suficiente para me sentir completa. O coração acelerado denunciava a minha inexperiência no assunto. Já havia amado, mas não a tudo de uma vez só. A alegria era imensa e a vontade de dizer isso, maior ainda. Resolvi dizer, imediatamente e aos berros. Não sou de gritar, mas amor desse tamanho não se contém em sussurros. Sem pesos e nem medidas, fui até a criatura mais próxima e declarei-me. Era uma senhora bem velhinha, e foi ainda mais fácil amá-la, pois me lembrava tia Laura. Um longo abraço desfeito em lágrimas. Eu não queria nem pretendia chorar a cada encontro de almas, mas era carinho tão solene que não consegui me conter. Talvez por ser o primeiro, talvez por tia Laura, chorei. Poucas vezes chorei por alegria, saudade e carinho ao mesmo tempo, acredito que nunca. E chorei de novo por isso. Estava descobrindo em mim a face do puro amor. E o amor me mostrava um lado delicado que nunca pensei em conhecer.

Sentei num banco e um menino aproximou-se. Estava curioso com a forma como eu sorria e chorava tão harmoniosamente. Chamei-o baixinho e perguntei se também ouvia a música. Ele, com um olhar pensativo e assustado, balançou a cabeça em gesto de negação. Então, puxei-o pela mão, como as mães fazem quando tem uma surpresa incrível para seus pequenos. Disse algo que o fez compartilhar do meu sorriso: “Imagine!”. Levantei e comecei a dançar, ali no meio da praça, eu era bailarina sem música. O menino abriu um sorriso ainda maior e começou a dançar comigo. Girava, girava, girava. A dança era loucura e lucidez, era silenciosa e eu podia ouvir cada acorde em minhas veias.

Mas, algo me fez interromper a dança. Percebi que o andar vago e o sorriso despretensioso eram bem mais que gestos de puro amor. Era a maneira de dizer a mim mesma que, finalmente, estava livre. Uma auto-alforria. Passei perto de uma vitrine e fiquei observando meus curtos cabelos. Em um segundo consegui lembrar de todas as vezes em que a tesoura passou pela minha cabeça. Entendi o que estava acontecendo. Havia apenas uma pessoa que os longos cabelos me lembravam. Ele fazia tantos elogios à forma como eu, quase como numa valsa, entrelaçava as mãos e os cabelos, que sua partida me fez odiar qualquer passo desta dança. Aos poucos, enquanto me livrava de sua lembrança, livrei-me também dos cabelos que ele amava. Agora que nenhum daqueles fios que o agradavam me resta, sinto-me verdadeiramente livre daqueles sentimentos, do amor perdido, do ódio guardado. Agora, só posso dizer que o que me falta em cabelo, me sobra em amor.

Monólogo

Minhas mãos estavam tão suadas, meu coração palpitava, mal conseguia piscar e isto fazia meus olhos arderem. Eu chorava, mas não era por falta de cerrar as pálpebras, era falta dele. Poucas manhãs foram tão angustiantes em toda minha vida. Mas não havia nada a ser feito, apenas aceitar. Podíamos ter sido qualquer coisa um para o outro e, certamente, fomos muitas, mas o que importa é que no fim tornamos-nos apenas saudade.

Tem gente que gosta de sentir saudade, diz que é maneira boa de saber que viveu momentos memoráveis. Esse tipo de pessoa, desconfio eu, nunca passou por saudade de verdade. Saudade não é sentimento bom, é nó na garganta, é falta de ar, é suicidar-se e permanecer sofrendo, apenas dor.

Consigo me lembrar exatamente de cada gesto, cada palavra não dita aquela noite. Não precisávamos de nenhuma. Ele se deitou lentamente na cama e eu hesitei em abraçá-lo. Agora que estou falando sobre isso, não consigo entender bem porque foi assim. Eu tenho certeza de que meu desejo era de aperta-lo copiosamente. Mas hesitei.

Choro. Estou mentindo terrivelmente e não consigo mais fazer isso. Eu não o abracei porque quando olhei para aqueles ombros eu me senti tão segura, tão confortável.., eu senti medo. Tive medo de me entregar e algum dia me ver repentinamente desalojada daquele sentimento. Mas, pior que isso, tive imenso pavor de sentir aquilo pelo resto da vida, não consegMonui me ver eternamente distante das dores.

Eu sou do tipo que gosta de saudade, mas por ela ser exatamente como descrevi antes, torturante. Há quem consiga conviver com a falta de aflição, desconsiderando qualquer possibilidade de dias tristes e cinzas. Eu não. Preciso sentir a carne rasgando de tanta dor, gosto de sentir culpa, gosto mais ainda da sensação de arrependimento, sofrer pelo que poderia ter sido, mas não foi.

Há quem me diga louca, mas eu pedi para que ele partisse na manhã seguinte exatamente por isso. Ele precisava ir, não havia outra opção. Eu me sinto completa agora, com a certeza de que o amanhã será triste e que minha luta pela felicidade não vai terminar. Loucura ou não, a infelicidade me faz viver mais tranquila.

Toda a Poesia Contida sobre o Lobo Temporal

Todos aqueles homens que se sentaram ao seu lado durante aquela tarde lhe pareciam definitivamente amáveis. Talvez fosse culpa da chegada da primavera, talvez fosse a notícia que recebera do doutor horas antes. Um belo tumor poderia ser capaz de criar uma nova perspectiva nas pessoas. Passou umas horas inteiras sentada naquele banco da praça, pensando sobre como seria mais intensa a vida de todos, se estivessem com um cronômetro alojado sobre seus lobos temporais.

Suspirou profundamente. A doce dor que palpitava em seu peito era sintoma explícito de sua vontade de não querer perder tudo o que ainda estava por vir, o que ainda seria inventado, os programas de tv que não estreariam a tempo, as músicas de seu cantor preferido que não ouviria, das brigas e do gosto de jiló que nunca experimentou. Não gostava de jiló, mesmo sem ter jamais provado. Era burra, e agora  estava certa disto. Deixou que a vida passasse e ela passou. Agora, seu prazo de validade estava prestes a vencer e não havia reversão possível, não existia antídoto e nem retardante para o tempo.

Voltou-se para a moça que se sentou ao seu lado e perguntou as horas. A jovem rapidamente respondeu, sem voltar o rosto para a requerente: “quinze para as cinco”. Sempre achou interessante a precisão com que a humanidade conseguiu fragmentar nossa existência a partir de alguns números. Mas sentia falta das não-horas, de instantes que não pudessem ser representados por minutos ou segundos. O tempo aprisiona nossos corpos ao teu bel prazer. Escravizados, damos total legitimidade a ele, erguemos a chibata quando, por tamanha força imposta, ela rebate de nossas costa e cai perto de nossas faces. A liberdade é o terror, é ponte para terreno desconhecido, é paraíso, limbo e inferno concomitantemente.

Agradeceu o gesto de indelicadeza da moça – afinal, falar ao outro olhando nos olhos deveria ser tomado como bons modos – e levantou-se. Seu peito doía cada vez mais forte e tinha certeza de que apenas um remédio era suficientemente eficaz contra isso. Ligou para seu melhor desafeto e não hesitou: “Que tal dividir um prato de jiló frito?”

Sal de frutas

Esta é a história dela. Gostaria de deixar isso bem claro. Essa não é minha história. Não me confunda com essa criatura mal descrita nas linhas que seguem. Esse ser, pobrezinho, nunca conheceu os caminhos da vida que tomei. Ela é outra, não eu. Tenha isso sempre em mente ao ler esse texto. Não se sinta mais próximo a mim enquanto lê, não se identifique comigo. Estou apenas narrando a insossa rotina de alguém que não teria como fazê-lo. Não que não quisesse, mas temo que deixá-la tomar a caneta pode me desatinar de vez.

Por isso, faço questão de frisar, ela não sou eu. Ainda que respondamos pelo mesmo nome, ainda que habitemos o mesmo corpo, somos duas. Almas dúbias e complementares.

– Eu te quero.

– Repita.

– Eu te quero.

– Como sei se isso é verdade?

– Eu estou dizendo, deve bastar. Eu não minto para você.

Estas poucas palavras poderiam soar como doce declaração de afeto. Doce engano. Não se sinta um otário por achar isso. Quem pediu repetição também acreditou, principalmente quando ouviu pela segunda vez. Não somente pelo que estava sendo dito, mas pelas circunstâncias. Sim, claro, ele mentira outras vezes, fugia sempre que possível, era inclusive cruel muitas vezes, mas era doce quando queria. Isso bastava para ela, ficava satisfeita em saber que vez ou outra ele sentia vontade de ser doce consigo.

Alguns segundos de silêncio, quebrados apenas pelas respirações ofegantes da moça. Ele parecia que nem respirava. Pararam.
Aquilo era estupido demais, até mesmo para eles.

– Já erramos muitas vezes, acho que devo ir.

Não queria ir. E sabia que ele não a pediria para ficar, nunca pediu. Sentiu os olhos úmidos, provavelmente aquele seria o ultimo esbarro entre os velhos desconhecidos. Ele faria falta, suas palavras secas, seu humor tolo, as noites divididas falando das pessoas que ambos detestavam. Eram parecidos demais e isso a enojava. Era quase incestuosa aquela relação. Não, era algo mais estranho que trepar com um irmão gêmeo, era como como conversar com o espelho e ser respondido. Era doentio e maravilhoso.

Percebeu que estava há quase cinco minutos segurando a maçaneta. Não queria olhar para trás, sabia que possivelmente ele nem estaria mais lá.

Não olhou. Abriu a porta que pesava uma tonelada e andou lentamente até a esquina. Já estava distante demais quando decidiu olhar para trás, esperava ouvir um grito enlouquecido, seu homem correndo em sua direção, mas só ouvia a fumaça dos carros e ônibus. Andava cada vez mais rápido, mas a fumaça insistia em romper seus tímpanos. Foi quando tropeçou em algo que seria capaz de a derrubar se não fosse uma mão ágil a segurar antes.

– Você ia se machucar bastante. Deve estar mesmo com pressa para não ver uma bigorna no meio do caminho.

Por um segundo tudo silenciou. Os carros, os ônibus e tuas fumaças. Sentiu algo muito estranho. Algo que não sentia há muito tempo. A sensação quase a fez esquecer de se perguntar porque raios haveria uma bigorna no meio da calçada. Olhou novamente para ele. Esqueceu.

– Você está bem?

– Sim. Digo, não. Não muito. Sinto algo estranho no estômago.

– Bem, eu acho que tenho um sal de frutas aqui na mochila. Vamos sentar naquele café ali da esquina, você o toma e vê se melhora.

Ela acenou com a cabeça que sim. Ele parecia o remédio na dose exata que sua alma precisava para aliviar a azia da qual naquela tarde ela se despediu.

Suicídio a Quatro Mãos

– Vem, meu menino vadio
Vem, sem mentir pra você
Vem, mas vem sem fantasia
Que da noite pro dia
Você não vai crescer… – Ela cantarolava entre murmúrios e gestos desmedidos que acabaram derrubando o copo vazio.

– Por que este garçom demora tanto para trazer um maldito copo de cerveja???

– O bar parece estar fechado. Vamos embora, por favor.

– Eu não vou. Não! Nunca! Eu não desisto, não seria agora que começaria.

– Você já bebeu demais e está confundindo…

– Cale a boca!!! Não venha me dizer que confundo qualquer coisa. Eu nunca estive mais lúcida. Jamais tive tanta certeza do que preciso para viver, para ser feliz.

– Só há um problema.

– Eu sei. Eu sei…

– E então?

– Só quero meu copo de cerveja. Depois penso no “então”.

– Você não pode mudar nada. Sabes disso.

– Nem quero. Tenho total consciência disso. Só que gostaria de deixar claro que saber que não posso mudar algo não é o mesmo de desistir. Se um dia eu perceber que há alguma chance, eu a agarro. Ah, a agarro!

– Acho que o melhor é desistir.

– Pare! Por favor, pare! Não sei desistir. E, nesse caso, nem se eu quisesse… eu quis… quis muito, estas lágrimas me rasgam a face, dilaceram minha carne. Esquece. Você não sentirá jamais o que sinto agora.

– Acha que nunca derramei lágrimas tão salgadas quanto as tuas? Eu já amei, amei muito. Agora não me importo mais com isso. Tá vendo aquela gota escorrendo pela porta? Nela há mais amor que em mim. O amor perdeu o efeito entorpecente que mantinha sobre mim. Da última vez eu soube que seria a última. E foi. Acho que agora a vida ganhou colorido diferente. Sabe, quando a gente não vive esperando esbarrar com o grande romance da vida, tudo é mais simples. Amar é bom. Não amar é libertador.

– Não há nenhuma esperança dentro de você?

– Sim! Muita! Se esse verbo existir, esperanceio por tantas coisas que nem saberia dizer. Creio sem medida. Menos no amor. Se me perguntas porquê, rapidamente respondo. Olhe para você: desesperada, derrubando copos vazios, roubando olhares piedosos e enojados. Sinto pena dos que amam, pois amor é cela. É prisão cuja chave é engolida pelo encarcerado.

– Está ficando tarde. Preciso ir.

– Eu também. Espero que pense bem em tudo isso.

– Estou pensando.

Caminhou lentamente até sua casa. Eram apenas duas ruas e uma pequena ponte no caminho. Abriu a porta de casa. Sentou no sofá. Percebeu que sua última chance de amar tinha se encerrado naquela noite. Sua paixão deixou isso bem claro, mesmo que sem saber. Esperancear… não conseguiu conjugar o verbo inventado. Fechou forçadamente os olhos marejados. Sua tempestade era maior que a que começara a cair do lado de fora.

– Preciso vomitar essa maldita chave e me libertar.