Dois Amantes

A rotina era quase religiosa. Fernando ia até a mesma cafeteria, pedia seu café sem açúcar, sentava perto da porta e observava o trânsito das pessoas que entravam e saiam ao longo dos trinta minutos em que permanecia no local. Naquela quarta-feira, como em todas as outras, sentou-se na varanda e acendeu o sexto cigarro do dia. A sua frente havia uma moça de olhar frígido, sobrancelhas marcantes e  lábios semi-abertos que prenderam sua atenção por alguns minutos. Bebia o chá e mastigava cada pão de queijo com tanta devoção que sequer percebeu como Fernando a fitava.

Aquele encantamento já era conhecido por ele, tantas moças já o fizeram sentir o mesmo e tantas vezes também ele deixou que o sentimento se perdesse. Mas, naquela manhã seria diferente. Quando a moça fez um gesto de partida, aproximou-se com sua postura pálida e tocou de leve seu braço. Os olhos se envolveram no embaraço da cena e Fernando quase não conseguiu completar a frase que imaginou muitas vezes dizer a alguém. Com um sorriso gentil que só as ruivas possuem, ela se desviou do convite feito e seguiu seu caminho.

Andar pelas vielas era outro costume que Fernando mantinha. As multidões o faziam perder-se de si, o que conseguia evitar segundo pelos caminhos estreitos. Duas quadras depois da cafeteria percebeu que a ruiva estava no mesmo caminho. Seus cachos pareciam refletir a cor dos raios de sol daquele dia tão magnífico. O espanto aumentou quando viu que ela morava no mesmo prédio que ele, apenas um andar abaixo. Foi até seu quarto, vestiu a roupa mais especial, pegou um mimo qualquer que o fizesse parecer delicado e desceu. Tocou a campainha três vezes antes que ela o recebesse. O brilho em seu olhar o fez entender que fizera o certo. Ela parecia sorrir com sua presença e seus cabelos emolduravam o rosto iluminado com a surpresa.

De imediato pegou o mimo que carregava e lhe mostrou. Ela o olhou e calmamente o convidou para entrar no apartamento. Sentou-se e elogiou o bom gosto da decoração. Só então percebeu que estava sendo completamente indelicado. Estava no sofá da moça e sequer havia lhe dito seu nome. Ela, ainda surpresa com a situação, demorou uns dez segundos para contar que se chamava Elídia. Com um gesto sutil da cabeça e da mão esquerda, Fernando pediu para que ela sentasse ao seu lado. Entrelaçou o mimo que trazia em seus cachos, vendo qual seria a melhor forma de utiliza-lo.

Elídia lhe parecia bastante entusiasmada com aquilo tudo, suava e não conseguia tirar seus olhos do vistante. Achou que era o momento ideal para se declarar. – Quero você para mim. Seus cachos, sua boca, toda sua pele. Toda para mim. – Com um longo suspiro, apertou os dedos em torno do mimo que trazia em sua mão direita e foi descendo pelo pescoço de Elídia. Voltou com ele para seus cabelos e arrancou o cacho mais perfeito que já vira na vida. Sentia que aquela lâmina era o presente ideal para ela.

Delicadamente, cortou as alças de seu vestido florido, continuando o gesto com sua calcinha. Depois de algumas horas de um sexo com gemidos abafados, percebeu a expressão esgotada de Elídia. Nunca pensara que seria tão simples conseguir amar alguém. Quando ela adormeceu de cansaço, pegou a lâmina e passou suavemente pelo seu rosto. Seu sangue era quase tão vermelho e lindo quanto seus cachos. Carregou-a até a cama, buscou outro vestido e, com carinho colocou-o nela. Sabia que era hora de partir. Felizmente, teria para sempre consigo um cacho ruivo e um pedaço do rosto de Elídia para lembrá-lo da perfeição daquela manhã.

O dia em que não teria marmelada

 

Naquela manhã, o sol pareceu singularmente receoso de nascer. Nenhuma relação com a recente mudança de controle do tempo, o tal horário de verão. O dia mal começara e todos já pareciam entender o que aconteceria. Aquela cor esverdeada no céu não prenunciava boas novas, de certo que não.

Ana não tinha escolha, já faltara mais do que deveria nas duas primeiras semanas na escola. Aquele dia justificava qualquer ausência e, certamente, muitos padeiros não produziram bisnagas, muitas prostitutas não abririam as pernas, mas Ana decidiu sair de casa.

Abriu a porta e logo seu coração apertou-se. A expressão de reflexo de angústia nunca lhe pareceu tão exata. Se não fosse menina de meros dezessete anos, poderia pensar em problemas cardíacos. Mas Ana tinha saúde perfeita, pelo menos física. Bateu a porta, ignorou a palpitação e seguiu. Pegou a barca, assistiu sua aula, retomou a barca e chegou em casa, sã e salva. Suspirou.

Batidas na porta interromperam o cochilo no meio da tarde. Correu espantada, pois era de se estranhar visita àquela hora. Espiou pelo olho mágico e ficou ainda mais surpresa por avistar seu professor de matemática, Jorge. Ana abriu a porta e foi logo perguntando o que havia acontecido, queria saber a razão para a visita inesperada e para o afobamento do professor, que suava e tremia.

Ana foi pegar um copo de água para seu professor e pediu para que ele se sentasse. O homem era jovem,  não mais que 24 anos, cabelos encaracolados e loiros, aparência angelical, como costumavam lembrar seus colegas professores. Quando voltou com o copo de água, Ana perdeu as palavras. Jorge estava empunhando uma faca, pequena, com serras. Não a apontou para Ana, nem para si, apenas a segurava, mas isso já era suficientemente assustador para a menina.

Quis perguntar o que ele pretendia, mas a essa altura as cordas vocais já não a respeitavam. Mas isso nem foi preciso, pois tão logo, o rapaz começou a falar.

– Ana, me desculpa vir aqui a essa hora da madrugada, eu só precisava ter certeza de que teria alguém por perto. Eu vou precisar de um isqueiro, você tem um isqueiro?

Ana arregalava os olhos com cada palavra sem sentido que o professor disparava. Atônita, ficou imaginando formas de sair da situação, mas sua mente apenas conseguia construir uma nuvem cinza.

– Ana, me escute, eu não vou te machucar. Essa faca eu trouxe para nos proteger. Eles estão vindo, eu consegui um pouco de querosene, tá na minha mochila, mas eu preciso de um isqueiro.

A menina conseguiu sussurrar as primeiras palavras depois dos longos minutos (uns cinco) de silêncio.

– Quem está vindo, professor? Do que você está falando?

O homem correu para cima de Ana, abraçando-a bem forte. Disse baixinho em seu ouvido que agora ele estava ali, que sentira o mesmo que ela pela manhã, que percebeu que era a única forma de mantê-la protegida. E Ana se sentiu protegida, aquecida, afagada. A sensação foi rompida abruptamente, Jorge afastou Ana e olhou-a de uma forma tão fixa que ela se sentiu gelada imediatamente. Novamente ela a segurou, mas agora sem afeto, sem calor. Rasgou suas roupas, jogou seu corpo sobre o sofá e apertou seu rosto no travesseiro.

Ana tentou se soltar, mas ele era miseravelmente mais forte. Enquanto a respiração da menina passava de ofegante para suspiros saltados, Jorge gozava. Seus olhos reviravam, o prazer era incomparável. Era isso que sentira naquela manhã, que precisava deste prazer em seu corpo, em sua alma. O corpo, agora inerte, parecia cada vez mais atraente. Carregou Ana até seu quarto, colocou-a na cama e ejaculou algumas vezes sobre ela, aproveitando cada instante do romance tanto imaginado.

Quando se sentiu cansado, percebeu a fome que o estômago não fazia questão de camuflar. Olhou para Ana, tão gostosa, provavelmente seu sabor era magnífico. Com sua faquinha arrancou uma fatia da coxa, o que provocou uma grande sujeira, mas o cheiro era bom. O sangue fresco sempre o cativou, pegou então a carne e levou à boca. Quase gozou novamente, o gosto era melhor do que imaginara, precisava de mais. Precisava de tudo.

Visceral

Amassou e desamassou o mesmo pedaço de jornal algumas vezes. As notícias já estavam todas velhas, mas não era capaz de perceber. A desatenção sempre lhe foi companheira e a idade agravou essa condição. Já não conseguia acompanhar novelas, não percebeu quando seus pais faleceram e, possivelmente, não hesitaria em dizer que seus cabelos brancos haviam surgido entre duas noites.

Entretanto, naquela manhã, algo parecia-lhe estranhamente fora do comum. Algo faltava e já não podia negar-se isso. Não mais. Foi até a varanda, pegou novamente a folha de jornal envelhecida e encontrou um rosto familiar, cheio de rugas, dos amassados e dos anos. Um lágrima saltou do canto do olho direito e apenas dele, apenas ela. Aquela mulher sempre foi a mais bela de todas as notícias diárias repetidas que lera nos últimos 4 anos. Tomava e retomava a encardida folha de jornal buscando por um nome ou uma referência qualquer que pudesse levar à ela, mas nada.

Depois que o cansaço mental lhe abraçava, tacava sempre o jornal a um canto seguro. Sem que percebesse, dedicara aquele dia completo à contemplação da imagem e a noite já era partida. O sono era imenso, mas o vazio era maior. Fechava os olhos e via a tal mulher, abria os olhos e também a via. Correu até o banheiro, buscou comprimido que aliviasse a tensão e promovesse a sonolência. Só encontrou um armário vazio, um grande espelho e um rosto. Um rosto estranhamente familiar. Familiar demais. Os traços eram suaves, cansados, mas ainda suaves. Percebeu. Sentiu-se absolutamente estúpida. Catou o velho jornal e devorou-o, devorou-se. Rasgou as folhas e rasgou sua carne, agora sem sentido metafórico. Como pode ser tão leviana consigo mesma? Negligenciou-se cuidados e agora não pouparia dedicação em cada chaga que abriria naquela pele. Isso! Sim! Era bom, era sangue, era belo. Finalmente, descobriu onde encontrar a mulher da foto. Ela estava presa em sua cútis.

Luz difusa

Cruzei as pernas, dei a última tragada no cigarro e o apaguei na coxa pálida da vadia sentada ao meu lado. Ela sorriu. Sentia um prazer esquisito toda vez que eu violava aquele corpo. Era engraçada a forma como ela se sentia comigo, provocava nela algo que nenhum homem era capaz.

Ergui a barra do meu vestido e subi no palco. Toquei o microfone como gosto que toquem meu pau, com força. Puxei alguns versos de Cazuza, mas naquela noite eu e a plateia sabíamos que quem estava naquele palco era Geni. Senti uma mão deslizando em minha perna, que levantei e, com certa firmeza, toquei meu salto agulha em seu rosto. Sabia o que era preciso fazer para deixar um homem excitado, claro que sabia, e fiz. O cara ficou bastante nervoso porque desdenhei de sua masculinidade latente. Ele queria provar que era macho, quis dizer que estava no lugar errado, mexendo com a garota errada, mas a canção era mais envolvente, “Bete balanço”… Deixei, então, que os seguranças o explicassem.

Já passava das duas da manhã quando ele resolveu se aproximar. Eu não pretendia subir pro meu quarto com ninguém àquela noite, mas enquanto ele se aproximava fui mudando de ideia. Era exatamente como o homem dos meus sonhos deveria ser, alto, de barba alinhada, olhos penetrantes, vestido como um pianista de orquestra. Pude sentir minha circulação sanguínea alterando seu rumo de maneira tão intensa que fui obrigada a cruzar as pernas. Há algum tempo homem nenhum me deixava de pau duro tão facilmente, precisava saber ao menos seu nome. Continuou vindo em minha direção e deu um largo sorriso. Não precisava saber seu nome. Precisava daqueles dentes cravados na minha carne. Levantei e fiz um gesto facilmente compreensível de que deveria subir comigo. Ele obedeceu.

O suor escorria pelas minhas costas, pelo seu rosto, pelos nossos pelos. Quando o prazer me fez virar a cabeça para a esquerda, tomei um susto. Não sei se ele percebeu, nem sei se aconteceu mesmo, mas senti minha respiração parar por dois minutos. O velho abajur da velha sala de leitura de papai. Não fazia o menor sentido ele estar ali. Aquele abajur não existia. Ou existia? Não sabia mais. A dúvida foi me fazendo meter mais forte no rabo dele. O abajur, como poderia? Como chegou no meu quarto? Lembrei das tantas vezes que papai deixou apenas aquela luz difusa iluminando sua sala de leitura, nossa sala, apenas nossa, minha e dele… Tocava meu rosto e dizia que seria sempre nosso recanto, onde poderíamos ser o que quiséssemos. E eu queria ser mamãe. Queria fazer papai gozar, queria chupá-lo e fazer mamãe ouvir seus gemidos, como eu era obrigado a ouvir os dois trepando todas as quartas-feiras. Era algo até meio religioso, como uma missa, com dia certo e hora marcada para começar e terminar.

Mas eu não podia ser mamãe. Não, o general, com toda pompa personificada na barba sempre alinhada, jamais me deu essa opção. Um dia, sentados em nossa sala, lhe disse que não queria mais cortar o cabelo, que queria um cabelo como o de mamãe, longo, para que pudesse fazer uma trança. Ele, como um verdadeiro macho, levantou-se, fechou a porta, apagou a luz e, somente iluminados pela agradável presença do abajur lilás, dançamos nossa primeira surra. Ele me disse para sair de sua sala, que eu não deveria repetir aquilo, ou ele mesmo arrancaria minhas bolas para eu comer no jantar. Pela primeira vez pensei em como seria bom ter duas bolas em minha boca.

No dia da minha formatura do colegial, depois de um pouco de cerveja, um uísque vagabundo e ácido pra cacete, levei Rui para minha casa, para nossa sala. Apaguei todas as luzes, mas fiz questão de deixar aceso o abajur beato de papai. Ele deveria presenciar o que aconteceria, deveria me ver chupando as bolas que papai me prometeu e que eu naquela noite saborearia. Gemi mais alto do que meu desejo pedia. O roçar dos nossos corpos, de Rui, do abajur, de papai e o meu era o frenesi que nunca senti. Papai descia para seu leite quente noturno e eu ali, bem pertinho, também recebia o meu. Ri, ri daquela situação, papai e eu tomando leite. Gargalhava e Rui não entendia nada, me chamou de bicha louca, deu dois tapas na minha cara, recolheu suas roupas e saiu. Papai ouviu a movimentação, mas não ousou abrir a porta. Pude sentir o cheio viril de sua hesitação na maçaneta, mas ficou nisso. Provavelmente não queria se deparar com seu filho de quatro, ou talvez estivesse prezando pela castidade do abajur.

As visitas noturnas à sala de leitura tornaram-se cada dia mais frequentes, principalmente nas quartas-feiras. Deixei meu cabelo crescer, ele não podia mais me impedir. Tomei alguns vestidos de mamãe e vestia-os quando pretendia caçar. Os estranhos de barba bem aparada eram os preferidos. Levava-os sem medos, só queria o prazer de seus corpos, sob a luz do abajur. Depois de algum tempo, percebi que só queria o abajur. Lembro bem do dia em que a maçaneta finalmente girou. Achei que papai enfim tivesse decidido entrar na brincadeira. Sim, papai, mamãe é uma puta frígida, eu tenho o calor que você precisa, apague a luz, acenda o abajur, seremos só nós na nossa sala, podemos ser qualquer coisa, podemos ser um do outro.

Não, não era papai, era a vadia velha; mamãe. Aquela mulher conseguia sempre interromper todos os meus momentos de tesão, todas as minhas ereções, tenho certeza de que era proposital. Aposto que papai lhe disse “vou ver o que robertinho está fazendo” e a vadia se ofereceu para descer e vir ver. Dessa vez não a deixaria me atrapalhar. Rapidamente, catei o abajur com a mão direita e joguei em sua direção. Um bom lance para um canhoto, consegui acertar bem no meio da cara. Ela caiu. Papai ouviu o barulho e desceu. Certamente vinha me agradecer, imagino há quanto tempo ele não sonhava com aquela noite. Mas não foi exatamente assim. Ele gritava, eu gritava, dizia que o amava, dizia ele que eu era louco, assassino. Ele não calava a boca. Agarrei-o, mas ele não parava. Disse que não tinha mais filho, que eu deveria ir, sair de sua sala, de sua vida. Eu não queria ir, precisava dele, precisava daquela sala. Peguei o abajur e comecei a dançar. Senti sangue em meus lábios, mas com os olhos fechados, continuei a dançar. Não havia mais sangue, não havia mais pai. Fui embora. Saí de sua sala, saí de sua vida.

Abri os olhos e estava de novo em minha cama. O suor, os pelos, o abajur. Éramos apenas nós, nus em pelo. Eu, papai e o abajur. Coloquei meu vestido e desci. Precisava de um cigarro. Precisava deixar aquele homem em minha cama fora da minha mente. Precisava deixar a minha mente fora daquela cama, fora daquela sala, fora dele. Cantei, cantei, jamais cantei tão lindo assim. E todo o cabaré me aplaudiu de pé.

Tarde de Chuva

Não, essa história não é sobre mim e a chuva que está caindo aqui, agora. Muito menos do que estou sentido. Essa é uma história sem protagonistas, uma história sem fim nem começo. Poderia ser a minha, mas só se eu assumisse.

 

Tendo os óculos devidamente ajeitados sobre o nariz disforme, continuou a escrever. Sentia que a qualquer instante seus dedos começariam a sangrar, mas o sangue seria um custo válido. Suas lembranças clamavam por serem guardadas em qualquer lugar, pois sua mente falhava em sua básica função, minutos eram o suficiente para apagá-las e isso o cansara.

Não queria mais ser criatura sem apego, sem sorrisos provocados por inusitado lembrar. Até mesmo as dores que corações vis o fizeram sentir o faziam falta. Qualquer lembrança, qualquer uma que o tirasse daquele estado o faria bem. Então, escrevia, tudo o que passava por sua mente passado era para o papel. A folha era seu recanto, seu alento.

Funes era seu ídolo. Como queria saber exato cheiro de cada rosa, dar nome próprio a cada uma por perceber diferença em cada uma e jamais poder chamar a todas apenas de rosas.  Mas não, era pobre, seu espírito não tinha paz.

Pegou uma fotografia. Era Chico. Amava aquele homem, sua voz o encantava e única vez pode ouvir sua voz de perto. Olhava a foto, mas não conseguia ter nenhuma lembrança, nada. Esforço imenso fez, mas nada. Secou a garganta, sentiu o nó. Não havia outra chance e, agora, aquele momento era puro desmemória.

Abriu a janela. As gotas caiam. Pegou uma faca. Fez pequeno corte no braço. Esperou a gota encarnada escorrer. Escorreu. Viu ali um dia, um sorriso, uma salva de palmas. Era Chico ali em sua mente, como se tudo estivesse acontecendo naquele instante.

Mais um corte.

Um pequeno gato surgiu. Aninhou-se em seu colo. Miou longamente, com tom de saudade. Saudade também sentira. Era Sofia, gata de infância.

Outro corte.

A boca estava seca. Então, surgiu senhora calorosa, com um grande jarro de suco de goiaba. Tomou três copos sem interrupção maior que o tempo preciso para enchê-los. Recebeu grande abraço da pequena senhora. Afago sentiu em seu peito quando percebeu que era sua avó.

O último corte não foi tão longo, já não conseguia segurar a faca com tanta precisão. Os olhos sequer conseguiram abrir-se para verificar o serviço da lâmina.

Não viu nada. Apenas escuridão. Não entendia. Teria sido o corte curto demais. Precisava pegar a faca e desfazer o engano. Não via mais nada. Nem faca, nem Chico, nem Sofia, nem vovó Lita.

Oração Pagã

Acendeu uma vela. Quis fazer uma oração, mas não sabia exatamente qual seria seu conteúdo. Pensou em fazer um pedido, mas não se sentiu confortável em aceitá-lo, caso fosse atendido. Cogitou agradecer, mas não sabia exatamente pelo que estaria grata. Fazia ideia nenhuma de quais realizações em seu cotidiano poderiam ser produto de uma intervenção divina. Não quis ser injusta com o acaso, tampouco com o destino.

Talvez uma oração pronta facilitasse as coisas, pensou. Então, buscou um rosário empoeirado e resgatou na memória uma oração pré-fabricada qualquer. Depois da terceira conta, tacou o apetrecho religioso pro lado. Aquilo lhe parecia ridículo, ficar ali, repetindo palavras sem força para si, sabe-se lá com que propósito.

Apagou a vela. Aquela chama a incomodava, não mais que a inutilidade daqueles atos de falta de fé. Então, tomou uma decisão. Tornaria-se ateia. Se a fé não estava ali presente, certamente sentiria-se melhor na não obrigação dela.

Foi aí que percebeu algo que considerava impossível de sentir. A falta de crença também a incomodava. Não que sentisse impulsos de dobrar seus joelhos e rogar a qualquer divindade, mas não acreditar em nada era bem mais assustador. Confiar somente a si os rumos que a vida tomasse era responsabilidade demais. Coisa que mortal algum mereça. Domar o próprio destino… não se sentia pronta para isso.

Pensou um pouco. E, como quem faz uma grande aposta, suava. Pegou o telefone.

– Você acha que existe um ser que nos rege?

– Eu acho. Respondeu a voz do outro lado.

– E como posso ter certeza disso? Perguntava, aflita.

– Não se pode ter. Já te disse isso algumas vezes. Talvez somente na morte teremos essa certeza. E nem isso nos é garantido.

Desligou, desapontada. Correu até a janela num impulso de quem se jogaria para encerrar a dor da dúvida.

Mas, os gestos aos poucos tornaram lentos. Abaixou-se e buscou o rosário empoeirado.

Rezou. Mesmo sem saber como e por que.

Sina

Apesar da proximidade nunca ter existido,

apesar dos olhos pouco vistos,

apesar das conversas serem sempre despretensiosas,

Pesando os pesares, o maior é a distância irremediável.

E aquilo que não tem remédio,

fadado à morte está.