Devorada

Ri, roda, sossega

essa alma, esse mundo

não tem manual, vem ver

da janela os foscos dentes

me mastigam, conversam

entre si, sorriem

para a solidão, solene, escandalosa

nossas almas rodadas, rendadas, perdidas

alimentam as horas

que devoram meus ponteiros, calam

a noite encarcerada, muda

essa cantiga muda.

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Bem Meu

Não chore, meu bem, não chore

Esse tombo, seu joelho ralado, é só o começo, meu bem

O destino vai te derrubar tantas e tantas vezes

Talvez, você consiga resistir de pé, mas só depois de muito cair

Antes disso, haverá muitas quedas, muitas portas na cara,

gritos, silêncios, abraços amargos, lágrimas secas.

Por isso,

Não chore, meu bem, não chore

Eu deveria te levantar, mas você precisa saber, meu bem

Que muitas vezes os que você ama não te ajudarão

O desamparo será seu único abrigo

A dor, sua morada.

Então,

Não chore, meu bem, não chore

Lágrimas não mudam nada, meu bem

Mas disso você ainda não sabe, devo te dizer que

Nossos sofrimentos são apenas nossos

E não há compaixão que dure mais que uma tarde

Ninguém se compadecerá.

E só por isso, te digo:

Chore, meu bem, chore sim

Um dia você vai entender que a vida,

bem meu, a vida é só dor.

Chore, entorne o sal que brota nos teus olhos.

Logo, somente o pranto te pertencerá.

A [não]história de Marina – Último texto da FLUPP Pensa, versão 2

– Eu não sairei daqui enquanto este maldito cartão de memória não for consertado!

Era cerca de nove da noite, todas as pessoas na loja podiam ouvi-la e talvez todas as vivas almas do calçadão de Nova Iguaçu também, mas a jovem estava tão descontrolada que nem percebia os fulminantes e afiados olhos que a rodeavam. A gerente, polidamente, tentava acalmá-la prometendo generoso reembolso se ela se calasse imediatamente, contudo, qualquer esforço era vão. Mais dois berros e as certezas começavam a surgir entre os murmurantes ouvintes:

– Esses jovens viciados em tecnologia… São capazes de matar por causa de um chip. – Disse a sábia aposentada emergente do Bairro da Luz.

– Quanto barulho por nada! – Posicionou-se o rapaz que esperava pelo conserto do seu aparato high tech. – Tá revoltada? Vai ao advogado e processe a loja. – Completou.

Já com semblante de quem estava descolada daquele momento, a jovem sentou-se, agora silenciosamente. Os olhos ainda interessados, mas menos afiados, permaneciam falantes:

– Eita, deve ser maluca essa moça. Veja só a cara dela, agora tá com jeito de quem teve a mãe morta. Tem gente que dá mais valor a um cartãozinho que à família. – Disse voz sem identificação pela loja.

(…)
– Por que vocês sempre tiram fotos assim? Vamos mudar um pouco hoje, afinal, a ideia é que essa viagem seja inesquecível, não é? A gente nunca sai das nossas cavernas iguaçuanas, vamos aproveitar toda essa paisagem, esses novos ares!

Marina era sempre a mais animada durante os passeios, fotografava tudo, parecia que os instantes de felicidade corriam risco de desaparecer caso não fossem registrados.

– Guilherme, Fê, juntem-se! Deitem na grama que pensei numa pose bem engraçada.

Os amigos riam de como Marina encarnava a fotógrafa nessas saídas.

– Vou postar agora no Facebook! …Droga! Não tem sinal. Em casa posto.

(…)

Sirenes agonizavam pelo acostamento da Dutra até que conseguiram chegar ao seu destino. O casal parecia bastante ferido. Os enfermeiros fizeram os primeiros atendimentos e correram para o hospital da Posse.

– O mais estranho é que nenhum dos dois estava na posição do motorista. – Constatou o maqueiro.

(…)

Acordou dentro da igreja de Santo Antonio sem bem entender o que tinha acontecido. Lembrava-se de que estava dirigindo e, de repente, uma forte luz… Nada mais. Talvez o padroeiro de sua cidade a levara até ali, mas isso era o menos importante.

Deu um grande salto fazendo um movimento rápido em direção ao bolso da blusa. Encontrou o pequeno cartão. Sempre o guardava ali. Correu em busca de um lugar onde pudesse abrir aquele pequeno resquício de sua memória.

(…)

– Menina, é melhor ir para casa, alguém deve estar preocupado contigo lá. – A primeira voz que Marina ouviu enquanto voltava a si dentro daquela loja não fazia muito sentido. Talvez porque nunca achou que alguém se preocupava consigo, talvez porque não sabia onde seria a tal casa que a voz insistia em direcioná-la. Tudo o que tinha era aquele cartão, ele era sua preocupação e seu lar. Nele residiam suas angústias e alívios.

Quis pedir desculpas a todos os olhos pedantes que a circundavam, mas a voz não saiu. Os olhos não mereciam ouvi-la, eram mais cruéis que afáveis, por isso manteve-se repousada na garganta de Marina.

Abriu a porta lentamente, lembrou-se de uma outra loja, perto da Praça da Liberdade que poderia estar aberta.

Chegando à praça um súbito lembrar a atingiu. Não era exatamente uma imagem, mas sim uma palavra, uma pequena palavra: Fê. Neste momento tropeçou em uma das mesas com estampa xadrez que jogou-se em sua frente e foi como se ouvisse dela: “Vai logo, Marina! Você sempre faz isso, quando percebe que seu jogo tá em risco, começa a embromar.”. Sorriu. Realmente, não conseguia enganar Fê, ela era a melhor jogadora de damas com tampinhas que conhecia.

Talvez nenhuma loja fosse capaz de consertar o cartão de memória, entretanto Marina já pensara em um plano B, iria vagar por toda Nova Iguaçu para que pudesse fisgar as memórias que aquele cartão escondia, mas que sua cidade podia apresentar em cada tropeço.

Desafio FLUPP Pensa – Manguinhos

Mais um texto que escrevi para a FLUPP Pensa. A cada dia percebo que essa brincadeira de escrever é coisa mais que séria. Dessa vez o tema foi: Minha mãe gosta mais de meu irmão/minha irmã.

 

12 de maio de 2011

Eu não quero ser a mais amada. Filho do meio tem disso, sabe que nunca será o mais querido, sempre haverá o primeiro ou o último para levar esse posto.

Ontem os 3 ficaram a tarde toda fora. Quando voltaram para casa, mamãe estava com um sorriso enorme. Perguntei aonde tinham ido e tiveram a coragem de dizer que foram ao médico. Mentirosa!

Dizem que sou uma adolescente rebelde e me deram esse diário pra eu desabafar. Será que eles não percebem que meu problema é o Pedro?

Fê.

(…)

– Acho que dessa vez vai dar tudo certo, tia Elza. A Fernandinha parece que ficou um pouco chateada porque passamos o dia fora, mas crianças são assim mesmo, depois passa. Agora vou desligar porque preciso dar o remédio para o Pedrinho.

25 de setembro de 2011

Eu me sinto uma idiota escrevendo aqui, mas é o único lugar onde posso dizer tudo o que penso. Minha mãe e meu pai estão me deixando cada dia mais de lado. Quase todo dia saem, ficam horas fora, provavelmente em lanchonetes super maneiras, parquinhos, cinemas… e eu, aqui. Só estudo e vejo televisão. Marina não me entende. Também, nem tem como ela entender o que  passando. Tem todos aqueles amigos da faculdade pra darem atenção pra ela. Eu nem lembro como era antes do Pedro nascer, nem sei se um dia eu fui amada desse jeito que eles o amam, mas gosto de pensar que sim. Dizem que os filhos não dão valor aos pais enquanto eles estão vivos, mas acho que o meu caso é o contrário.

Fê.

(…)

– Tia Elza, eu e Jorge temos brigado muito. Essa fase precisa passar logo. Não tenho nem conseguido dar a atenção que Fernanda  precisando. Acho que vou levá-la para sair, só nós duas…

23 de dezembro de 2011

Depois de tanto tempo prometendo, minha mãe disse que amanhã vamos ao shopping comprar os últimos presentes. Estou animada! Finalmente, só eu e ela.

Fê.

24 de dezembro de 2011

EU NÃO ACREDITO QUE ELA TEVE ESSA CORAGEM!!! Fiquei tanto tempo esperando para ter um dia só com a minha mãe e, quando acordo, cadê ela???? Eles sumiram, aposto que o desgraçado pediu aquele boneco de presente que não dá pra achar em lugar nenhum e eles logo correram pra procurar. ODEIO TODOS ELES!!!

Fê.

(…)

A menina ficou a manhã toda sentada na poltrona de frente pra porta, furiosa. A mãe entrou quase que se arrastando. Pegou um vestido e disse para ela vestir. Olhando o rosto da mãe daquele jeito não teve coragem de brigar. Obedeceu. Entrou no carro e permaneceram em silêncio. A mãe rasgou a mudez:

– Fernanda, seu irmãozinho está… estava muito doente. Tentamos de tudo… – Chorou.

A menina entrou numa sala e viu a pequena caixa de madeira branca rodeada de flores e pessoas chorando.

Era o melhor presente de natal que poderia receber.

Por fazer

Bateu a porta como quem não pretendia voltar. Lágrimas escorriam dos olhos do que ficara do lado contrário da porta batida. A chuva do olhar era tão mais tempestade que garoa que era possível ver a inundação que provocava no travesseiro, único consolador da dor ficada.

Lembrou-se da barba que nas noites de amor roçava em sua nuca. Sempre por fazer, tinha uma agressividade amorosa no atrito que provocava em sua pele. Mas, agora, já não havia mais atrito, nem amor, nem barba. Talvez apenas a agressividade tenha restado a pequena moça. Confiança é algo perigoso e aniquilador, tanto para o que confia, quanto para o que é confiado.

Sorriu imprudentemente. Não que houvesse lembrança boa em sua mente, ao contrário, lembrou do momento da despedida. “Despedida?” – pensou consigo. Nunca estiveram juntos, jamais se encontraram. Pensar num instante de despedida era ridículo, devaneio (apenas mais um).

Lúdico: melhor definição para aquilo que tiveram, ambos buscavam diversão e encontraram. O mal necessário que viam um no outro tornava tudo mais charmoso. Mas, apenas divertimento não bastava, não para eles, menos ainda para ele. Sua barba por fazer a fazia enlouquecer, o que ele buscava nela era misterioso, incompreensível. Suas almas românticas transfiguravam o prazer não fundamentado no amor em algo desprezível.

E, com toda a sua doçura, ele conseguiu repeli-la com aspereza. Secas palavras, nenhuma insinuação. Por tempo longo ela tentou entender, argumentar, compreender ainda que minimamento o que acontecera de uma noite para outra. Nada acontecera. Chegou, em uma triste manhã, a esta conclusão: nem tudo carece de explicação. E a manhã tornou-se triste por isso, não haver explicação para algo era um tormento enorme para alguém que buscava causalidade como oxigênio.

Fim. É apenas assim que pode-se resumir essa história. Durou pouco, não deixou frutos de alegria, nem de tristeza. Nem mesmo o travesseiro molhado tinha mais, ficou velho, jogado fora foi.

As lembranças são apenas poeira esperando que o vento venha dispersá-las.

Maria Lembra o Mar

Pisei flores demais enquanto andava cegamente em sua direção. Doce criança maldita, me fizeste perder a sutileza de percepção das gentis cusparadas do caminho que trilho, esta coisa chamada vida. Então,

por favor, cega-me, que ver teus olhos a brilhar assim sem ser para mim é dor sem fim

Antes, perdoa-me a rima ridícula, juro que não é nada proposital, mas, como esse meu amor que não queria, que não podia, que não deveria, é ato compulsório que não sei como repelir.

Meu masoquismo de ir atrás de ti com um punhal em mãos e cravá-lo em meu peito enquanto te observo assim, olhando para ela é inevitável também. Eu poderia fingir que não houve nada, mas prefiro assim, manter-me fingindo que não houve tudo, omitir o último capítulo de nossa história escrota e perversa de não-amor é o que me acarreta felicidade(?) atualmente.

Aquela cantigas não cantadas, aquelas flores decapitadas, pobres delas.

Agora, essa escrita sem sentido apresenta-se a mim como vômito necessário a embriaguez que me provocaste. És bebida nojenta que saboreei a cada gole. Vomito-te agora e espero que nada teu tenha restado em mim, nem as doces, nem as amargas, muito menos as insossas palavras trocadas.

Fica agora com a única coisa que eu pretendia dar-te: minha secreção estomacal.

Aproveite!

 

Desafio particular – Parte II

Esse é meu segundo texto para o desafio literário que estou participando. A cada texto fico mais insegura e certa de que escrever é mais que devaneio.

Memória

Olhava para o tênis, antes branco, agora de um cinza que nunca tinha percebido. Queria levantar, calçá-lo e sair correndo, mas não conseguia. Por mais que insistisse, meu corpo não atendia às ordens do pensamento. Só conseguia manter-me com o olhar fixo na tela do computador alternado a atenção com o tênis. Como menos de vinte palavras podiam ser tão poderosas? “Elis sumiu. Não consigo falar no celular dela. Sei que ontem ela foi te ver. Por favor, encontre-a!”

As palavras rodavam minha cabeça, queria pensar, mas não conseguia. Abri meu facebook como todas as manhãs, mas diferente de todas elas, uma mensagem curta continha um pedido e uma ordem que não sabia se poderia executar. Entretanto, precisava.

Precisava, mas não conseguia. Não conseguia nem levantar e calçar o tênis, como poderia encontrar Elis? Onde estaria você, Elis? Minha memória, travessa, só me fazia recordar das risadas, do cinema, dos beijos, do “também te amo”, mas e depois? E a despedida? Houve despedida?

Suava. Era um pedido e uma ordem. Uma súplica. Imagino que a mãe estivesse desolada ao me procurar, afinal, sempre fui o namorado imperfeito. Certamente, muita acusação havia naquela mensagem, mas já não importava isso.

Enfim, levantei. Como num impulso de quem está atrasado para um compromisso, calcei o tênis e corri para lugar que parecia exato às minhas pernas. Chegando numa esquina tudo parecia mais definido. Aos poucos o turvo esquecimento sumia. Coloquei a mão no bolso e senti o celular. Sim, o celular de Elis. Descarregou e ela me pediu para guardar.

Neste instante, um sorriso. Exatamente o mesmo pelo qual me apaixono algumas vezes por dia. Linda, seus cabelos ruivos sob o sol ficavam ainda mais laranja, um laranja sem igual. Lembrei da noite juntos e da saída dela para comprar o café. Agarrei-a sem que ela entendesse. “Tá louco? Parece até que acabo de vir de longa viagem…” “Te amo!”.

Olhei-a e soube. Era o momento exato.

“Aceito!”. Ela disse, sem que fosse preciso perguntar.