Covardia Rotineira

suicidioEra a terceira vez que abria a janela forçada pelo impulso de saltar. Mas, como nos dias anteriores, não passaria de um ritual para começar o dia. Subir, descer, debruçar-se sobre o parapeito da janela mostrava o quanto a morte era fácil e complicada. Saía todos os dias pensando em como seria bom ser esfaqueada por um insano qualquer ou então atropelada pela embriaguez noturna dos jovens eternos. Entretanto, nenhum dos teus sonhos fatais se tornava realidade, e assim, dia após dia, sentia que apenas a vida acabaria sendo responsável pelo seu definhar.

No trabalho era apenas mais uma facilmente substituível funcionária. O chefe mal sabia seu nome e tampouco era importante para ele saber. Foi então que decidiu encontrar um outro lugar onde seu valor fosse apreciado. Foi quando percebeu que não tinha valor nenhum. Tentando responder a um formulário de voluntariado, não conseguia descrever nem mesmo uma qualidade própria, uma habilidade qualquer, algo em que pudesse ser útil. As únicas palavras que lhe passavam pela cabeça eram o que a definiam. Era mesquinha, egoísta, cínica, nunca conseguira sorrir sinceramente, jamais dissera um “eu te amo” que não fosse apenas um balbucio frio, nunca agradecia de coração pelos favores, e todos os “bom dia” e boa noite” eram secos e dados como que por obrigação. Os gentis e solidários sempre lhe parecerem estúpidos.

Neste instante, no meio daquele monte de perguntas sem respostas, ela compreendeu. Ninguém iria querer sua ajuda, ninguém queria, na verdade, alguém como ela por perto. Era como um tumor maligno  era doença sem cura. E o pior, era contagiosa. Como em um filme de terror psicológico, chegou ao final do seu, e entendeu que o assassino que destruía toda a alegria a sua volta era ela mesma. Mas não havia sequer outra personalidade a quem pudesse se agarrar, deixando a assassina de lado. Ela era somente aquilo, em toda sua composição.

E não importava toda a trajetória que a levou a ser assim. Apenas era e não havia solução. Foi quando o inevitável passou por sua cabeça. Ser aquilo não era o que queria. E se aquilo era a única coisa que poderia ser, só haveria uma forma de não ser. E não ser só poderia ser, se não fosse. Subiu os dez andares de uma só vez, lembrou do dia em que uma amiga contou do caso de uma menina que pulara do sexto andar e não morrera na hora. Não podia correr esse risco. O melhor para o mundo era que fosse definitivo. Sua respiração poderia estar contaminando todos os outros com essa doença incurável que se tornara. Imagine só se alguém decide ter compaixão e a salva da queda. Seria terrível.

Subiu mais quatro andares. Certamente não teria a menor chance de erro.

No funeral feito numa pequena capela apenas com os familiares que queriam ter certeza do ocorrido, havia poucas flores ao redor do caixão fechado. Como ela previra, ninguém chorou.

Anúncios

Dos teus lábios só sinto falta do silêncio mordaz

Sentada na varanda, balançando-me tão devagar, finalmente tive coragem de admitir. Aquele homem em minha cama era apenas mais uma vítima. Depois das três da madrugada, minha única preocupação era a de não magoá-lo com a rotineira expulsão compulsória que o surpreenderia pela manhãzinha. Quem sabe ele nem se surpreenda, ao contrário dos tantos outros, este já está na terceira visita. Espero que tenha entendido o esquema de funcionamento da casa. Jantar, vinho, sexo, levanto no meio da noite, pela manhã um bilhete, uma chave e um bombom e um ate breve. Mesmo quando não pretendia ver o sujeito novamente, era sempre com um “até breve” que fechava o recado em letras suaves. É que sempre tive medo de que um bilhete escrito apenas “Deixe a chave sob o tapete” não soasse tão doce, então, os bombons e o “até breve” ficaram responsáveis por essa parte. Quase consigo ouvir a sua reação quando nos encontrarmos no almoço mais tarde: “Você quer me matar de diabetes, mocinha?”. Gosto do seu humor, mas não o bastante para dividir a cama depois das horas de prazer. Gosto de suas mãos em meu corpo, mas não o bastante para querê-las me envolvendo durante o sono. Seu cheiro, sua forma, sua força sutil, tudo é bom, diria ótimo, mas não o bastante para me fazer romper o ciclo. Eu preciso ir além disso (dele), e acredito que ele já tenha percebido. É difícil se desprender de um bom papo seguido de uma transa perfeita, mas acho que chegou a hora. O relógio marca quinze pras quatro e é melhor me adiantar com o bilhete e buscar o bombom na bolsa.

À porta do quarto me deparo com o menos esperado: a cama vazia. Dou uma olhada no banheiro, a luz está acessa, o danado me pegou no flagrante, vou ter que dar mais uma chupada para compensar a saída no meio da noite. Apago a luz. Um jogo a essa hora? Achei que ele tivesse entendido como as coisas funcionam aqui, mas estou começando a perceber que me enganei. Nada na sala, nem na cozinha. Volto ao quarto e vejo seu cigarro ainda acesso. Vou até a porta, a chave está sob o tapete. Parece que ele entendeu o jogo melhor do que acreditava eu. Poupou-me caneta e bombom. Como um de sabor meio amargo e me deito, amanhã será um longo dia de trabalho.

Chego à usina e me sinto habituadamente desconfortável com os olhares indisfarçados dos companheiros de trabalho. Deveria ter um adicional em meu salário por ter que ser comida pelos olhos daqueles merdas diariamente. Entro na minha sala e acendo um cigarro. A fumaça me faz pensar na noite anterior. No papo, nas mãos, no cheiro… Balanço a cabeça como quem se flagra em um cochilo indevido. Por que diabos estava pensando nisso? Teria o abandono noturno despertado algo que há muito estava adormecido em mim? Quanta bobagem, preciso é de trabalho. E café, isso sim vai me despertar.

Na hora do almoço penso um pouco antes de abrir a porta do restaurante de sempre. A hesitação é menos pela dúvida sobre o menu do dia que pela possibilidade de encontrá-lo ali. Dividir a mesma mesa dia após dia nos aproximou e agora parecia a maior expressão de afastamento que poderia imaginar. Pensei e pedir o prato para viagem, mas olhando à minha volta pude constatar que ele não seria um problema naquela tarde. Sentei, garfei algumas ervilhas, mas não sentia fome. Que absurdo! Isso não poderia estar acontecendo. Não de novo, não comigo. Três transas e me apaixono??? Tudo bem que foram 3 meses de papos de almoço, mas isso dá o que? Cinco dias na semana, duas horas de intervalo, quarenta horas por semana, cento em vinte horas de papo… Que porra é essa? Estou mesmo calculando quanto tempo passamos juntos aqui??? Isso é realmente ridículo, estou surtando só porque um cara saiu da cama antes que eu pudesse sair, só por isso. Não é possível que haja sentimento de amor nisso tudo. Não mesmo. A única coisa que poderia amar nele é aquela covinha e a maneira como seus olhos fecham quando sorri. Ok, um cara com quem almocei durante três meses, jantei durantes algumas noites e trepei umas três vezes me abandonou e agora estou frustrada. Este é um comportamento absolutamente aceitável.

Foi quando meu telefone tocou. O número era desconhecido, então, atendi com meu habitual tom de indiferença. “Alô?”. Meu coração acelerou. A ligação estava horrível, mas eu reconheceria aquela voz até no meio do trânsito paulista. “Leandro?”. Falei com uma voz que saiu com mais falsete que a de um soprano. Esqueci os papos, os almoços, as mãos, o cheiro do outro cara que nem lembro mais o nome.

Leandro foi minha grande paixão de verão. Encontrei-o pessoalmente apenas duas ou três vezes, mas tinha certeza de que o queria mais que qualquer porção extra de bacon em um sanduíche. Eu nem sei o que me atraía nele, mas era inevitável querê-lo dentro de mim. Eu sabia que qualquer coisa que eu e ele falássemos naquele telefonema me levaria a uma longa temporada de sexo com desconhecidos, mas por uma noite eu estaria com o corpo que melhor conheci no mundo. Mesmo tendo tocado tão poucas vezes. Foi assim no último ano, seria assim enquanto ele quisesse que fosse. Acho que o segredo para deixar um amor partir é conseguir chorar por ele, pelo menos uma vez. Ele nunca me fez chorar, nunca o culpei por isso, nem pelas noites de solidão a dois, nem por aquelas em que adormecia embalada pelo vinho e boleros sem lucidez. Enquanto eu não chorasse por ele, enquanto sua substância ainda fosse parte de meu corpo, ainda seria sua.

Acerto das Contas

Então era isso, estávamos mais uma vez juntos, pela última vez dividindo o mesmo espaço. Eu quis chegar mais perto, mas minhas pernas, pelo frio ou pela tensão, não se moviam. Permaneci sentada e mal conseguia ver seu rosto. Todo aquele mistério a sua volta sempre foi comum para mim, mas nossa última vez não deveria ser assim. Ele, menos gelado que das outras vezes, sequer deve ter notado minha presença, e se notou pouco fez questão de demonstrar. Eu não era nada e sabia disso. Ele sempre me lembrava.

Funerais nunca me fizeram chorar, não até hoje. Ver de perto seus olhos cerrados de modo tão eterno fez minha a primeira lágrima brotar. Eu tentei contê-la, ergui um dedo sutilmente em sua direção,  não porque não estivesse de acordo com o sentimento que aquela pequena gota materializava, mas porque as outras pessoas presentes não entenderiam bem o meu gesto. Não era culpa delas, entre mim e ele havia uma intimidade tão distante da compreensão alheia que qualquer expressão minha de dor seria surpreendente.

Ele continuava distante, mesmo quando decidi dar o último abraço. Sempre fez questão de exaltar o quanto éramos diferentes, sempre me afastou, até nos momentos de carinho. Eu sorri, na verdade, acredito que tenha gargalhado. Os olhares, que antes apenas estranhavam meu comportamento, passaram a me condenar. Era ensurdecedora a maneira como eles me fitavam, um silêncio digno do juízo final, vozes e gritos tão contidos que transbordavam nos olhos. Eu era pequena, cada vez menor, e eles faziam questão de me lembrar.

Cansada, sai por alguns instantes da igreja para pensar e respirar melhor. Mas um grande aperto me tomou de repente. Parecia que algo estava a minha volta. Senti-me envolvida, como numa dança, rodando sem saber com que par. Não era uma sensação boa. Pensei na morte, em morrer. Não desejando, mas tentando imaginar como devem ser os últimos instantes. Cheguei a conclusão de que deve ser como quando adormecemos, que esquecemos os minutos precedentes. Mas, e depois da morte? Esperar por um lugar onde seu comportamento neste plano seja respondido é o mais comum, mas eu não conseguia acreditar nisso. Quero morrer e tornar-me parte daquilo ao que mais me dediquei. De certa forma, sabia que isso era possível. Sabia que meu pai não estava naquele caixão, que ele estava dentro de mim. Querendo ou não, entrei em um processo de metamorfose. Parte de mim morreu junto com ele, parte dele vive agora comigo.

Idas e vindas

Sentou naquela velha cadeira de balanço. Precisava ir a algum lugar e aquele era o mais longe que poderia ir. Para frente e para tràs. Aquilo era angustiante. Não a limitação imposta pela cadeira, mas a limitação que as não paredes de sua vida a impunham. Se sentia limitada a liberdade, e isso era tão pouco, era tão cruel…

Olhou para suas mãos e quis fazer um gesto de uni-las, iniciar uma oração. Mas não acreditava em deuses. Bem que sua mãe disse que não Deus um dia lhe faria falta. Agora não tinha a quem culpar por todas as frustrações. Talvez tivesse em tempo de culpar esse tal criador que nunca fez questão de se apresentar a sua pequena criatura.

Enfrentar a Deus a essa altura do campeonato era o que menos queria ou precisava. Cuspiu numa formiga transeunte. Isso a fez sentir como Deus. Escarrando sobre os mortais humanos,  sobre suas vaidades e certezas. Estavam quites.

Levantou-se e foi até a cozinha. Pegou a maior faca de serra. Tocou o quente aço ao seu pulso frio. Serrava alucinadamente, mas apenas em pensamento, era covarde demais para se matar daquela forma. As mãos nada mexiam, nem a que estava com a faca, nem a outra. Sangrar até morrer lhe parecia doloroso demais e de dores prolongadas jà estava bem servida.

Correu para sua janela, era o 13° andar, seriam apenas alguns segundo até tocar o chão. Lembrou-se de Chico, de Construção, do “morreu na contramão atrapalhando o trafego”. Não queria atrapalhar as rotinas.

Pegou um frasco de remédios. Isso! Era perfeito, tomaria os comprimidos e esperaria dormindo pela brisa da morte, afagando-lhe a nuca, descendo pelas coxas, rompendo sua permanência de merda nesta vida. O plano era perfeito, mas os comprimidos eram para febre, febre infantil. Certamente seu corpo não era febril, tampouco infantil. Não sentiria nada com aqueles malditos comprimidos rosados.

O fracasso repugnante daquela criatura que nem para morrer era suficiente, fez com que caminhasse despercebida até uma poltrona de canto no quarto. Pegou o caderno que estava sobre ele e percebeu uma caneta em suas entranhas. Era a arma perfeita. Tirou a tampa daquela bic e encostou sua ponta no pulso. Escreveu. Primeiro uma palavra. Depois uma frase. Quando não tinha mais corpo para tantas palavras mortais, passou para o papel. Cada folha acabava tão rapido que quando chegou na contracapa que se deu conta do que tinha em mãos. Aquilo não era mais apenas um caderno. Era sua alma. E agora, em seu corpo so havia tinta.

Sina

Apesar da proximidade nunca ter existido,

apesar dos olhos pouco vistos,

apesar das conversas serem sempre despretensiosas,

Pesando os pesares, o maior é a distância irremediável.

E aquilo que não tem remédio,

fadado à morte está.

Inútil espera

Queria. Queria por não querer. Não queria por querer. E, nessa confusão de desejos, só restava uma certeza, a de que não teria.

Abriu a caixa de correios aquela manhã com a mesma pretensão dos demais dias. Mas, como também ocorrido naqueles dias, somente cobranças, revistas e spams habitavam a pequena caixa, que a cada dia tornava-se mais desenganadora. Jogou as cartas na escrivaninha e seguiu sua jornada: trabalho-faculdade-café-casa.

Chegando, à noite, observou um envelope diferente no meio das cartas. Seus olhos brilharam. Seria aquela a correspondência a tanto esperada?

O papel rosado tomou tom cinza conforme decodificava sua mensagem. Era o resultado de um exame feito há tão distante época que já nem se recordava. Era totalmente desenganador, como a caixa de correio. Em palavras secas, que só médicos – que possuem a frieza de quem lida constantemente com a morte – poderiam usar. “Apenas mais alguns dias”, “impossível cura” e um “sentimos muito” que finalizava a mensagem.

Tentou chorar. Mas não tinha pelo quê. Talvez, se aquela carta chegasse antes dessa, tivesse. Mas não veio.

E como a sua triste sina era sempre enveredada por cartas que chegavam [ou não] à sua casa, decidiu escrever uma. Não haveria destinatário. Quando a lessem, seja quem fosse, desejava que sentissem a mesma coisa: vontade de aproveitar o tempo que não tem volta.

Pegou uma folha. Três horas se passaram, nada conseguiu escrever. Foi quando viu uma gota de chuva cair sobre o papel. “Vem tempestade”, pensou. Mas não chovia. Chorava. sentiu um aperto no peito. Faltou-lhe o ar. Caiu lentamente sobre a folha úmida. Ali deixara a maior mensagem que poderia deixar para seja lá quem fosse ‘ler’.

Fome

Não queria. Pelo menos não até o instante em que me foi negado. Infelizmente, sou teimosa, caprichosa, quero aquilo que não pode ser meu. Sempre. E, seguindo a profecia, foi quando me disseste não, que me cativaste. Mas, não se envaideças, como disse, é sempre assim. Com todas as coisas. És só mais uma. Sou uma competidora voraz, preciso me sentir ganhando. Do contrário, nem sei. Sempre ganho.

Morder tua carne teria um sabor único, pois seria como um prêmio. Teria que me conter para não buscar teu sangue. Falando assim, pareço até uma selvagem, mas não. Nada mais racional que a necessidade de dominação. A ânsia pela conquista de outrem é algo que me move, creio que mova a humanidade genericamente. Por dentro, todos somos assim, uns assumem (como eu), outros não. Não importa. somos antropófagos de berço e de criação.

O mais engraçado nisso tudo é que comer a carne não saciaria esse desejo ávido dos mortais. Por isso não vês as pessoas devorando umas às outras pelas ruas. Precisamos mesmo é consumir a alma alheia. Corpo é apenas corpo, mas alma, ah, a alma… algo que nem sabemos se de fato existe e que nos traz tanta certeza de auto-existência.

Calma. Não quero tua alma. Nem saberia o que fazer com ela. Sugiro que a venda a Satã, se ela estiver disponível. Ele pagaria um bom preço. Quero algo além da alma. Quero tua fraqueza. Não me entenda mal, não te quero fraco, mas sim desarmado. Direi melhor, quero tua fragilidade. Esse menino doce que sei que há aí dentro, atrás desse rosto esquivo. Tua delicadeza é o que almejo. Teus raros sorrisos antes de adormecer. Seus olhos entreabertos, seus dedos em minha pele. Quero pouca coisa, só quero te sentir meu. Quero sentir isso fisicamente e em minha pouco comprovável que exista alma. Entretanto, a certeza da impossibilidade é cada vez mais evidente.

E isso, meu caro, só aumenta o apetite.