Bruta Fera

Os meus precipícios estão rasos
não há mais chances para fórmulas de felicidade
só me restou o prazer efêmero,
o risco
E ando profundamente interessada no
intermitente e no que
[não promete nada]
Quero o que fere e cura minha carne,
fere e cura
simultaneamente
Feridas profundas,
sangue que jorra
Tomo do meu sangue e dele extraio
o antídoto para
meu próprio veneno
Os lábios encarnados designam meu ser
[Bruta fera]
Tiro da tua pele apenas o que me convém
És pequeno,
servo, tolo
Não percebes minhas garras, minhas presas
Conjugo o prazer contigo,
mas antes que amanheça,
há outro em teu lugar
Anoitece, chamo teu nome com voz branda,
porque sou mansa
[fera].

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Adeus!

O mais engraçado é que você vai como veio. Sorrindo.

Pelo menos sou coerente.

Não entendo.

Seu mal é esse. Fica sempre perdendo tempo tentando entender.

O que quer dizer com isso?

Eu te disse quando começamos que não era pra entender, era pra sentir, pra viver. Mas você insistiu nisso de entender.

Não gosto das coisas incompreensíveis, não são controláveis. Fogem do meu domínio.

Isso! Exatamente! Eu não sou controlável, por isso, incompreensível.

Você vai mesmo?

Sim. Não há mais lugar pra mim aqui.

Podemos mudar. Uma outra casa. Uma outra cidade. Outros empregos. Tudo novo!

Não, você não entendeu. Não há mais lugar pra mim em você.

Não seja tola. Todo espaço em mim é teu. Todas as brechas, todos foram ocupados por ti.

Isso é um grande problema.

Por quê?

Agora estou indo. O que acontecerá com estes espaços?

Não sei. Nunca pensei nisso. Nunca pensei em você indo. Não sei o que será…

Não pense então. Era isso que não queria, não queria despedida, não queria reflexão a respeito.

Não vá.

Tenho que ir. Soltemos as mãos, isso deve ser fácil. Ambos já passamos por isso algumas tantas vezes.

Sim. Mas dessa vez é diferente.

Por quê?

Nunca ninguém ocupou todos os lugares. Eu sempre deixava algum vago. Nunca me entregava completamente. Pelo menos até você chegar.

Desculpa. Mas eu te disse que não poderia te prometer nada. Te pedi para não sonhar. E você, teimoso, sonhou.

Desculpe-me, então. Mas sou sonhador.

Continue assim. Essa é tua maior riqueza.

Eu te amo tanto! Não vá.

Não disse mais nada. Deu-lhe um beijo na testa. Olhou a hora. Ainda era cedo para pegar o ônibus, mas mesmo assim levantou-se. Ajeitou o lenço no pescoço e partiu. Não olhou para trás. Se olhasse talvez o visse subindo no beiral da ponte. Talvez tivesse impedido-o de pular. Talvez não. Quem sabe?

Poemasemespaço,sempoesia

Oespaçoquecolocamosentreaspalavrassãoespaçosentreaspessoas

e,porissso,destaveznãocolocareiespaçosentreaspalavras

queroauniãodosgrãosdeareiamolhadospelaáguadapraia.

Sãovários,sãoum.

Vamos,amor,dá-metuamão,juntos,juntinhoscomoosgrãos

Estediaétodonosso,aproveitemostodasastuashorasparaamar

deitacomigoeficaremosaqui,

molhadospelaáguadapraia,

juntos,juntinhos.

Entre confetes e serpentinas

(Qualquer semelhança com a vida real, certamente é obra da dificuldade de retirar fatos ocorridos recentemente de minha mente)

Deu um longo suspiro de cansaço. Já não queria mais estar ali, porém, era impossível lutar contra a força da massa que a cercava. Entrou na primeira porta que encontrara, uma agência bancária. Nenhuma surpresa foi ver diversos foliões estirados entre os caixas eletrônicos. Mesmo assim, o ambiente ainda era copiosamente melhor que o externo.

– Não vim a este mundo para isso. Quero meu videogame, minhas revistas, meu romance que anseio terminar leitura… – Pensou.

A amiga que a acompanhava disse que daria uma volta pelos arredores para ver se encontrava os demais amigos de quem se perderam em meio a multidão.

Então, ali, sentada, permaneceu.

Num instante de distração, com os pensamentos perdidos em bailes ideais, ouve uma voz conhecida. Não, não era possível. Voltou à fantasia. Logo, sentiu uma mão ao ombro e um chamado.

Levantou os olhos e notou que conhecia bem aquela voz e aquele rosto. Finalmente, pela primeira vez naquela manhã, abriu um sorriso espontâneo.

– Quanto tempo! Só o destino mesmo para nos colocar frente a frente, não é mesmo?

– Diria que as travessuras do destino, porque se não fosse a sucessão de intempéries que passei…enfim, quanto tempo mesmo.

E, assim, começou uma pequena longa conversa. Ela já nem se lembrava daquilo tudo que justificava a lágrima premonitória pintada em sua face. Depois dos quinze minutos mais prazerosos que poderia haver, um amigo o chama a porta e ambos percebem que é o momento de ir.

– Bem, até pediria teu número, se não tivesse sido levado, – sorriu – mas te encontrarei, pode deixar.

Ela sorriu descrente e, simultaneamente, esperançosa:

– Nos encontramos, então.

A saga teria que continuar, mas, desde o instante do reencontro, a moça já sentia-se no baile pouco antes imaginado.

Amoras despedaçadas

Permitiu que todas as lágrimas caíssem, que tocassem o chão. Chorava alto. Soluçava. Sentiu-se uma carpideira, que encenava grande tragédia por defunto desconhecido. Mal sabia seu nome. Nunca vira, de fato, seu rosto. E, mesmo assim, a dor que estava sentindo neste instante era maior que todas as outras. Não por outrem, mas por sentir-se a criatura mais estúpida que poderia ser.

Foi até o banheiro. Encarou-se por alguns segundos no espelho. Sentiu nojo do próprio rosto. Asco enorme tomou conta de si. Sabia exatamente que não deveria ter-se entregue. “Arisque!”. Lembrou da voz que sempre dizia-lhe. Vomitou. Pensando em si e nela. Queria que saísse tudo. A voz, as situações, a entrega toda, a sensação de tolice que estava impregnada em seu corpo.

Sabia que doeria e mesmo assim arriscou, como a voz dissera. Perdeu.

Sorriu. Gargalhou. Pensou em todas as outras vezes que sofrera desse jeito. Não, essa não seria a maior de suas dores, nem mesmo a última. Sempre era assim. Percebeu que havia até certo prazer em sentir-se desse jeito.

Pegou suas chaves e foi ao cinema assistir ao filme de romance mais meloso em cartaz.