A plateia só deseja ser feliz

Sei lá que dia da semana era, nem mesmo o ano me recordo. Só sei que a canção me tocou, como tantas outras, mas de uma forma especialmente diferente. Era uma tarde quente, disso me lembro bem. A turma estava agitada, eu também. As aulas de Sociologia eram sempre meio complicadas demais para a gente, e aquela letra, de alguma forma, me explicava o porquê. Tímida, não fui capaz de chegar até o professor e falar sobre aquele sentimento apertado, angustiado, que a canção despertou em mim. Parece bobagem, mas os professores sempre me pareceram autoridades inacessíveis, com as quais eu não conseguiria jamais conversar tranquilamente. Talvez, até hoje.

O tempo passou, mas não consegui esquecer alguns daqueles versos. Frequentemente, voltavam, mas já bastante confusos, fora de ordem, algumas vezes apenas palavras, mas sempre acompanhadas da certeza de que eram parte daquela letra. Eu já não conseguia saber se a angústia em mim era maior pelo que a canção representava ou pela ideia de jamais voltar a ouvi-la.

Minha memória, traiçoeira, não me permite descrever com exatidão o cenário da descoberta. Nem precisa. Imagino que tenha sido outra tarde quente. Mais pela emoção que pelo clima. Meu corpo era puro arrepio, não conseguia parar de tocá-la. Foi como atravessar o arco-íris, tomar o pote de ouro nas mãos e beijar cada moeda. Aos poucos, a a febre do ouro foi esvaindo, então, conforme me recompunha, pude saborear com mais prazer ainda a letra. O prazer virou angústia novamente.

Perceber que, aos 14 anos, aquela letra ainda era confusão para mim, me fez sentir menos humana. Era tudo tão óbvio, tão eu, tão nós.

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Acerto das Contas

Então era isso, estávamos mais uma vez juntos, pela última vez dividindo o mesmo espaço. Eu quis chegar mais perto, mas minhas pernas, pelo frio ou pela tensão, não se moviam. Permaneci sentada e mal conseguia ver seu rosto. Todo aquele mistério a sua volta sempre foi comum para mim, mas nossa última vez não deveria ser assim. Ele, menos gelado que das outras vezes, sequer deve ter notado minha presença, e se notou pouco fez questão de demonstrar. Eu não era nada e sabia disso. Ele sempre me lembrava.

Funerais nunca me fizeram chorar, não até hoje. Ver de perto seus olhos cerrados de modo tão eterno fez minha a primeira lágrima brotar. Eu tentei contê-la, ergui um dedo sutilmente em sua direção,  não porque não estivesse de acordo com o sentimento que aquela pequena gota materializava, mas porque as outras pessoas presentes não entenderiam bem o meu gesto. Não era culpa delas, entre mim e ele havia uma intimidade tão distante da compreensão alheia que qualquer expressão minha de dor seria surpreendente.

Ele continuava distante, mesmo quando decidi dar o último abraço. Sempre fez questão de exaltar o quanto éramos diferentes, sempre me afastou, até nos momentos de carinho. Eu sorri, na verdade, acredito que tenha gargalhado. Os olhares, que antes apenas estranhavam meu comportamento, passaram a me condenar. Era ensurdecedora a maneira como eles me fitavam, um silêncio digno do juízo final, vozes e gritos tão contidos que transbordavam nos olhos. Eu era pequena, cada vez menor, e eles faziam questão de me lembrar.

Cansada, sai por alguns instantes da igreja para pensar e respirar melhor. Mas um grande aperto me tomou de repente. Parecia que algo estava a minha volta. Senti-me envolvida, como numa dança, rodando sem saber com que par. Não era uma sensação boa. Pensei na morte, em morrer. Não desejando, mas tentando imaginar como devem ser os últimos instantes. Cheguei a conclusão de que deve ser como quando adormecemos, que esquecemos os minutos precedentes. Mas, e depois da morte? Esperar por um lugar onde seu comportamento neste plano seja respondido é o mais comum, mas eu não conseguia acreditar nisso. Quero morrer e tornar-me parte daquilo ao que mais me dediquei. De certa forma, sabia que isso era possível. Sabia que meu pai não estava naquele caixão, que ele estava dentro de mim. Querendo ou não, entrei em um processo de metamorfose. Parte de mim morreu junto com ele, parte dele vive agora comigo.

De súbito

Depois do quinto cigarro apagado sobre a superfície do cinzeiro, comecei a me preocupar com o caminho que estava tomando. Tirei mais um do maço jurando, quase que em voz alta, que seria o último. Não foi. Mais um e mais outro. Nem sei o que me excitava mais naquele gesto: acender, queimar ou apagar. Eu desejava a fumaça como criança que deseja a teta da mãe.

Comecei a pensar nas razões que me levaram a acender o primeiro cigarro. Aquilo tudo era coisa demais. Sim, eu merecia cada uma daquelas flamejantes doses de fumaça. Estava cansada da gente escrota que me cercava e que apenas sugava minhas energias. Estava mais cansada ainda da condição em que me coloquei com o passar do tempo, deixando-me ser usada.

Pensei em toda as vezes em que abri mão de minha própria alegria para ver outras pessoas sorrindo. Acendi outro cigarro. Não que quisesse qualquer retribuição, mas agora era doloroso pensar em tudo que poderia ser meu, e não é. De súbito, o apaguei. Ouvi um som familiar, algo que ressonou na minha alma. Por alguns instantes parei de respirar. Nem que fosse por apenas alguns instantes precisava ter aquele som dentro de mim. Era barulho de paz. Era ela chegando. Fechei os olhos, esperando que suas doces mãos enlaçassem meu rosto. Sua respiração ofegante era inconfundível. Era intensa, única.

Mais alguns instantes e senti que o som se afastava. E isso eu não previra. Logo eu, cheia de certezas, eu que poucas vezes errava, estava ali, sentada, de cigarros apagados, desvelada. A vadia me provocou, me fez crer em sua chegada, me perpetuou a instantes de respiração cessada. E não veio.

Ela não poderia ter partido, não assim, sem nem chegar mais perto, sem nem compensar os instantes que deixei de respirar apenas para sentir sua aproximação. Agora ela era partida. Sem nem mesmo ter sido vinda ou permanência.

Vez ou outra, como esta, em que me pego lembrando desta nossa última chance de contato, chego a ter certeza de que o som que ouvi nem era dela. Era mistério. Era loucura. Era o zunir que a privação de oxigênio provoca antes de um desmaio. Só que parei de respirar depois do primeiro ouvir…

Mas todas estas coisas eu pensei depois. Naquela tarde, minha mente era dela. Toda. Apenas. Sem pensar, acendo outro cigarro. Queimo neste gesto toda a esperança que tinha de que a felicidade um dia iria passar da varanda. Ela nunca habitará minha morada.

Monólogo

Minhas mãos estavam tão suadas, meu coração palpitava, mal conseguia piscar e isto fazia meus olhos arderem. Eu chorava, mas não era por falta de cerrar as pálpebras, era falta dele. Poucas manhãs foram tão angustiantes em toda minha vida. Mas não havia nada a ser feito, apenas aceitar. Podíamos ter sido qualquer coisa um para o outro e, certamente, fomos muitas, mas o que importa é que no fim tornamos-nos apenas saudade.

Tem gente que gosta de sentir saudade, diz que é maneira boa de saber que viveu momentos memoráveis. Esse tipo de pessoa, desconfio eu, nunca passou por saudade de verdade. Saudade não é sentimento bom, é nó na garganta, é falta de ar, é suicidar-se e permanecer sofrendo, apenas dor.

Consigo me lembrar exatamente de cada gesto, cada palavra não dita aquela noite. Não precisávamos de nenhuma. Ele se deitou lentamente na cama e eu hesitei em abraçá-lo. Agora que estou falando sobre isso, não consigo entender bem porque foi assim. Eu tenho certeza de que meu desejo era de aperta-lo copiosamente. Mas hesitei.

Choro. Estou mentindo terrivelmente e não consigo mais fazer isso. Eu não o abracei porque quando olhei para aqueles ombros eu me senti tão segura, tão confortável.., eu senti medo. Tive medo de me entregar e algum dia me ver repentinamente desalojada daquele sentimento. Mas, pior que isso, tive imenso pavor de sentir aquilo pelo resto da vida, não consegMonui me ver eternamente distante das dores.

Eu sou do tipo que gosta de saudade, mas por ela ser exatamente como descrevi antes, torturante. Há quem consiga conviver com a falta de aflição, desconsiderando qualquer possibilidade de dias tristes e cinzas. Eu não. Preciso sentir a carne rasgando de tanta dor, gosto de sentir culpa, gosto mais ainda da sensação de arrependimento, sofrer pelo que poderia ter sido, mas não foi.

Há quem me diga louca, mas eu pedi para que ele partisse na manhã seguinte exatamente por isso. Ele precisava ir, não havia outra opção. Eu me sinto completa agora, com a certeza de que o amanhã será triste e que minha luta pela felicidade não vai terminar. Loucura ou não, a infelicidade me faz viver mais tranquila.

Finalmente, algo sobre amor

Caminhava pela calçada quando de repente lhe ocorreu: “Eu não a amo mais”. Desistiu de passar na locadora, mas fez questão de comprar um pote grande de sorvete, daquele com pedacinhos de biscoito, era o preferido dela. Aquela mulher com quem estava dividindo risadas, choros e a cama, precisaria de consolo e nada melhor do que o companheiro gelado. Não, não estava pensando em si mesmo, apesar da definição também servir para ele.

Entrou no carro e durante a viagem de volta para o seu apartamento só conseguia pensar em uma coisa. Aquilo o afligia mais do que qualquer uma de suas experiências mais dolorosas, mais até do que quando cortara o dedo em uma lata de sardinha e temeu a morte por tétano.

A questão era: quando, afinal, o amor acabara? Não sabia a resposta e, sinceramente, pouco se importava com ela. Percebeu que a aflição não era por isso. Até porque, enquanto pagava pelo sorvete, percebeu que talvez nunca a tivesse amado. Sua angustia seria, então, por que teria levado aquela mulher que não amava para dentro de sua casa, para seu apartamento? Não quis problematizar isso, estava cansado demais e preferiu gastar sua mente com suposições sobre as obras do Maracanã. “Isso nunca vai ficar pronto pra Copa”. Ai sim percebeu o que era uma verdadeira aflição.

Chegou em casa com o discurso ensaiado, “não é você, sou eu.”, “você é a pessoa certa, no momento errado”, “blablabla”. Mas não teve muito tempo para isso. Abriu a porta e se deparou com a mochila cheia de botons em cima da poltrona e ela terminando de passar o rímel. Disse que não voltaria e que um táxi chegaria em 10 minutos para busca-la. Deu-lhe um beijo na testa que deixou apenas uma marca e foi. Realmente, nunca mais voltou. Ele sentou na poltrona, pegou o sorvete e limpou a marca do batom da testa.

O mais engraçado dessa história é que ela é mais próxima do que vivemos diariamente do que aquilo tudo que ouvimos quando éramos crianças. Não nos ensinaram a terminar, pois todos os amores que conhecemos eram para sempre. Acontece que o para sempre às vezes dura dois ou três meses. Provas de amor são status de relacionamento em redes sociais. A gente sabe que o amor acabou quando a exclusão no facebook é recíproca. As pessoas se deletam e fazem questão de esvaziar suas lixeiras, para que não haja recaída. Mal necessário, afinal, o amor é um worm.

Era para ser uma estória de amor

Encostou os sapatos do lado esquerdo da poltrona, e dessa vez não era o habitual scarpin verde musco com o qual já estava acostumado a tropeçar. Era um tênis, cinzento, como aquela manhã. Olhei bem seu rosto distraído e notei o quanto os anos lhe tinham sido cruéis. Nunca percebi a maneira triste como seus olhos piscavam, como sua boca contraia-se quando estava concentrada em algo. Suas mãos pareciam tremer enquanto se esforçava para amarrar os sapatos. Pensei em ajuda-la, em segurar suas mãos, mas não tive coragem. A cena seria desnecessária e ainda mais cruel que o tempo que a fez tornar-se uma mulher digna de piedade, da minha piedade.

Pegou suas bolsas e as repousou no canto da varanda, esperava pelo táxi e, então, resolveu acender um cigarro. Aquele cheiro me fez lembrar exatamente o porquê da da minha ansiedade na noite anterior por sua partida. Lembrou-me de muitas coisas, de angústias, mágoas e de uma noite. Não! Ela já estava indo, não precisava lembrar daquela noite. Maldita memória que não podemos controlar! Tomei o cigarro de sua mão e joguei no carpete. Ela ficou olhando para mim com semblante choroso, mas não me enganava. Sabia que aquela mulher tinha imenso desejo de me matar, isso se tivesse forças. Mas não tinha. E isso me fazia sorrir, sempre por dentro quando cruzava com ela pelos corredores da casa, e agora meu sorriso estava estampado em meu rosto.

O táxi chegou e corri para dar-lhe as instruções. Quis dizer que, sob hipótese alguma, ele deveria voltar àquele endereço, mas percebi que soaria mal. Ative-me a sussurrar o endereço de destino e, num gesto rápido, depositei uma generosa quantia em sua mão. Se ele não chegasse ao destino seria melhor, mas eu sabia que chegariam. Ela sempre chegava aonde queria. Mesmo que dessa vez não quisesse, chegaria. Porque mais prazer do que fazer o que desejava, tinha ao fazer o contrário do que eu desejava. Lentamente, dirigiu-se ao carro. Aquele instante me pareceu eterno. Fez um gesto de abraço que rapidamente desviei. Um ultimo olhar e os lábios semi serrados tentaram dizer algo, uma frase que não fiz questão de entender.

Fechei a porta. Nenhum adeus. A noite chegou e pude sentir a leveza que há tantos anos esperava. Procurei alguns amigos para sair e beber para comemorar, mas poucos se demonstraram interessados em dividir da minha alegria. Sai sozinho mesmo, precisava ouvir as canções de novos tempos, de tempos de liberdade.

Passava das quatro da manhã quando cheguei em casa, estava tão bêbado que mal consegui abrir a porta. Sentei na poltrona e adormeci. O sol rasgava minha pele e tive certeza que já passava do meio dia. Quando me dei conta de que estava sentado em sua poltrona tive nojo de mim mesmo. Lembrei daquela noite e rapidamente me levantei. O telefone tocou, não esperava ligação, então fui lentamente ao seu encontro.

“Sim, sou eu, pode falar…Não preciso sentar, fale logo, de onde é?…Que tem ela?… Quando aconteceu? Não havia ninguém por perto? Isso é um absurdo!… Desculpe-me, perdi o controle…  O quê? O que ela disse?… Isso não faz muito seu estilo, mas se tu falou eu acredito. Passo aí mais tarde para assinar a papelada. Boa tarde!

Desliguei o telefone sem bem acreditar no que acabava de escutar. Pela primeira vez ouvi seu nome e me dei conta que não a veria mais. Dessa vez, nunca mais. Eu já havia lido alguns artigos sobre isso que estava sentindo, mas nunca achei que seria assim tão forte, que poderia me estraçalhar a alma desta forma. Saudade. Apenas isso. Sentei em sua poltrona e me lembrei daquela noite. Era natal. Éramos felizes. Estava sentado no seu colo e aquela cena era apenas aquilo. Éramos apenas neto e avó.

Suicídio a Quatro Mãos

– Vem, meu menino vadio
Vem, sem mentir pra você
Vem, mas vem sem fantasia
Que da noite pro dia
Você não vai crescer… – Ela cantarolava entre murmúrios e gestos desmedidos que acabaram derrubando o copo vazio.

– Por que este garçom demora tanto para trazer um maldito copo de cerveja???

– O bar parece estar fechado. Vamos embora, por favor.

– Eu não vou. Não! Nunca! Eu não desisto, não seria agora que começaria.

– Você já bebeu demais e está confundindo…

– Cale a boca!!! Não venha me dizer que confundo qualquer coisa. Eu nunca estive mais lúcida. Jamais tive tanta certeza do que preciso para viver, para ser feliz.

– Só há um problema.

– Eu sei. Eu sei…

– E então?

– Só quero meu copo de cerveja. Depois penso no “então”.

– Você não pode mudar nada. Sabes disso.

– Nem quero. Tenho total consciência disso. Só que gostaria de deixar claro que saber que não posso mudar algo não é o mesmo de desistir. Se um dia eu perceber que há alguma chance, eu a agarro. Ah, a agarro!

– Acho que o melhor é desistir.

– Pare! Por favor, pare! Não sei desistir. E, nesse caso, nem se eu quisesse… eu quis… quis muito, estas lágrimas me rasgam a face, dilaceram minha carne. Esquece. Você não sentirá jamais o que sinto agora.

– Acha que nunca derramei lágrimas tão salgadas quanto as tuas? Eu já amei, amei muito. Agora não me importo mais com isso. Tá vendo aquela gota escorrendo pela porta? Nela há mais amor que em mim. O amor perdeu o efeito entorpecente que mantinha sobre mim. Da última vez eu soube que seria a última. E foi. Acho que agora a vida ganhou colorido diferente. Sabe, quando a gente não vive esperando esbarrar com o grande romance da vida, tudo é mais simples. Amar é bom. Não amar é libertador.

– Não há nenhuma esperança dentro de você?

– Sim! Muita! Se esse verbo existir, esperanceio por tantas coisas que nem saberia dizer. Creio sem medida. Menos no amor. Se me perguntas porquê, rapidamente respondo. Olhe para você: desesperada, derrubando copos vazios, roubando olhares piedosos e enojados. Sinto pena dos que amam, pois amor é cela. É prisão cuja chave é engolida pelo encarcerado.

– Está ficando tarde. Preciso ir.

– Eu também. Espero que pense bem em tudo isso.

– Estou pensando.

Caminhou lentamente até sua casa. Eram apenas duas ruas e uma pequena ponte no caminho. Abriu a porta de casa. Sentou no sofá. Percebeu que sua última chance de amar tinha se encerrado naquela noite. Sua paixão deixou isso bem claro, mesmo que sem saber. Esperancear… não conseguiu conjugar o verbo inventado. Fechou forçadamente os olhos marejados. Sua tempestade era maior que a que começara a cair do lado de fora.

– Preciso vomitar essa maldita chave e me libertar.