Sina

Apesar da proximidade nunca ter existido,

apesar dos olhos pouco vistos,

apesar das conversas serem sempre despretensiosas,

Pesando os pesares, o maior é a distância irremediável.

E aquilo que não tem remédio,

fadado à morte está.

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Catarseando

Fico confusa com o que dizes. Ainda que não abras a boca para dizê-lo. Isso é o que mais me confunde. Virgulas demais, poucos pontos de interrogação, poucas exclamações. Um ponto final. Mas, muitas vírgulas, é isso me mata. Talvez não mate, mas corrói. E a corrosão que causas é como morte lenta. Um câncer, talvez. Não, cânceres são dolorosos demais. Deste-me leveza, sorrisos sinceros… e agora, nada somos. Isso me confunde. Só queria ser aquela que te faz cantarolar canções tão doces. Não sou. Não serei. Tudo bem. Vai passar. Tudo passa.

“O primeiro amor passou.
O segundo amor passou.
O terceiro amor passou.
Mas o coração continua.”

                                          [Drummond]

Fome

Não queria. Pelo menos não até o instante em que me foi negado. Infelizmente, sou teimosa, caprichosa, quero aquilo que não pode ser meu. Sempre. E, seguindo a profecia, foi quando me disseste não, que me cativaste. Mas, não se envaideças, como disse, é sempre assim. Com todas as coisas. És só mais uma. Sou uma competidora voraz, preciso me sentir ganhando. Do contrário, nem sei. Sempre ganho.

Morder tua carne teria um sabor único, pois seria como um prêmio. Teria que me conter para não buscar teu sangue. Falando assim, pareço até uma selvagem, mas não. Nada mais racional que a necessidade de dominação. A ânsia pela conquista de outrem é algo que me move, creio que mova a humanidade genericamente. Por dentro, todos somos assim, uns assumem (como eu), outros não. Não importa. somos antropófagos de berço e de criação.

O mais engraçado nisso tudo é que comer a carne não saciaria esse desejo ávido dos mortais. Por isso não vês as pessoas devorando umas às outras pelas ruas. Precisamos mesmo é consumir a alma alheia. Corpo é apenas corpo, mas alma, ah, a alma… algo que nem sabemos se de fato existe e que nos traz tanta certeza de auto-existência.

Calma. Não quero tua alma. Nem saberia o que fazer com ela. Sugiro que a venda a Satã, se ela estiver disponível. Ele pagaria um bom preço. Quero algo além da alma. Quero tua fraqueza. Não me entenda mal, não te quero fraco, mas sim desarmado. Direi melhor, quero tua fragilidade. Esse menino doce que sei que há aí dentro, atrás desse rosto esquivo. Tua delicadeza é o que almejo. Teus raros sorrisos antes de adormecer. Seus olhos entreabertos, seus dedos em minha pele. Quero pouca coisa, só quero te sentir meu. Quero sentir isso fisicamente e em minha pouco comprovável que exista alma. Entretanto, a certeza da impossibilidade é cada vez mais evidente.

E isso, meu caro, só aumenta o apetite.

Par lancinante

A chuva escorria pela janela. Tinha vontade de acompanhar o tracejo que cada gota fazia até chegar ao beiral. O movimento dos olhos era vão, mas mesmo assim insistia. Não que achasse que em algum instante fosse conseguir, mas não havia nada mais a fazer.

As gotas lembravam os olhos dele. A janela também. Tudo lembrava. Não quis admitir. Balançou a cabeça como que querendo espantar aquelas lembranças. Era inútil. Aqueles olhos eram inesquecíveis…

Lembrou-se do carnaval que passaram juntos, das serpentinas, da alegria em todos os rostos, os confetes no cabelo, nos ombros, os olhos. Droga! Novamente aqueles olhos! Eram inevitáveis…

Levantou-se rapidamente. Insistia na ideia de que movimentos físicos enxotavam pensamentos. Foi até a cozinha. Precisava de um café. Encontrou um livro esquecido. Quis ir até ele, levar o livro. Poderia estar fazendo muito falta. Ele poderia estar desejando avidamente ler aquele manual de pesca sem anzol. Parou. Tomou um gole de café. Percebeu que estava sendo estúpida, ridícula. Ele não queria o livro. Ele não a queria.

Era tudo tão feito pra dar certo, que deu errado. Era incompreensível…

Foi até as cartas que trocaram enquanto distantes, porém, ainda próximos. Leu. Releu. A cada lida tudo parecia mais claro e confuso. Queimou-as. Desistiu de buscar onde equivocaram-se.

Não teve problema algum. O problema é que eram os dois. O problema é que não eram. Houve muitos problemas.

Lembrou de um domingo qualquer. O dia em que mais houve doçura entre os dois. Era tudo tão claro e confuso. Os olhos diziam uma coisa, as cartas outra, a boca uma terceira coisa, os gestos uma quarta. Era coisa demais para ser decodificada. Preferiu esquecer e ir atrás daquele abajur que vira no brechó dias antes.

[o abajur tinha aquela cor, aquele esquisito tom, que só vira em um lugar… naqueles olhos]

Para sempre e um dia

– Vamos dançar!

– Mas eu não sei dançar, você sabe bem disso.

Ele sorriu. Sabia.

– É só não pensar tanto. Você se preocupa demais com técnica. Entregue-se!

Fechou os olhos e esticou a mão. O convite estava aceito. Ele achou que tinha sido convincente, mas ela adorava aquela canção. [E nunca diria não a um pedido dele.]

“It’s very clear, our love is here to stay

Not for a year, but ever and a day…”

Ela cantarolava sussurrando no ouvido do parceiro.

Sentiu que poderia continuar ali por horas, talvez dias.

A música terminou. Mas a sensação não. Então, continuaram ali, dançando.

– Estou apaixonado.

– Eu também.

Sorriram.

– Vou pedi-la em casamento amanhã.

– Que horas o voo dela chega?

– Às cinco.

Deitou no ombro dele. Até as cinco gostaria de permanecer ali. Com os rostos colados. Nada mais a fazia sentir-se mais próxima do paraíso.

-Viu?

– Hãm?

– Estamos dançando!

 

Sorvete napolitano

Queria saber o nome de todas as estrelas. Conhecer cada detalhe que torna única cada uma delas. Chamá-las pelo nome, criar apelidos.

Não conheço nenhuma.

Quando penso nas estrelas apenas um nome me vem a mente. O mesmo acontece com as flores. Só com as mais belas. É ele uma flor.

Odeio essa sensação!

Mas, acontece que realmente as semelhanças são tantas, que é impossível não lembrar. O brilho, as cores, os perfumes… São todos ele.

Meu medo era que fosse algum sentimento, amor, sei lá. Ontem, numa conversa, percebi que o problema não é que seja amor. Não é amor. Estou encantada, é isso.

Vejo nele algo que sempre busquei nas criaturas. Que nele irradia, naturalmente. Ele não entende. Também nunca disse isso a ele. Não direi. Certas coisas é melhor que fiquem assim, veladas.

O que mais me encanta é o fato de nem mesmo lembrar-me de sua voz. Como pode isso? Como posso estar assim inclinada a investir o tempo que me for requisitado em alguém que nem me lembro da  voz.

Estou confusa. Confusamente encantada.

Do que não foi, nem nunca será

“CRETINO!”

Tive vontade de gritar. Algo me segurou. Como sempre.

Queria ser desapegada de tantos pudores, tantas amarras. Tenho nojo de tudo isso e mesmo assim estou imersa neste lago de hipocrisia.

“Tudo bem.”

Foi o que, cabisbaixa, acabei dizendo. – Não, nada está bem, quero minha fatia de felicidade também. Sou humana. Mereço tanto quanto tu o que buscas. Saibas que também busco. Em outros lugares, de outras formas, mas busco.

“Oras, se não queres ser ferido, por que trouxeste este punhal? Se doeu em ti, o que te faz pensar que não dói em mim?”

Eu não disse isso, novamente minhas correntes me impediram. Às vezes, sentia vontade de voltar no assunto, mas não, ele não ouviu sequer uma das palavras que gostaria de ter dito.

Ele nem mesmo viu o meu semblante de rancor, indignação, incompreensão pelo que estava me dizendo e que eu pouco conseguia digerir. Não entendia suas palavras, tudo me parecia real, comecei a duvidar de tudo, de todos. O mal que me fizera ia além do que o que houvera entre nós dois.

Não, ele não viu isso, nem mesmo a minha vontade presa na garganta de agredi-lo, maldize-lo aos sete ventos. Está tudo aqui, dentro de mim. Quero vomitar, em seu rosto, fazendo-o sentir o sabor do que plantara em mim, de todo esse amargo sentimento chamado paixão.

Quero agarra-lo como um gavião, de maneira que seja impossível a defesa. Quero abraçar minha presa ferozmente, segurar com força seu corpo, beijar tua boca, dizer segredos aos ouvidos. Dizer que era tudo bobagem, que devemos recomeçar, que sou dele, que não se engane.

Mas, por enquanto, vou ficar com mais uma dose de tequila.