Ânsia

Abana de leve as bicheiras que te mastigam

deixa que levem isso que ferve a carne

Esse vulcão que  abrigas, dribla

vomita, as moscas, as dores

digere as cores quentes e chega!

Chega de pedir perdão

é isso que as moscas comem

disso que elas vivem

de ilusão, desilusão

Abre a geladeira, come o que cheirar bem

o que cheirar mal, devore

Sai à porta e olha teu público transeunte

cospe nos que aplaudem

enfia o dedo na garganta e explode

provoca uma autópsia sem lâmina

bota pra fora e vai embora

cata as moedas do chapéu

que essa porra nem vale a pena

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Visceral

Amassou e desamassou o mesmo pedaço de jornal algumas vezes. As notícias já estavam todas velhas, mas não era capaz de perceber. A desatenção sempre lhe foi companheira e a idade agravou essa condição. Já não conseguia acompanhar novelas, não percebeu quando seus pais faleceram e, possivelmente, não hesitaria em dizer que seus cabelos brancos haviam surgido entre duas noites.

Entretanto, naquela manhã, algo parecia-lhe estranhamente fora do comum. Algo faltava e já não podia negar-se isso. Não mais. Foi até a varanda, pegou novamente a folha de jornal envelhecida e encontrou um rosto familiar, cheio de rugas, dos amassados e dos anos. Um lágrima saltou do canto do olho direito e apenas dele, apenas ela. Aquela mulher sempre foi a mais bela de todas as notícias diárias repetidas que lera nos últimos 4 anos. Tomava e retomava a encardida folha de jornal buscando por um nome ou uma referência qualquer que pudesse levar à ela, mas nada.

Depois que o cansaço mental lhe abraçava, tacava sempre o jornal a um canto seguro. Sem que percebesse, dedicara aquele dia completo à contemplação da imagem e a noite já era partida. O sono era imenso, mas o vazio era maior. Fechava os olhos e via a tal mulher, abria os olhos e também a via. Correu até o banheiro, buscou comprimido que aliviasse a tensão e promovesse a sonolência. Só encontrou um armário vazio, um grande espelho e um rosto. Um rosto estranhamente familiar. Familiar demais. Os traços eram suaves, cansados, mas ainda suaves. Percebeu. Sentiu-se absolutamente estúpida. Catou o velho jornal e devorou-o, devorou-se. Rasgou as folhas e rasgou sua carne, agora sem sentido metafórico. Como pode ser tão leviana consigo mesma? Negligenciou-se cuidados e agora não pouparia dedicação em cada chaga que abriria naquela pele. Isso! Sim! Era bom, era sangue, era belo. Finalmente, descobriu onde encontrar a mulher da foto. Ela estava presa em sua cútis.

Toda a Poesia Contida sobre o Lobo Temporal

Todos aqueles homens que se sentaram ao seu lado durante aquela tarde lhe pareciam definitivamente amáveis. Talvez fosse culpa da chegada da primavera, talvez fosse a notícia que recebera do doutor horas antes. Um belo tumor poderia ser capaz de criar uma nova perspectiva nas pessoas. Passou umas horas inteiras sentada naquele banco da praça, pensando sobre como seria mais intensa a vida de todos, se estivessem com um cronômetro alojado sobre seus lobos temporais.

Suspirou profundamente. A doce dor que palpitava em seu peito era sintoma explícito de sua vontade de não querer perder tudo o que ainda estava por vir, o que ainda seria inventado, os programas de tv que não estreariam a tempo, as músicas de seu cantor preferido que não ouviria, das brigas e do gosto de jiló que nunca experimentou. Não gostava de jiló, mesmo sem ter jamais provado. Era burra, e agora  estava certa disto. Deixou que a vida passasse e ela passou. Agora, seu prazo de validade estava prestes a vencer e não havia reversão possível, não existia antídoto e nem retardante para o tempo.

Voltou-se para a moça que se sentou ao seu lado e perguntou as horas. A jovem rapidamente respondeu, sem voltar o rosto para a requerente: “quinze para as cinco”. Sempre achou interessante a precisão com que a humanidade conseguiu fragmentar nossa existência a partir de alguns números. Mas sentia falta das não-horas, de instantes que não pudessem ser representados por minutos ou segundos. O tempo aprisiona nossos corpos ao teu bel prazer. Escravizados, damos total legitimidade a ele, erguemos a chibata quando, por tamanha força imposta, ela rebate de nossas costa e cai perto de nossas faces. A liberdade é o terror, é ponte para terreno desconhecido, é paraíso, limbo e inferno concomitantemente.

Agradeceu o gesto de indelicadeza da moça – afinal, falar ao outro olhando nos olhos deveria ser tomado como bons modos – e levantou-se. Seu peito doía cada vez mais forte e tinha certeza de que apenas um remédio era suficientemente eficaz contra isso. Ligou para seu melhor desafeto e não hesitou: “Que tal dividir um prato de jiló frito?”

Inútil espera

Queria. Queria por não querer. Não queria por querer. E, nessa confusão de desejos, só restava uma certeza, a de que não teria.

Abriu a caixa de correios aquela manhã com a mesma pretensão dos demais dias. Mas, como também ocorrido naqueles dias, somente cobranças, revistas e spams habitavam a pequena caixa, que a cada dia tornava-se mais desenganadora. Jogou as cartas na escrivaninha e seguiu sua jornada: trabalho-faculdade-café-casa.

Chegando, à noite, observou um envelope diferente no meio das cartas. Seus olhos brilharam. Seria aquela a correspondência a tanto esperada?

O papel rosado tomou tom cinza conforme decodificava sua mensagem. Era o resultado de um exame feito há tão distante época que já nem se recordava. Era totalmente desenganador, como a caixa de correio. Em palavras secas, que só médicos – que possuem a frieza de quem lida constantemente com a morte – poderiam usar. “Apenas mais alguns dias”, “impossível cura” e um “sentimos muito” que finalizava a mensagem.

Tentou chorar. Mas não tinha pelo quê. Talvez, se aquela carta chegasse antes dessa, tivesse. Mas não veio.

E como a sua triste sina era sempre enveredada por cartas que chegavam [ou não] à sua casa, decidiu escrever uma. Não haveria destinatário. Quando a lessem, seja quem fosse, desejava que sentissem a mesma coisa: vontade de aproveitar o tempo que não tem volta.

Pegou uma folha. Três horas se passaram, nada conseguiu escrever. Foi quando viu uma gota de chuva cair sobre o papel. “Vem tempestade”, pensou. Mas não chovia. Chorava. sentiu um aperto no peito. Faltou-lhe o ar. Caiu lentamente sobre a folha úmida. Ali deixara a maior mensagem que poderia deixar para seja lá quem fosse ‘ler’.