A plateia só deseja ser feliz

Sei lá que dia da semana era, nem mesmo o ano me recordo. Só sei que a canção me tocou, como tantas outras, mas de uma forma especialmente diferente. Era uma tarde quente, disso me lembro bem. A turma estava agitada, eu também. As aulas de Sociologia eram sempre meio complicadas demais para a gente, e aquela letra, de alguma forma, me explicava o porquê. Tímida, não fui capaz de chegar até o professor e falar sobre aquele sentimento apertado, angustiado, que a canção despertou em mim. Parece bobagem, mas os professores sempre me pareceram autoridades inacessíveis, com as quais eu não conseguiria jamais conversar tranquilamente. Talvez, até hoje.

O tempo passou, mas não consegui esquecer alguns daqueles versos. Frequentemente, voltavam, mas já bastante confusos, fora de ordem, algumas vezes apenas palavras, mas sempre acompanhadas da certeza de que eram parte daquela letra. Eu já não conseguia saber se a angústia em mim era maior pelo que a canção representava ou pela ideia de jamais voltar a ouvi-la.

Minha memória, traiçoeira, não me permite descrever com exatidão o cenário da descoberta. Nem precisa. Imagino que tenha sido outra tarde quente. Mais pela emoção que pelo clima. Meu corpo era puro arrepio, não conseguia parar de tocá-la. Foi como atravessar o arco-íris, tomar o pote de ouro nas mãos e beijar cada moeda. Aos poucos, a a febre do ouro foi esvaindo, então, conforme me recompunha, pude saborear com mais prazer ainda a letra. O prazer virou angústia novamente.

Perceber que, aos 14 anos, aquela letra ainda era confusão para mim, me fez sentir menos humana. Era tudo tão óbvio, tão eu, tão nós.

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