Inesperado

A canção não saía da cabeça do rapaz. Tentava cantarolar quaisquer outras músicas, mas não adiantava. Quando achava que estava esquecida, ela voltava. Não era a canção. Era ela. Aquela criatura, doce e voraz. A música lembrava-o dela. Podia sentir seu toque a cada acorde. Era uma deliciosa tortura escutá-la.

Se fosse um disco já teria arranhado, pensou.

Não conseguia entender porque ela. Poucos conseguiam ver todas aquelas qualidades que ele encontrava tão facilmente naquela pequena. Para ele, era exatamente como precisava ser. Exatamente. O que o intrigava era que não conseguia perceber em que momento passara a sentir-se daquela maneira por ela…

Vez ou outra sentia vontade de revê-la. Às vezes, até esquecia seu nome. Da pequena moça, não da canção. Essa era inesquecível. Dez segundos… e lembrava. Lembrança acompanhada de sorriso. Mas não iria atrás. Não mais.

Afinal, apesar de todo ensaio, de todas as palavras trocadas, do desejo sufocado, apesar do que poderia parecer para qualquer estranho, eram apenas desconhecidos. E sabiam disso.

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Do(i)s sentimentos

De que me valem todas essas palavras se o que sinto é indizível. Nem mesmo suspiros, onomatopeias, gestos, olhares, nada, nada é capaz de representar o que sinto.

Queria ter a habilidade de um engenheiro para que pudesse criar engenhoca capaz de decifrar, decodificar cada uma dessas sensações que tenho aqui e que não encontro semelhantes nas dos outros seres.

Pode soar um tanto quanto presunçosa essa minha fala, mas juro que tentei. Tentei sentir o que os outros me diziam ser amor, que diziam ser ódio, nem mesmo a dor que por muitos me foi descrita jamais senti.

Temo ser diferente. Temo que descubram essa minha inabilidade de sentir.

Sinto algo. Duas coisas. Dois sentimentos.

Medo. Esse sempre me pareceu o mais lógico dos sentimentos, o que mais facilmente conseguia imaginar-se sentindo. Agora, sinto.

Paz. É, pode parecer estranho, mas ao mesmo tempo em que sou afetada por isso que decidi chamar de medo, sinto uma imensa paz. Por quê?

Simplesmente porque consegui perceber que não há duas pessoas que conseguem sentir a mesma coisa. Tudo o que fazemos é fingir sentir o mesmo que os outros. Essa pseudo-empatia é o que faz o mundo girar. Torna os seres humanos próximos, afáveis.

E, assim, o teatrinho vai se perpetuando e eu aqui, com meus dois únicos sentimentos.