Luz difusa

Cruzei as pernas, dei a última tragada no cigarro e o apaguei na coxa pálida da vadia sentada ao meu lado. Ela sorriu. Sentia um prazer esquisito toda vez que eu violava aquele corpo. Era engraçada a forma como ela se sentia comigo, provocava nela algo que nenhum homem era capaz.

Ergui a barra do meu vestido e subi no palco. Toquei o microfone como gosto que toquem meu pau, com força. Puxei alguns versos de Cazuza, mas naquela noite eu e a plateia sabíamos que quem estava naquele palco era Geni. Senti uma mão deslizando em minha perna, que levantei e, com certa firmeza, toquei meu salto agulha em seu rosto. Sabia o que era preciso fazer para deixar um homem excitado, claro que sabia, e fiz. O cara ficou bastante nervoso porque desdenhei de sua masculinidade latente. Ele queria provar que era macho, quis dizer que estava no lugar errado, mexendo com a garota errada, mas a canção era mais envolvente, “Bete balanço”… Deixei, então, que os seguranças o explicassem.

Já passava das duas da manhã quando ele resolveu se aproximar. Eu não pretendia subir pro meu quarto com ninguém àquela noite, mas enquanto ele se aproximava fui mudando de ideia. Era exatamente como o homem dos meus sonhos deveria ser, alto, de barba alinhada, olhos penetrantes, vestido como um pianista de orquestra. Pude sentir minha circulação sanguínea alterando seu rumo de maneira tão intensa que fui obrigada a cruzar as pernas. Há algum tempo homem nenhum me deixava de pau duro tão facilmente, precisava saber ao menos seu nome. Continuou vindo em minha direção e deu um largo sorriso. Não precisava saber seu nome. Precisava daqueles dentes cravados na minha carne. Levantei e fiz um gesto facilmente compreensível de que deveria subir comigo. Ele obedeceu.

O suor escorria pelas minhas costas, pelo seu rosto, pelos nossos pelos. Quando o prazer me fez virar a cabeça para a esquerda, tomei um susto. Não sei se ele percebeu, nem sei se aconteceu mesmo, mas senti minha respiração parar por dois minutos. O velho abajur da velha sala de leitura de papai. Não fazia o menor sentido ele estar ali. Aquele abajur não existia. Ou existia? Não sabia mais. A dúvida foi me fazendo meter mais forte no rabo dele. O abajur, como poderia? Como chegou no meu quarto? Lembrei das tantas vezes que papai deixou apenas aquela luz difusa iluminando sua sala de leitura, nossa sala, apenas nossa, minha e dele… Tocava meu rosto e dizia que seria sempre nosso recanto, onde poderíamos ser o que quiséssemos. E eu queria ser mamãe. Queria fazer papai gozar, queria chupá-lo e fazer mamãe ouvir seus gemidos, como eu era obrigado a ouvir os dois trepando todas as quartas-feiras. Era algo até meio religioso, como uma missa, com dia certo e hora marcada para começar e terminar.

Mas eu não podia ser mamãe. Não, o general, com toda pompa personificada na barba sempre alinhada, jamais me deu essa opção. Um dia, sentados em nossa sala, lhe disse que não queria mais cortar o cabelo, que queria um cabelo como o de mamãe, longo, para que pudesse fazer uma trança. Ele, como um verdadeiro macho, levantou-se, fechou a porta, apagou a luz e, somente iluminados pela agradável presença do abajur lilás, dançamos nossa primeira surra. Ele me disse para sair de sua sala, que eu não deveria repetir aquilo, ou ele mesmo arrancaria minhas bolas para eu comer no jantar. Pela primeira vez pensei em como seria bom ter duas bolas em minha boca.

No dia da minha formatura do colegial, depois de um pouco de cerveja, um uísque vagabundo e ácido pra cacete, levei Rui para minha casa, para nossa sala. Apaguei todas as luzes, mas fiz questão de deixar aceso o abajur beato de papai. Ele deveria presenciar o que aconteceria, deveria me ver chupando as bolas que papai me prometeu e que eu naquela noite saborearia. Gemi mais alto do que meu desejo pedia. O roçar dos nossos corpos, de Rui, do abajur, de papai e o meu era o frenesi que nunca senti. Papai descia para seu leite quente noturno e eu ali, bem pertinho, também recebia o meu. Ri, ri daquela situação, papai e eu tomando leite. Gargalhava e Rui não entendia nada, me chamou de bicha louca, deu dois tapas na minha cara, recolheu suas roupas e saiu. Papai ouviu a movimentação, mas não ousou abrir a porta. Pude sentir o cheio viril de sua hesitação na maçaneta, mas ficou nisso. Provavelmente não queria se deparar com seu filho de quatro, ou talvez estivesse prezando pela castidade do abajur.

As visitas noturnas à sala de leitura tornaram-se cada dia mais frequentes, principalmente nas quartas-feiras. Deixei meu cabelo crescer, ele não podia mais me impedir. Tomei alguns vestidos de mamãe e vestia-os quando pretendia caçar. Os estranhos de barba bem aparada eram os preferidos. Levava-os sem medos, só queria o prazer de seus corpos, sob a luz do abajur. Depois de algum tempo, percebi que só queria o abajur. Lembro bem do dia em que a maçaneta finalmente girou. Achei que papai enfim tivesse decidido entrar na brincadeira. Sim, papai, mamãe é uma puta frígida, eu tenho o calor que você precisa, apague a luz, acenda o abajur, seremos só nós na nossa sala, podemos ser qualquer coisa, podemos ser um do outro.

Não, não era papai, era a vadia velha; mamãe. Aquela mulher conseguia sempre interromper todos os meus momentos de tesão, todas as minhas ereções, tenho certeza de que era proposital. Aposto que papai lhe disse “vou ver o que robertinho está fazendo” e a vadia se ofereceu para descer e vir ver. Dessa vez não a deixaria me atrapalhar. Rapidamente, catei o abajur com a mão direita e joguei em sua direção. Um bom lance para um canhoto, consegui acertar bem no meio da cara. Ela caiu. Papai ouviu o barulho e desceu. Certamente vinha me agradecer, imagino há quanto tempo ele não sonhava com aquela noite. Mas não foi exatamente assim. Ele gritava, eu gritava, dizia que o amava, dizia ele que eu era louco, assassino. Ele não calava a boca. Agarrei-o, mas ele não parava. Disse que não tinha mais filho, que eu deveria ir, sair de sua sala, de sua vida. Eu não queria ir, precisava dele, precisava daquela sala. Peguei o abajur e comecei a dançar. Senti sangue em meus lábios, mas com os olhos fechados, continuei a dançar. Não havia mais sangue, não havia mais pai. Fui embora. Saí de sua sala, saí de sua vida.

Abri os olhos e estava de novo em minha cama. O suor, os pelos, o abajur. Éramos apenas nós, nus em pelo. Eu, papai e o abajur. Coloquei meu vestido e desci. Precisava de um cigarro. Precisava deixar aquele homem em minha cama fora da minha mente. Precisava deixar a minha mente fora daquela cama, fora daquela sala, fora dele. Cantei, cantei, jamais cantei tão lindo assim. E todo o cabaré me aplaudiu de pé.

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Saideira

Sempre chegava no fim da noite, precisava ter a certeza de que seria o último. Quando apontava na porta ela já sabia, levantava-se e ia em sua direção. Abriam seus sorrisos quase sincrônicos e ela, estendendo a mão, o acolhia, como se fosse ele pequeno menino procurando cuidados. Mas não era menino, era homem, depois de atravessarem a porta do quarto isso ficava claro. Soltava a mão que antes o acolhera e segurava sua cintura com força suficiente para jogá-la sobre a cama num único movimento. E ela gostava.

Jogava-se, então, sobre ela, tirava sua roupa rapidamente, com  se tivesse a pressa de quem espera que um instante seja eterno. Adorava o cheiro daquelas peças cheias de histórias, cheias de tantos outros cheiros. Tacava-as sempre longe, mas os tantos outros suores que passaram nelas na mesma noite vinham provocadores com o vento. Faziam toda questão de entrar em seu nariz, de lembrá-lo de que tantos outros homens estiveram naquele quarto, naquele corpo. E ele gostava.

Durante o sexo esfregava-se com força no corpo dela, tanto que podia sentir os outros suores entrando em seus poros, habitando seu corpo. Lambia o corpo daquela sua mulher, sua e de todos os outros, daquela noite e das anteriores, lambia para sentir o gosto dos outros machos, sentia-se mais macho assim. Sentia que vencia, era o último, era o suor que ela levaria para sua acolhida, para a cama em que poucos homens iam. Lambia. E ela gostava.

Depois de satisfeito, entregava o mérito do prazer alucinante àquela mulher, mérito escrito em cédulas. Deixava a entender que não voltaria, que uma outra, digna, o esperava na sua casa. Mas ela sabia que o veria em breve, mesmo sem saber porque, mesmo sabendo, ele voltaria. Porque apenas ela possuía todos aqueles outros suores para oferecer a ele. E eles gostavam.

Por fazer

Bateu a porta como quem não pretendia voltar. Lágrimas escorriam dos olhos do que ficara do lado contrário da porta batida. A chuva do olhar era tão mais tempestade que garoa que era possível ver a inundação que provocava no travesseiro, único consolador da dor ficada.

Lembrou-se da barba que nas noites de amor roçava em sua nuca. Sempre por fazer, tinha uma agressividade amorosa no atrito que provocava em sua pele. Mas, agora, já não havia mais atrito, nem amor, nem barba. Talvez apenas a agressividade tenha restado a pequena moça. Confiança é algo perigoso e aniquilador, tanto para o que confia, quanto para o que é confiado.

Sorriu imprudentemente. Não que houvesse lembrança boa em sua mente, ao contrário, lembrou do momento da despedida. “Despedida?” – pensou consigo. Nunca estiveram juntos, jamais se encontraram. Pensar num instante de despedida era ridículo, devaneio (apenas mais um).

Lúdico: melhor definição para aquilo que tiveram, ambos buscavam diversão e encontraram. O mal necessário que viam um no outro tornava tudo mais charmoso. Mas, apenas divertimento não bastava, não para eles, menos ainda para ele. Sua barba por fazer a fazia enlouquecer, o que ele buscava nela era misterioso, incompreensível. Suas almas românticas transfiguravam o prazer não fundamentado no amor em algo desprezível.

E, com toda a sua doçura, ele conseguiu repeli-la com aspereza. Secas palavras, nenhuma insinuação. Por tempo longo ela tentou entender, argumentar, compreender ainda que minimamento o que acontecera de uma noite para outra. Nada acontecera. Chegou, em uma triste manhã, a esta conclusão: nem tudo carece de explicação. E a manhã tornou-se triste por isso, não haver explicação para algo era um tormento enorme para alguém que buscava causalidade como oxigênio.

Fim. É apenas assim que pode-se resumir essa história. Durou pouco, não deixou frutos de alegria, nem de tristeza. Nem mesmo o travesseiro molhado tinha mais, ficou velho, jogado fora foi.

As lembranças são apenas poeira esperando que o vento venha dispersá-las.