Era para ser uma estória de amor

Encostou os sapatos do lado esquerdo da poltrona, e dessa vez não era o habitual scarpin verde musco com o qual já estava acostumado a tropeçar. Era um tênis, cinzento, como aquela manhã. Olhei bem seu rosto distraído e notei o quanto os anos lhe tinham sido cruéis. Nunca percebi a maneira triste como seus olhos piscavam, como sua boca contraia-se quando estava concentrada em algo. Suas mãos pareciam tremer enquanto se esforçava para amarrar os sapatos. Pensei em ajuda-la, em segurar suas mãos, mas não tive coragem. A cena seria desnecessária e ainda mais cruel que o tempo que a fez tornar-se uma mulher digna de piedade, da minha piedade.

Pegou suas bolsas e as repousou no canto da varanda, esperava pelo táxi e, então, resolveu acender um cigarro. Aquele cheiro me fez lembrar exatamente o porquê da da minha ansiedade na noite anterior por sua partida. Lembrou-me de muitas coisas, de angústias, mágoas e de uma noite. Não! Ela já estava indo, não precisava lembrar daquela noite. Maldita memória que não podemos controlar! Tomei o cigarro de sua mão e joguei no carpete. Ela ficou olhando para mim com semblante choroso, mas não me enganava. Sabia que aquela mulher tinha imenso desejo de me matar, isso se tivesse forças. Mas não tinha. E isso me fazia sorrir, sempre por dentro quando cruzava com ela pelos corredores da casa, e agora meu sorriso estava estampado em meu rosto.

O táxi chegou e corri para dar-lhe as instruções. Quis dizer que, sob hipótese alguma, ele deveria voltar àquele endereço, mas percebi que soaria mal. Ative-me a sussurrar o endereço de destino e, num gesto rápido, depositei uma generosa quantia em sua mão. Se ele não chegasse ao destino seria melhor, mas eu sabia que chegariam. Ela sempre chegava aonde queria. Mesmo que dessa vez não quisesse, chegaria. Porque mais prazer do que fazer o que desejava, tinha ao fazer o contrário do que eu desejava. Lentamente, dirigiu-se ao carro. Aquele instante me pareceu eterno. Fez um gesto de abraço que rapidamente desviei. Um ultimo olhar e os lábios semi serrados tentaram dizer algo, uma frase que não fiz questão de entender.

Fechei a porta. Nenhum adeus. A noite chegou e pude sentir a leveza que há tantos anos esperava. Procurei alguns amigos para sair e beber para comemorar, mas poucos se demonstraram interessados em dividir da minha alegria. Sai sozinho mesmo, precisava ouvir as canções de novos tempos, de tempos de liberdade.

Passava das quatro da manhã quando cheguei em casa, estava tão bêbado que mal consegui abrir a porta. Sentei na poltrona e adormeci. O sol rasgava minha pele e tive certeza que já passava do meio dia. Quando me dei conta de que estava sentado em sua poltrona tive nojo de mim mesmo. Lembrei daquela noite e rapidamente me levantei. O telefone tocou, não esperava ligação, então fui lentamente ao seu encontro.

“Sim, sou eu, pode falar…Não preciso sentar, fale logo, de onde é?…Que tem ela?… Quando aconteceu? Não havia ninguém por perto? Isso é um absurdo!… Desculpe-me, perdi o controle…  O quê? O que ela disse?… Isso não faz muito seu estilo, mas se tu falou eu acredito. Passo aí mais tarde para assinar a papelada. Boa tarde!

Desliguei o telefone sem bem acreditar no que acabava de escutar. Pela primeira vez ouvi seu nome e me dei conta que não a veria mais. Dessa vez, nunca mais. Eu já havia lido alguns artigos sobre isso que estava sentindo, mas nunca achei que seria assim tão forte, que poderia me estraçalhar a alma desta forma. Saudade. Apenas isso. Sentei em sua poltrona e me lembrei daquela noite. Era natal. Éramos felizes. Estava sentado no seu colo e aquela cena era apenas aquilo. Éramos apenas neto e avó.

Anúncios

Tarde de Chuva

Não, essa história não é sobre mim e a chuva que está caindo aqui, agora. Muito menos do que estou sentido. Essa é uma história sem protagonistas, uma história sem fim nem começo. Poderia ser a minha, mas só se eu assumisse.

 

Tendo os óculos devidamente ajeitados sobre o nariz disforme, continuou a escrever. Sentia que a qualquer instante seus dedos começariam a sangrar, mas o sangue seria um custo válido. Suas lembranças clamavam por serem guardadas em qualquer lugar, pois sua mente falhava em sua básica função, minutos eram o suficiente para apagá-las e isso o cansara.

Não queria mais ser criatura sem apego, sem sorrisos provocados por inusitado lembrar. Até mesmo as dores que corações vis o fizeram sentir o faziam falta. Qualquer lembrança, qualquer uma que o tirasse daquele estado o faria bem. Então, escrevia, tudo o que passava por sua mente passado era para o papel. A folha era seu recanto, seu alento.

Funes era seu ídolo. Como queria saber exato cheiro de cada rosa, dar nome próprio a cada uma por perceber diferença em cada uma e jamais poder chamar a todas apenas de rosas.  Mas não, era pobre, seu espírito não tinha paz.

Pegou uma fotografia. Era Chico. Amava aquele homem, sua voz o encantava e única vez pode ouvir sua voz de perto. Olhava a foto, mas não conseguia ter nenhuma lembrança, nada. Esforço imenso fez, mas nada. Secou a garganta, sentiu o nó. Não havia outra chance e, agora, aquele momento era puro desmemória.

Abriu a janela. As gotas caiam. Pegou uma faca. Fez pequeno corte no braço. Esperou a gota encarnada escorrer. Escorreu. Viu ali um dia, um sorriso, uma salva de palmas. Era Chico ali em sua mente, como se tudo estivesse acontecendo naquele instante.

Mais um corte.

Um pequeno gato surgiu. Aninhou-se em seu colo. Miou longamente, com tom de saudade. Saudade também sentira. Era Sofia, gata de infância.

Outro corte.

A boca estava seca. Então, surgiu senhora calorosa, com um grande jarro de suco de goiaba. Tomou três copos sem interrupção maior que o tempo preciso para enchê-los. Recebeu grande abraço da pequena senhora. Afago sentiu em seu peito quando percebeu que era sua avó.

O último corte não foi tão longo, já não conseguia segurar a faca com tanta precisão. Os olhos sequer conseguiram abrir-se para verificar o serviço da lâmina.

Não viu nada. Apenas escuridão. Não entendia. Teria sido o corte curto demais. Precisava pegar a faca e desfazer o engano. Não via mais nada. Nem faca, nem Chico, nem Sofia, nem vovó Lita.