Inesperado

A canção não saía da cabeça do rapaz. Tentava cantarolar quaisquer outras músicas, mas não adiantava. Quando achava que estava esquecida, ela voltava. Não era a canção. Era ela. Aquela criatura, doce e voraz. A música lembrava-o dela. Podia sentir seu toque a cada acorde. Era uma deliciosa tortura escutá-la.

Se fosse um disco já teria arranhado, pensou.

Não conseguia entender porque ela. Poucos conseguiam ver todas aquelas qualidades que ele encontrava tão facilmente naquela pequena. Para ele, era exatamente como precisava ser. Exatamente. O que o intrigava era que não conseguia perceber em que momento passara a sentir-se daquela maneira por ela…

Vez ou outra sentia vontade de revê-la. Às vezes, até esquecia seu nome. Da pequena moça, não da canção. Essa era inesquecível. Dez segundos… e lembrava. Lembrança acompanhada de sorriso. Mas não iria atrás. Não mais.

Afinal, apesar de todo ensaio, de todas as palavras trocadas, do desejo sufocado, apesar do que poderia parecer para qualquer estranho, eram apenas desconhecidos. E sabiam disso.

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Queda

Abriu os olhos lentamente. Fechou-os. Tornou a abrir. A luz que rompia o vidro já não permitia retornar ao sonho que tivera. Levantou-se, com ares de quem ainda resistia em acordar. Banhou-se, fez a barba, bebeu o café com as, quase religiosas, três gotas de adoçante e partiu para mais um dia de trabalho.

O caminho até o escritório era torturante. Do táxi era obrigado a observar a alegria matinal dos que passeavam pela orla, dos que praticavam esportes praianos, daqueles que apenas conversavam entre amigos, dos que acompanhavam seus cãezinhos. Todos que faziam a manhã sempre parecer maravilhosa. Eduardo os odiava. Não invejando a vida que levavam, mas porque sabia que nenhum deles era realmente tão feliz quanto tentavam aparentar. Todos, certamente, eram cheios de tantas dores quanto ele, isso era totalmente perceptível para Eduardo. Aqueles caminhares sem destino, as conversas despropositadas, andando com animais que ali, ao lado, só permaneceriam enquanto fosse alimentados…

-Pobres almas. – Pensava ele.

Sorriu levemente, imaginando o amargor de cada uma daquelas criaturas.

-Certamente aquela ali apanha do marido; Aquele tem uma doença terminal, poucos dias de vida e nenhum amigo com quem possa dividi-los.

Seu sorriso crescia conforme imaginava as situações e observava os falsos semblantes de felicidade.

Quis achar sua vida melhor que as deles. Não era. Não tinha sequer um amigo, amores nem mesmo os platônicos, nem dinheiro. Apenas trabalhava, o dia inteiro. O que ganhava mal dava para pagar suas despesas essenciais. Comida, aluguel, roupas, empregada, luz, prostitutas, telefone…

Chegou à sua sala. Resolveu que mudaria sua vida, teria grandes amigos, um amor para a vida toda, um gatinho de estimação. Darwin seria seu nome.

Balançou a cabeça rapidamente, como quem acorda de um cochilo em um momento inapropriado. Nada daquilo era para ele, seu destino era a solidão. Pensou em suicídio. Sua moral cristã o fez pensar no inferno. Desistiu. Já achava o verão carioca uma amostra um tanto quanto perversa do que o esperaria.

Ficou em silêncio por mais cinco minutos, levantou-se, foi até o terraço do prédio. De lá fitou a cidade, sua imensidão, seu imenso vazio de emoções. Alguém chegou repentinamente. Eduardo levou um grande susto. Tropeçou no beiral. Caía.

-Então, é isso? Morrer é isso?

Sentiu frio. O chão era parte de seu corpo. Viu a multidão de curiosos aproximando-se. Alguém chegou bem perto e falou algo incompreensível.

-Não dói. É até bom, uma sensação boa, sabe? – Sussurrou com dificuldade. – Então, é isso? Morrer é isso?

-ALGUÉM CHAME UMA AMBULÂNCIA. – Gritou um transeunte.

Com a última força que eu corpo reservava, segurou a mão do mais próximo e disse:

-Não. Por favor, não.