Dum livro achado


Olhou para o lado da cama. Observando a pilha de livros que servia-lhe como criado-mudo, percebeu que entre aqueles havia um que nunca lera. Pegou-o, folheando lentamente. “Como pude nunca ler O pequeno príncipe?”. Perguntou em voz alta, quase que repreendendo-se. Resolveu faze-lo naquele instante.

A princípio, achou o livro infantil demais, cogitou parar, mas, aquela era uma decisão que tomara, não poderia voltar assim, tão facilmente. Aos poucos conseguiu encontrar beleza naquelas palavras. Um menino terno, que conseguia enxergar além do que os pobres adultos acabavam domesticados a ver. Que conseguia ver além de caixas.

Isso a encantou. Começou a devorar as páginas, os parágrafos, cada letra tinha um sabor que a muito não sentia. Era doce.

E, assim, acabou pegando no sono lendo aquelas tão afáveis palavras…

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Memória

17 de novembro de 2009

– Um beijo! – Ela pedia com os olhos tão marejados, tão mareados, que ele não conseguia negar-lhe. – O último. – Fez questão de impor antes de satisfazer o pedido.

Durante alguns minutos tudo o que conseguiam enxergar eram os olhos um do outro. Entre mordidas, lágrimas, mãos entrelaçando fios de cabelo, esqueciam-se porque deveria ser aquela a última vez. Toda aquela delicadeza que só encontravam na ferocidade daquele amor. Só deles. Só eles.

– Nunca te esquecerei. Tenha certeza disso! – disse ela.

Ele sorriu. Abraçaram-se.

  25 de agosto de 2011

Chega ao café de sempre, cumprimenta a amiga que já a esperava a alguns minutos. Conversam. A amiga percebe o ar absorto e questiona-a.

– Não é nada. – responde, ainda conectada ao pensamento distante. – Sabe aquela estranha certeza de que conhece uma pessoa com quem cruzas na rua? Tive isso a pouco. Aquele homem não me era estranho. Seu rosto, seus lábios, os olhos. Todo ele parece que morava dentro de mim. Talvez o conheça de meus sonhos, mas o conheço, tenho certeza.

– Será que não foi algum colega de faculdade?

– Não sei. Eu não o esqueceria se fosse realmente importante. Então, deixemos isso pra lá.

Sorriu, fingindo que não ligava mais para aquele pensamento. Os olhos a denunciavam. Pareciam buscar o rosto em todas as lembranças. Não encontrava.