Sina

Apesar da proximidade nunca ter existido,

apesar dos olhos pouco vistos,

apesar das conversas serem sempre despretensiosas,

Pesando os pesares, o maior é a distância irremediável.

E aquilo que não tem remédio,

fadado à morte está.

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Catarseando

Fico confusa com o que dizes. Ainda que não abras a boca para dizê-lo. Isso é o que mais me confunde. Virgulas demais, poucos pontos de interrogação, poucas exclamações. Um ponto final. Mas, muitas vírgulas, é isso me mata. Talvez não mate, mas corrói. E a corrosão que causas é como morte lenta. Um câncer, talvez. Não, cânceres são dolorosos demais. Deste-me leveza, sorrisos sinceros… e agora, nada somos. Isso me confunde. Só queria ser aquela que te faz cantarolar canções tão doces. Não sou. Não serei. Tudo bem. Vai passar. Tudo passa.

“O primeiro amor passou.
O segundo amor passou.
O terceiro amor passou.
Mas o coração continua.”

                                          [Drummond]

Metamorfose ambulante

Bem, hoje resolvi variar um pouco. O motivo? Nada em especial, provavelmente em breve volto a rotina dos outros textos. Só que hoje, especialmente hoje, fiquei bastante entediada enquanto lia as estórias anteriores. Percebi que tudo andava tão sensaboria, que sei lá. Talvez esse meu estado (blasé, ao meu ver) seja fruto do gradual desencantamento que tenho sofrido, tantas porcarias que cri até então, agora, me parecem apenas estupidez.

Pensando nisso tudo, decidi sentar aqui e começara escrever, sem propósito, sem assunto, sem lembranças toscas, despida das bobagens que normalmente me motivam neste espaço.

Não quero ser mal interpretada, não falo de arrependimento, falo de algo diferente, que não sei nomear. Não me arrependo de acreditar em certas coisas. Se cri, só devo isso a minha ignorância – vasta, diria infinita. Arrependimento é outra coisa.

Sobre arrependimento…

Há alguns dias fiz um comentário – em blog desses do mundo – dizendo que uma das coisas das quais duvido é a descrença no amor. Enfim, Se pudesse voltar ao instante anterior à confirmação do comentário, eu o desfaria. Por quê? Sabe o papo do parágrafo anterior sobre desencantamento?… Tantas coisas passaram em minha mente naquele instante. Todas tolices. Ouvi coisas, vi, disse, li, toquei, cheirei, enfim, coisas que me fizeram perceber o quão infeliz foi minha colocação naquele comentário.

Sobre algumas coisas da vida eu me permito desconfiar de serem reais ou não. Mas dessa vez, devo desdizer o que disse antes, realmente, é possível abrir mão de sentimentos. Não sei especificamente do amor, porque nesse ainda acredito. Tola, ainda espero pelo cavalo branco montado no príncipe, ou vice-versa, tanto faz. Mas ando tão incrédula ultimamente, que nem sei até quando isso continuará assim… Bem que me alertaram das referências que ando buscando, mas sou teimosa, prossegui, prossigo com elas. Contudo, é impossível manter certas posições. Como é impossível ver ‘Deus’, arte e amor da mesma forma depois de ler Nietzsche.

Coisas da vida…

Fome

Não queria. Pelo menos não até o instante em que me foi negado. Infelizmente, sou teimosa, caprichosa, quero aquilo que não pode ser meu. Sempre. E, seguindo a profecia, foi quando me disseste não, que me cativaste. Mas, não se envaideças, como disse, é sempre assim. Com todas as coisas. És só mais uma. Sou uma competidora voraz, preciso me sentir ganhando. Do contrário, nem sei. Sempre ganho.

Morder tua carne teria um sabor único, pois seria como um prêmio. Teria que me conter para não buscar teu sangue. Falando assim, pareço até uma selvagem, mas não. Nada mais racional que a necessidade de dominação. A ânsia pela conquista de outrem é algo que me move, creio que mova a humanidade genericamente. Por dentro, todos somos assim, uns assumem (como eu), outros não. Não importa. somos antropófagos de berço e de criação.

O mais engraçado nisso tudo é que comer a carne não saciaria esse desejo ávido dos mortais. Por isso não vês as pessoas devorando umas às outras pelas ruas. Precisamos mesmo é consumir a alma alheia. Corpo é apenas corpo, mas alma, ah, a alma… algo que nem sabemos se de fato existe e que nos traz tanta certeza de auto-existência.

Calma. Não quero tua alma. Nem saberia o que fazer com ela. Sugiro que a venda a Satã, se ela estiver disponível. Ele pagaria um bom preço. Quero algo além da alma. Quero tua fraqueza. Não me entenda mal, não te quero fraco, mas sim desarmado. Direi melhor, quero tua fragilidade. Esse menino doce que sei que há aí dentro, atrás desse rosto esquivo. Tua delicadeza é o que almejo. Teus raros sorrisos antes de adormecer. Seus olhos entreabertos, seus dedos em minha pele. Quero pouca coisa, só quero te sentir meu. Quero sentir isso fisicamente e em minha pouco comprovável que exista alma. Entretanto, a certeza da impossibilidade é cada vez mais evidente.

E isso, meu caro, só aumenta o apetite.

Poemasemespaço,sempoesia

Oespaçoquecolocamosentreaspalavrassãoespaçosentreaspessoas

e,porissso,destaveznãocolocareiespaçosentreaspalavras

queroauniãodosgrãosdeareiamolhadospelaáguadapraia.

Sãovários,sãoum.

Vamos,amor,dá-metuamão,juntos,juntinhoscomoosgrãos

Estediaétodonosso,aproveitemostodasastuashorasparaamar

deitacomigoeficaremosaqui,

molhadospelaáguadapraia,

juntos,juntinhos.

Entre confetes e serpentinas

(Qualquer semelhança com a vida real, certamente é obra da dificuldade de retirar fatos ocorridos recentemente de minha mente)

Deu um longo suspiro de cansaço. Já não queria mais estar ali, porém, era impossível lutar contra a força da massa que a cercava. Entrou na primeira porta que encontrara, uma agência bancária. Nenhuma surpresa foi ver diversos foliões estirados entre os caixas eletrônicos. Mesmo assim, o ambiente ainda era copiosamente melhor que o externo.

– Não vim a este mundo para isso. Quero meu videogame, minhas revistas, meu romance que anseio terminar leitura… – Pensou.

A amiga que a acompanhava disse que daria uma volta pelos arredores para ver se encontrava os demais amigos de quem se perderam em meio a multidão.

Então, ali, sentada, permaneceu.

Num instante de distração, com os pensamentos perdidos em bailes ideais, ouve uma voz conhecida. Não, não era possível. Voltou à fantasia. Logo, sentiu uma mão ao ombro e um chamado.

Levantou os olhos e notou que conhecia bem aquela voz e aquele rosto. Finalmente, pela primeira vez naquela manhã, abriu um sorriso espontâneo.

– Quanto tempo! Só o destino mesmo para nos colocar frente a frente, não é mesmo?

– Diria que as travessuras do destino, porque se não fosse a sucessão de intempéries que passei…enfim, quanto tempo mesmo.

E, assim, começou uma pequena longa conversa. Ela já nem se lembrava daquilo tudo que justificava a lágrima premonitória pintada em sua face. Depois dos quinze minutos mais prazerosos que poderia haver, um amigo o chama a porta e ambos percebem que é o momento de ir.

– Bem, até pediria teu número, se não tivesse sido levado, – sorriu – mas te encontrarei, pode deixar.

Ela sorriu descrente e, simultaneamente, esperançosa:

– Nos encontramos, então.

A saga teria que continuar, mas, desde o instante do reencontro, a moça já sentia-se no baile pouco antes imaginado.